A AVERSÃO A LULA

Para o meu irmão bolsonarista

O bolsonarismo é como uma chaga, uma ferida aberta que atravessa a vida política e alcança nossas relações mais íntimas 

Passado o segundo turno das eleições, meu irmão deixou de me seguir nas redes sociais. Quis cortar relações porque, segundo ele, não fazia sentido eu estudar tanto e, nas suas palavras, “ser tão cego”. O requinte de crueldade veio quando ele disse que não considerava nenhum diploma meu. Não pretendo reduzi-lo ao rótulo de “pobre de direita”. Aliás, viemos de uma família com quase nenhum poder aquisitivo. No final dos anos 1990, meus pais, assim como tantos outros, deixaram o Nordeste e foram para Brasília em busca de uma vida melhor.  

Crédito: Ministério do Desenvolvimento Social/Wikimedia Commons

Os deslocamentos continuaram já que ainda hoje, quase todos nós vivemos em diferentes regiões do país. A escassez marcou nossa vida. Com a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência, no início dos anos 2000, nossa história passou a ser atravessada por políticas que ampliaram as possibilidades de viver com um pouco mais de dignidade. Veio o Bolsa Família. Uma tia que até hoje mora em Brasília realizou o sonho da casa própria com o Minha Casa, Minha Vida. Geladeira, aparelho de som, televisão, computador e internet.  

Fui o primeiro de toda a minha família a ingressar em uma universidade pública. Foi e continua sendo a partir dela que consigo imaginar um futuro melhor para mim e para os meus. A Universidade Federal do Tocantins foi minha casa em todos os sentidos, pois lá eu morava na Casa do Estudante e almoçava e jantava gratuitamente. Quando passei no doutorado, uma professora de sociologia que tive no ensino médio me escreveu: “Você é um claro exemplo de como as políticas públicas realmente funcionam”. Quando olho para minha trajetória, a defesa de políticas sociais e de reparação tem um sentido muito concreto. Sou fruto delas; sem essas condições, dificilmente teria chegado até aqui. Também me formaram o amor ao próximo, o respeito às diferenças e a preocupação com a vida coletiva. Até pouco tempo atrás, eu acreditava reconhecer esses valores entre os meus parentes, mas estava completamente engando. Meu irmão votou em Flávio Bolsonaro. Minha mãe, que guarda uma fotografia com Lula tirada nos anos 1990, também entregou seu voto à extrema-direita. Recorro à história da minha família para pensar o bolsonarismo como uma chaga, uma ferida aberta que atravessa a vida política e alcança nossas relações mais íntimas. 

Por conta do ofício, procuro manter uma postura crítica, inclusive diante das minhas próprias convicções. Estudo a República de 1946, desde o mestrado, e reconheço semelhanças entre o bolsonarismo e o udenismo, uma das principais forças de oposição a Getúlio Vargas. Em 1950, Carlos Lacerda, um dos grandes porta-vozes da União Democrática Nacional, escreveu: “O senhor Getúlio Vargas não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”. Logo, a comparação entre passado e presente ajuda a reconhecer uma tradição de deslegitimação do adversário e de recurso à ruptura institucional. Mas as diferenças entre aqueles tempos e os nossos também precisam ser compreendidas. E é aqui que volto à minha família.  

Até onde me lembro, minha mãe foi uma das primeiras da família a se converter ao protestantismo. Frequentou diferentes igrejas até chegar à Assembleia de Deus, onde, durante muitos anos, foi líder do Círculo de Oração. Mulher negra e de origem pobre, talvez tenha encontrado ali um reconhecimento que lhe foi negado em tantos outros espaços. Por diversas vezes, foram os irmãos da igreja que doaram cestas básicas à nossa família e a outras da congregação. Eu a frequentei, assim como muitos dos meus parentes. Posso dizer que venho de uma família evangélica. Nem mesmo quando ingressei no curso de História deixei de acreditar na graça divina, cuja presença aprendi a reconhecer com minha mãe. Essa experiência faz parte da minha formação e da maneira como compreendo os vínculos entre as pessoas. Aos poucos, porém, passei a assistir à mistura entre pregações e orientações eleitorais, aos pedidos de voto que, pela autoridade de quem os fazia, adquiriam o peso de uma ordem. Comecei a sentir que já não havia lugar para mim naquele ambiente. A graça divina que eu aprendera a reconhecer parecia ceder espaço a um grande bezerro de ouro: o bolsonarismo. 

Lembro de um culto, em 2022, em que o pastor Cavalcante repetiu o lema “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. A presença do filho na disputa presidencial mostrou a continuidade dessa aproximação entre a família Bolsonaro e lideranças religiosas. Durante a campanha, Flávio cantou o “Hino da Vitória” em uma celebração evangélica. Embora seja tentador reduzir pessoas evangélicas e bolsonaristas como “alienadas”, tento seguir o convite de João Cezar de Castro Rocha: caracterizar o bolsonarismo, em vez de caricaturá-lo. É com essa preocupação que procuro compreender o voto da minha mãe e do meu irmão. Sei a importância da religião na vida dos dois, sobretudo na dela. A fé ofereceu acolhimento e ajuda em momentos difíceis. É justamente por conhecer essa experiência que me pergunto como o cuidado com o próximo pode conviver com discursos que fazem do outro um inimigo, ou que fazem “pessoas de bem” comemorarem a demissão de “petistas”.  

A equação está longe de ser simples. Como duas pessoas cujas vidas foram atravessadas por políticas sociais e de distribuição de renda passaram a sentir tamanha aversão a Lula? Meu irmão chegou a chamá-lo de “maior desgraça” que este país já teve. Sendo assim, quero compreender como experiências que, para mim, fundamentam a defesa de direitos passaram a conviver, para eles, com a adesão a um projeto que considero autoritário. Meu irmão é um homem preto retinto, nascido sobre folhas de palha no interior do Maranhão. Lembro de uma viagem que fizemos àquela região, ainda na infância, porque ele estava com anemia. Uma tia benzedeira tentaria curá-lo. Nunca me esqueci daquela cena. Ao longo da vida, ele sofreu muito racismo e homofobia, pois, embora não seja homossexual, foi hostilizado ao longo da vida por apresentar traços considerados afeminados. 

Essas violências não explicam, por si mesmas, sua escolha política. Tampouco me autorizam a presumir o que ele sente. Mas tornam ainda mais difícil compreender sua adesão a discursos que desumanizam outras pessoas. Pergunto-me como a dor de quem foi humilhado pode ser mobilizada contra outros sujeitos igualmente expostos à violência. O rancor e o ressentimento importam para compreender o bolsonarismo, sobretudo quando ele oferece inimigos aos quais atribuir os impasses da própria vida. 

Meu irmão também expressa uma contradição que me chama a atenção. Criticou a proposta de acabar com a escala 6×1, mas, recentemente, recusou uma oferta de trabalho porque teria de trabalhar de domingo a domingo. Reconheceu, na própria vida, a necessidade do descanso. Por que essa necessidade parece tão difícil de reconhecer como um direito de todos?  Minha mãe, por sua vez, não cabe inteiramente nessa descrição. Em 2022, recusou-se a participar do acampamento organizado depois das eleições, apesar da pressão do pastor de sua igreja. Lembro claramente de ouvi-la associar Jair Bolsonaro ao demônio. Houve recusa, houve resistência. Ainda assim, agora ela votou no filho.  

O que a fez mudar? O que aproximou minha mãe do bolsonarismo, ainda que de maneira tímida, sem alardes? O que levou meu irmão, preto retinto e nordestino, a acreditar que todos os problemas de sua vida se resumem a Lula? Não sei se tenho as respostas. O que sei é que meu ofício me obriga a tentar compreender como chegamos até aqui. Os diplomas que ele hoje desconsidera também nasceram dessa história que compartilhamos. 

 

Maycon Dougllas é Doutorando e Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Bolsista FAPESP. Membro do grupo de pesquisa Dimensões do Regime Vargas e seus desdobramentos (UERJ/CNPq).   

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