MÚSICA

Ozzy Osbourne: de anticristo a cristão?

Muitos celebraram o que acreditam ter sido uma aproximação de Ozzy com o cristianismo nos últimos anos

É emblemático que as últimas palavras de Ozzy Osbourne no show de despedida do Black Sabbath tenham sido: Godbless you all [Deus abençoe a todos]. Não foi a primeira vez que Ozzy assim o fez – há mais de uma década esse era um costume seu ao final dos shows. Mas ali, naquele momento final e tão simbólico no 5 de julho, no Villa Park, estádio do Aston Villa, em Birmingham, tornou-se um gesto carregado de significado. Afinal, ele passou a maior parte de sua carreira sendo associado ao satanismo, o que lhe rendeu o apelido de “príncipe das trevas” e se tornou uma persona sua – cuja participação especial no filme Little Nicky – Um Dia de Cão (2000) faz referência direta. 

Isso não passou despercebido. Num contexto digital polifônico – em meio a uma profusão algorítmica de notícias, postagens no Instagram, homenagens etc. –, vimos cristãos de diferentes vertentes, evangélicos e católicos, reagirem à sua morte com surpresa, empatia, crítica ou ironia. A repercussão foi quase geral, embora os sentidos fossem diversos. Muitos celebraram o que acreditam ter sido uma aproximação de Ozzy com o cristianismo nos últimos anos.  

Na internet, a morte de figuras como Ozzy se transforma em trend. Vídeos antigos de Ozzy em diversas ocasiões, nos palcos e fora deles, são resgatados. Músicas voltam às paradas. Memes circulam. No Brasil, houve até quem dissesse que Ozzy “pregava mais que o Pastor Mirim”. E, em uma missa de sétimo dia, numa cidade do interior de Minas Gerais, um padre brasileiro chegou a citá-lo nominalmente entre os falecidos durante as intenções da celebração, e isso rodou as redes. Um luto viral. 

 

O que esse movimento revela? 

Nos parece interessante traçar um paralelo entre a figura pública de Ozzy nos anos 1980 e sua ressignificação atual. Afinal, por muito tempo ele foi tratado como inimigo direto dos cristãos e má influência para os jovens. Junto a uma leva de bandas de rock/metal como Twister Sister; WASP, Def Leppard, AC/DC, sua obra foi acusada de satanismo e associada ao aumento da criminalidade e violência entre jovens nos Estados Unidos. Seus shows eram alvo de protestos. Seus discos, criticados por políticos e religiosos. Ele mesmo, em sua autobiografia, I Am Ozzy (2009), relata a perseguição que sofreu durante o período. 

Um dos episódios mais emblemáticos dessa época foi o caso de John McCollum, jovem de 19 anos que se suicidou enquanto ouvia o disco Speak of the Devil (1982). O pai do jovem acusou Ozzy de ser responsável pela tragédia, dizendo que o filho ouvia a faixa Suicide Solution. No entanto, a acusação era falha desde o início: a música não estava no disco. Mesmo assim, o caso foi parar nos tribunais. O advogado de Ozzy defendeu que, se aquele tipo de letra fosse censurável, teríamos que proibir também Romeu e Julieta, de Shakespeare.  

Futuramente o processo foi arquivado. Contudo, enquanto durou, a perseguição seguia. “Os loucos de Jesus eram os piores”, disse Ozzy anos depois. O seguiam por todo lado, com a anuência dos televangelistas, com placas dizendo: “O Anticristo está aqui”. 

Curioso que essa tensão gerou, nos anos seguintes, respostas culturais dentro do próprio heavy metal. Um dos exemplos marcantes é a música Who’s to Blame?, lançada pela banda de thrash metal Sacred Reich no disco The American Way (1990). A canção narra a história de Johnny, um jovem que se suicida e cujos pais culpam o heavy metal, dizendo que “todas essas coisas são malignas. Ozzy e Judas Priest” e que nessas músicas havia mensagens subliminares que o “levariam até a Besta”. A letra questiona essa narrativa: talvez a culpa não seja da música, mas dos próprios pais, ocupados demais para perceber o sofrimento do filho.  

Crédito: Portal Focka/Flickr

Uma resposta geracional e poética ao pânico satânico e moralismo religioso que recaiu sobre artistas como Ozzy. E também um lembrete de que uma das potências da arte é sua abertura à interpretação. Ao longo da vida, Ozzy e o Black Sabbath por diversas vezes disseram que nunca foram satanistas. Tudo era mais uma questão de estética, teatro, ironia e… marketing. Segundo Ozzy, “a coisa chegou a um ponto em que, se você colocasse uma etiqueta de ‘parental advisory’ no seu disco, dizendo que ele continha letras explícitas, vendia o dobro de cópias”. 

A verdade é que, desde o Sabbath, Ozzy escreveu e cantou músicas que falam de Deus, Cristo e o demônio.  

After Forever, por exemplo, música do terceiro álbum de estúdio do Sabbath (Master of Reality, de 1971), é considerada por muitos como a primeira canção de whitemetal – estilo de metal cristão – da história. Ela reflete sobre a salvação da alma, apresentando uma visão crítica do ateísmo: “Talvez você pense antes de dizer que Deus está morto e já se foi. Abra os olhos, apenas perceba que Ele é o único. O único que pode te salvar agora de todo esse ódio e pecado”. 

Há quem leia a canção Iron Man como uma alegoria de Cristo – não é consenso, mas há católicos que endossam a interpretação, por exemplo. E, em seu último álbum gravado em 2022, Patient Number 9, Ozzy canta a música One of Those Days ao lado de Eric Clapton, que narra a situação de alguém existencialmente confuso e que questiona: “Hey, hey, eu perdi o controle? Bebendo meus pecados, mas nunca afogo minha alma. Um daqueles dias em que não acredito em Jesus”. 

Nessa canção Ozzy falava de si? Não sabemos exatamente. Mas que ele tinha suas crenças, é claro que tinha. Relembrando a perseguição dos “loucos de Jesus” que sofrera nos anos 1980, Ozzy disse em 2009: “O mais engraçado é que, na verdade, eu me interesso pela Bíblia e tentei lê-la várias vezes. Mas só cheguei à parte em que Moisés tinha 720.291 anos e pensei: ‘O que essas pessoas fumavam na época?’. O resumo é que não acredito num cara chamado Deus sentado numa nuvem fofa, não mais do que acredito num cara chamado Demônio com um tridente e um par de chifres. Mas acredito que existem o dia e a noite, há o bem e o mal, há o negro e há o branco. Se existe um Deus, é a natureza. Se existe um Demônio, é a natureza”. 

Assim, cristão ou não, não parece que sua fé fosse fixa e se referisse a uma concepção tradicional de um Deus transcendente, pessoal, juiz das ações humanas. Mas sim em algo mais próximo do Deus de Espinosa, aquele que, segundo Einstein, “revela a si mesmo na harmonia de tudo o que existe”. 

 

Renan Baptistin Dantas é doutorando em Ciências Sociais (Unicamp) e pesquisador do Laboratório de Antropologia da Religião (LAR/UNICAMP). 

Ramon da Silva Teixeira é professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e doutorando em Ciências Sociais (UFRRJ). 

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