Outra ótima e radical contribuição vinda do Brasil - Le Monde Diplomatique

Projeto Revoluções

Outra ótima e radical contribuição vinda do Brasil

por Costas Douzinas
17 de maio de 2011
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O Projeto Revoluções é o melhor exemplo de uma nova confiança e do radicalismo da esquerda brasileira que agora está forçando seus políticos a prestarem contasCostas Douzinas

Em outubro de 2010 dei uma série de palestras em cinco cidades brasileiras sobre direitos humanos e políticas radicais, durante o tenso período entre o primeiro e o segundo turno das eleições presidenciais. Nascido na Grécia e tendo vivido em Londres a maior parte da minha vida, eu estava bem deprimido. A Grécia tinha acabado de reduzir os salários e pensões dos servidores civis em até 30% conforme instruções do FMI e da União Européia. O novo governo conservador estava prestes a introduzir medidas semelhantes na Inglaterra, cortando drasticamente os serviços públicos e penalizando em particular as universidades. As medidas que o Norte haviam introduzido a fim de disciplinar e “modernizar” o Sul estavam agora retornando ao seu local de inspiração como vingança.

 No Brasil o clima era diferente. Eu estava iniciando minhas conferências dizendo que estava sem idéia e que todos os experimentos sociais e o pensamento político estavam emergindo na América Latina. Na Europa, o liberalismo inglês clássico havia surgido com a social-democracia alemã e com o estatismo francês, produzindo os piores aspectos e gerando um híbrido conhecido como “neoliberalismo”. Meus anfitriões brasileiros, no entanto, estavam preocupados com o resultado das eleições e seus possíveis efeitos nos programas de justiça social iniciados pelo presidente Lula.

 Seis meses mais tarde o clima havia mudado em ambos os continentes. Quando um grupo de jovens e dedicados pesquisadores acadêmicos lançou uma série de eventos sob o título provocativo de “Revoluções”, esperando apenas um modesto grupo de obstinados radicais, reservaram um salão para cem pessoas. Fui convidado para ministrar um curso sobre “Revoluções e direitos humanos”, durante uma semana, o que já me surpreendeu bastante. Depois, descobri que este seria um evento entre outros, a ser desenvolvidos até dia 3 de julho: conferências, exposição de fotos, seminário sobre Estética e Revoluções, oficina sobre filmes debatendo revoluções, além das discussões realizadas no site revolucoes.org.br.

 Quando cheguei em São Paulo o salão para as palestras havia sido trocado por um enorme espaço de auditório com capacidade para 1.500 pessoas. Os participantes eram oriundos de todos os setores: trabalhadores, estudantes, acadêmicos, pessoas de grandes centros e favelas. Mais da metade tinha por volta dos 20 anos de idade. Por quatro noites consecutivas, seguiram com paixão e intenção crítica minhas palestras sobre a direita e revolução e a relação entre revoluções e direitos humanos. Também, durante uma semana convivi, entre intensas e vibrantes discussões, com Douglas Barros, Moara Passoni, Silvio Carneiro e Henrique Xavier, organizadores do curso e do material didático para o mesmo. Moara e Henrique conceberam o projeto, mas nesses dias pude conhecer vários jovens, como Yara Nai e outros do ITS Brasil e do Sesc, animados e engajados na organização de todos os detalhes.

 Foi uma experiência incrível para este acadêmico levemente invejoso vindo de Londres. A vitória do PT e de Dilma mudaram a trave do gol de lugar. A consolidação do poder do PT significa que o povo agora estava pedindo dos seus governantes que levassem suas promessas de justiça social e redução da pobreza a sério, e que desafiassem os conglomerados da mídia, bancos e agronegócios, que consistentemente têm resistido e se desviado nos governos anteriores. Um terceiro mandato socialista comprometido com justiça deve começar a mudar o equilíbrio de poderes. Um após outro conferencista insistia no tema das elites econômicas que se beneficiaram enormemente no governo Lula com o povo.

 Para mim o momento decisivo foi o último dia. O comentador após minha palestra foi Paulo Teixeira, líder do PT na Câmara dos Deputados, um radical honesto que concordou com a análise que os direitos humanos devem ser suplementados com um mandato mais forte, mais longo e mais comprometido com a justiça social, se o PT quiser mudar o futuro do Brasil. Sua fala apresentou um governo de boa vontade, mas frustrado a cada turno pela mídia, elites econômicas e pelo agronegócio. Este é um governo de oposição, formalmente poderoso, mas impotente nas áreas importantes. Quando sugeri que essa situação pedia por ampla mobilização social para dar apoio a medidas radicais necessárias, Paulo, um homem gentil e atencioso, fez uma pausa e não respondeu.

 O enorme sucesso dessa iniciativa por parte de alguns poucos jovens muito talentosos e comprometidos era a prova de que a idéia de mobilização, e iniciativas vindas de baixo, está tomando vulto. O Projeto Revoluções é o melhor exemplo de uma nova confiança e do radicalismo da esquerda brasileira que agora está forçando seus políticos a prestarem contas. Não se poderia pensar em uma iniciativa mais bem sucedida por pessoas radicais que, fora dos circuitos do patrocínio do governo ou do patrocínio privado, se encarregaram de revitalizar o pensamento das políticas radicais onde ainda têm retórica, pelo menos de aceitação.

 No final desta semana emocionante, eu estava sentindo, diferente do final de outubro, que a diferença entre meu país e o Brasil tem diminuído. As enormes manifestações em Londres e o bem sucedido movimento de resistência na Grécia, que levou as medidas “socialistas” do governo até as portas da derrota, significam que o espírito europeu de resistência está retornando. Após muitas décadas o catecismo ideológico sobre o fim da história com o neoliberalismo apresentou tanto o presente como as coisas futuras, que começaram a se movimentar novamente.

 Talvez nós, velhos cansados europeus, temos aprendido com os excitantes experimentos sociais e com o espírito de revolta dos latino-americanos. O Projeto Revoluções comprovou que o Brasil ainda está à frente em termos de excitação, energia e expectativas. Trata-se de uma inversão bem-vinda do antigo adágio que situava o pensamento, ação e inovação no Norte.

       

SAIBA MAIS

Projeto realiza seminário nos dias 20 e 21 de maio

 

O Projeto Revoluções reúne cinema, fotografia, música, curso, seminário, conferências e lançamentos de livros e filmes com o objetivo de debater as revoluções sociais e os direitos humanos sob a perspectiva da estética e da política. Idealizado por um grupo de jovens artistas, estudantes, jornalistas, professores e militantes, Revoluções é fruto de uma parceria entre a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República com o Instituto de Tecnologia Social – ITS BRASIL, o SESC-SP e a Boitempo Editorial, com apoio do Instituto Goethe, Consulado da França no Brasil, E-open e Versátil Home Vídeo. A coordenação geral é de Henrique P. Xavier e Moara Rossetto Passoni.

Entre os meses de maio e abril, foram realizados o lançamento do site Revoluções (www.revolucoes.org.br), o curso “Revoluções e direitos humanos: Educação, revoluções e seus direitos” e uma conferência sobre “Imaginário, futuro e utopia”, com Frei Betto. Nos dias 20 e 21 de maio acontece o seminário “Revoluções: Uma política do sensível”, com a presença de Slavoj Zizek, Marilena Chauí, Bernard Stiegler, Vladimir Safatle, Alexander Kluge, Emir Sader, Michael Löwy, Eduardo Grüner, entre outros. Neste mês também ocorre a abertura da Exposição Revoluções, que conta com filmes de Alexander Kluge e Jean-Luc Godard, fotografias das revoluções sociais do século XX e pesquisa e composição musical de Willy Corrêa de Oliveira e Maurício De Bonis; além de diversas oficinas. A programação vai até 3 de julho e está disponível no site www.revolucoes.org.br.

Todas as atividades acontecem no SESC Pinheiros em São Paulo e têm entrada franca.

Costas Douzinas é Professor de Direito e diretor do Instituto de Ciências Humanas de Birkbeck, na Universidade de Londres. É também professor visitante nas Universidades de Atenas, Paris, Tessalônica e Praga. Conhecido por seu trabalho nas áreas de direitos humanos, estética, jurídica pós-moderna, teoria e filosofia política, fez parte da equipe que criou a Escola de Direito de Birkbeck.



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