Para resistir aos abusos das Big Techs, precisamos de “santuários da atenção”
As transformações impulsionadas pelas big techs avançaram em ritmo muito mais acelerado do que a capacidade de nossas instituições e da própria cultura de assimilá-las e regulá-las. Para enfrentá-las, será necessário construir novas formas de ação coletiva, em todas as escalas da vida social – da esfera interpessoal à cultural e à política
Algo definitivamente está errado com a nossa atenção. Mas o problema não é a tecnologia em si; é o modelo de negócios exploratório por trás das telas dos nossos celulares, que movimenta trilhões de dólares para maximizar o “tempo de uso” dos usuários. Os danos desse modelo são generalizados, e poucos lugares tornam isso tão evidente quanto o Brasil. Os brasileiros passam mais de 9 horas por dia online, uma das maiores taxas do mundo, com aproximadamente metade desse tempo dedicado a plataformas extrativas com fins comerciais.
Na educação, a crescente pressão para adotar ferramentas de IA e tecnologias educacionais está enfraquecendo discussões mais profundas sobre como as telas estão prejudicando o aprendizado. Na política, uma onda de ações legislativas do ano passado teve como alvo algoritmos que expõem crianças sistematicamente a conteúdos sexuais. E no jornalismo de interesse público, diante de um cenário em que quase metade da população brasileira evita ativamente as notícias, o clickbait e os resumos gerados por inteligência artificial comprometem a sustentabilidade econômica do jornalismo de qualidade.
Essa nova forma de exploração não é inevitável. Para enfrentá-la, precisamos de novas formas de ação coletiva em todas as escalas da sociedade: interpessoal, cultural e política. Precisamos, em outras palavras, de um movimento pela liberdade da atenção.
Ao longo dos últimos vinte anos, uma geração de grandes empresas do Vale do Silício ascendeu ao poder impulsionada pelo desenvolvimento de tecnologias cada vez mais sofisticadas, capazes de capturar, maximizar e monetizar a atenção humana. Podemos chamar isso de “fracking humano”. Assim como o fracking hidráulico injeta grandes quantidades de substâncias tóxicas no solo para forçar o petróleo de baixa qualidade a subir à superfície, o fracking humano injeta grandes quantidades de “conteúdo” em nossas telas e em nossos cérebros, fragmentando nossa atenção em intervalos cada vez menores, que depois podem ser extraídos e vendidos a anunciantes digitais.

O fracking humano é prejudicial à democracia. No Brasil, a instrumentalização do WhatsApp possibilitou que campanhas coordenadas de desinformação alcançassem dezenas de milhões de eleitores, enquanto a amplificação algorítmica da desinformação em plataformas como Facebook e YouTube ajudou a distorcer o debate público e a enfraquecer a confiança nas instituições democráticas.
Mas há também um lado positivo: já começamos a ver o surgimento de formas de resistência.
Escrevemos como membros de uma coalizão hemisférica formada por grupos comunitários, instituições de ensino e aprendizagem, centros de defesa legal, defensores de direitos humanos e até sabotadores de base, que estão resistindo ao fracking humano.
Na Strother School of Radical Attention, uma organização sem fins lucrativos em Nova York, uma equipe de artistas, educadores e defensores conduz programas educacionais para formar uma nova geração de ativistas da atenção. Na ARTIGO 19, uma coalizão internacional de defensores de direitos humanos trabalha para amplificar as vozes do Sul Global na formulação de políticas e na construção de soluções tecnológicas que promovam um ecossistema digital mais diverso. Esses são projetos diferentes, mas perseguem o mesmo objetivo. E isso é importante, porque para enfrentar uma indústria de trilhões de dólares, precisamos que atores em todos os níveis da sociedade participem dessa luta.
Como? Precisamos de espaços e tempos protegidos das pressões do fracking humano: chamemos esses espaços de “santuários da atenção”. Os santuários são formados por meio de um processo deliberativo, no qual as partes envolvidas discutem os tipos de atenção que desejam praticar, concordam com diretrizes para seu comportamento e mantêm essas diretrizes como uma comunidade. Isso pode acontecer em todas as escalas da sociedade, desde a mesa de jantar das famílias até a sala de aula e os plenários do Congresso.
As mudanças provocadas pelas big techs avançaram mais rápido do que a capacidade de nossas instituições e cultura de acompanhá-las. Mas os debates cada vez mais intensos sobre o papel das redes sociais na sociedade representam uma preciosa janela de oportunidade. Se agirmos agora, os processos deliberativos por meio dos quais construímos santuários da atenção podem neutralizar os danos desestabilizadores das plataformas digitais. Ao unirmos esforços em múltiplas frentes, podemos construir um mundo no qual nossa atenção esteja livre da exploração tecnológica.
Peter Schmidt é diretor de programas da Strother School of Radical Attention.
Raquel da Cruz Lima é coordenadora do Centro de Referência Legal da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul.
Vitória Oliveira é consultora sênior do Centro de Referência Legal da ARTIGO 19 Brasil e América do Sul.

