Parques públicos não podem virar shoppings a céu aberto
Qual é o limite da exploração econômica dentro dos nossos parques e quem participa dessa definição?
São Paulo vive um momento decisivo sobre o futuro dos seus parques. Nos últimos anos, tanto no município quanto no estado, o modelo de concessões avançou com a promessa de eficiência, manutenção qualificada e sustentabilidade financeira. A discussão recente sobre a antiga Serraria do Parque Ibirapuera trouxe essa questão à tona e mostrou que a sociedade está atenta.
Recentemente, publiquei um vídeo no Parque Ibirapuera falando sobre o projeto da Serraria. A repercussão nas redes revelou algo maior do que a controvérsia sobre um edifício histórico: as pessoas querem participar das decisões que moldam o destino dos nossos espaços públicos.
É evidente que há aspectos técnicos envolvidos, como aprovações em órgãos de preservação, alterações de materialidade, trâmites administrativos. Mas quando falamos de patrimônio coletivo, o debate não pode ficar restrito a processos internos, números de protocolo ou decisões tomadas exclusivamente entre concessionárias e conselhos técnicos.
Transparência não é apenas cumprir exigências legais. É garantir que a informação seja amplamente divulgada, acessível e compreensível. É assegurar que a sociedade tenha tempo e espaço reais para acompanhar mudanças que impactam diretamente a identidade e a função dos parques. É permitir que o debate aconteça com escuta ativa antes que as decisões estejam consolidadas.
O ponto central não é apenas como será a fachada de um prédio. O que está em discussão é o avanço gradual de um modelo que amplia a presença da lógica comercial dentro de áreas que deveriam ter como prioridade o convívio, a conexão com a natureza, a prática de esporte, o descanso, a cultura e a preservação ambiental.

Em uma cidade marcada por profundas desigualdades, essa mudança de lógica também levanta outra preocupação: quem se sente convidado a ocupar esses espaços quando o consumo passa a organizar a experiência do parque? Parques públicos estão entre os poucos lugares verdadeiramente democráticos da cidade. Quando a presença de marcas, serviços pagos e eventos patrocinados cresce sem limites claros, corre-se o risco de afastar justamente quem mais precisa desses espaços.
Gestão privada não é, por definição, um problema, e pode trazer melhorias importantes. O alerta surge quando a sustentabilidade financeira passa a significar expansão contínua de estruturas comerciais, exposições de marcas, serviços pagos, eventos patrocinados e ocupações permanentes que alteram a vocação original desses espaços.
O Ibirapuera é símbolo dessa discussão, mas não é um caso isolado. O debate sobre concessões e ampliação de atividades comerciais também atravessa espaços como o Parque da Água Branca, o Parque Villa-Lobos e o Parque Estadual da Cantareira, cada um com sua vocação específica, mas todos com a mesma natureza pública.
Parques não são ativos imobiliários à espera de rentabilidade. São territórios de construção de comunidade, cidadania, equilíbrio ambiental e construção de memória coletiva. Quando a lógica do consumo passa a organizar esses espaços, a gestão comunica uma mudança de prioridade: o verde precisa gerar lucro para justificar sua existência.
Foi nesse contexto que usei a expressão “nossos parques estão virando shoppings”. Não como descrição literal, mas como alerta político. Uma síntese da sensação de que a expansão comercial avança mais rapidamente do que o debate público sobre seus limites. A pergunta que precisamos enfrentar é simples e estrutural: qual é o limite da exploração econômica dentro dos nossos parques e quem participa dessa definição?
Se queremos uma cidade e um estado comprometidos com sustentabilidade, justiça ambiental e direito à cidade, precisamos garantir que os parques continuem sendo, acima de tudo, espaços de natureza e convivência. O futuro dos nossos parques não pode ser decidido apenas em contratos e projetos técnicos. Ele precisa ser construído com participação, transparência e diálogo real com a população.
Marina Bragante é vereadora e integrante da Comissão de Política Urbana e Meio Ambiente da Câmara de São Paulo

