‘Papaya’: primeira animação brasileira selecionada para o Festival de Berlim é uma poética reflexão sobre a vida
O filme acompanha a trajetória de uma semente de mamão papaya, desde seu nascimento, sendo amamentada dentro de seu fruto, seu despertar, sonhos, “voos”, erros, medos e aprendizados
Com visual estético e sonoro lúdicos que participam ativamente da narrativa, que relembram desenhos infantis, como Peixonauta e Show de Luna, ambos brasileiros, Papaya é um longa-metragem sensível, belo, profundo e conversativo com o telespectador. Independente da idade que você tenha, dificilmente não se identificará com a história contada pela diretora Priscilla Kellen, que estreia sua cadeira de diretoria geral da melhor forma: o primeiro filme de animação brasileiro da história selecionado para o Festival de Berlim.
Ao longo de 74 minutos acompanhamos a trajetória de uma semente de mamão papaya, desde seu nascimento, sendo amamentada dentro de seu fruto, seu despertar, sonhos, “voos”, erros, medos e aprendizados. Um filme que te mostra, mesmo que não diga de forma verbal, a importância da trajetória da vida, das raízes, das escolhas e ambientes em que você decide percorrer, de uma forma que todos presentes na sala de cinema se sintam tocados pela dinâmica vista em tela.

A mãe, um mamoeiro, que propõe uma narrativa para sua filha e projeta seus passos para que suas sementes sigam sua trajetória, esbarra com uma protagonista aventureira e sonhadora. A sementinha, que se encanta pelo brilho dos céus e vento, que admira joaninhas e gafanhotos, só percebe que o plano de imitá-los pode não dar certo quando já se encontra em um caminho sem volta e longe de casa, em meio a perigos da rua, da fazenda, da indústria.
Longe da floresta e de sua mãe mamoeiro, nossa protagonista vive uma odisseia para retornar a casa. Contudo, como analogia à vida humana, o mesmo local que lhe garantiu raízes que permitissem suas andanças por aí, parece alternar entre local seguro e passado que já não existe mais. A floresta, que parece viver seus últimos momentos de paz devido ao avanço de máquinas e produções humanas, é entendida pela sementinha como o local a se retornar a todo custo, mesmo que esse movimento pareça impossível.
A saída da bolha, da casa da mãe, do seu mundinho, se deparando com o “terror” do mundo lá fora… histórias que escutamos há gerações e rapidamente nos conecta, ao passo de que para o telespectador mirim, que ainda não passou por essa experiência de vida adulta, se encanta com o estilo de colagens, cores vibrantes e diversidade de personagens vista em cena, entendendo o recado passado por Kellen.
A diretora e roteirista, que possui mais de 15 anos de experiência em outras áreas do audiovisual, como coordenação artística de projetos infantis de animação em filmes premiados e programas do Discovery Kids, assina em Papaya sua veia de maior identidade. Formada em design gráfico, Kellen diz se inspirar em artistas como Beatriz Milhazes, Henri Matisse e Burle Marx, referências claras ao seu trabalho de colagens e paisagismo assistidos no decorrer do longa. Usando cultura popular, artesanato e ancestralidade como pilares de sua estrutura visual e argumentativa, a diretora possui um “leque de ouro” em mãos.
Junto dela, o trabalho excepcional de Talita Del Collado, responsável pela trilha sonora, traduz essas emoções por meio de uma sonoridade que dialoga diretamente com a natureza e com referências da cultura brasileira, como forró, com acordeon, viola e violão. Junto com o desenho de som, o filme parece não necessitar de fato da presença de diálogos, visto que a montagem sonora se encontra disposta a explicar o que for necessário para além da já bem expressiva sementinha.
Com tudo isso, aquele que pagará o ingresso para levar sua família ao cinema para prestigiar Papaya sairá da sessão de alma leve. Um filme que mostra que por mais que cometamos erros ao longo de nossa jornada e quisermos retornar à casa, esses elementos nos tornam exatamente o personagem necessário de nossa própria história, com nossas narrativas e antagonistas, que, mesmo por vezes não sendo cenários ideais, nos destinam para nossa nova casa, seja para cultivar novas raízes, seja para aprofundar as raízes que você carrega consigo desde que se despediu do seu primeiro lar.
A partir de recálculos de rota e boas influências na trajetória, a sementinha entende seu novo local de pertencimento, percebendo que voltar para casa nem sempre significa retornar ao ponto de partida. Crescer também é compreender que algumas raízes permanecem conosco mesmo quando deixamos para trás o lugar onde nascemos. E talvez seja justamente aí que Papaya encontre sua maior força: contar uma história, aparentemente simples, sobre uma pequena semente para falar de algo tão grande quanto a própria vida.
No fim, Papaya não é apenas uma história sobre uma sementinha que deseja conhecer o mundo. É sobre sair, se perder, errar, sentir medo e descobrir que a vida não segue necessariamente o caminho que imaginamos. É sobre entender que nossas raízes não determinam até onde podemos chegar, mas nos dão a base necessária para continuar crescendo. Entre colagens, cores, sons e uma pequena protagonista que quase não precisa falar para ser compreendida, Kellen encontra uma maneira delicada de lembrar que crescer é também aprender a escolher onde criar novas raízes. E, para um filme sobre uma semente de mamão, é uma baita colheita.
Gabhriel Giordani Fagundes é jornalista e produtor audiovisual.

