LÍNGUA PORTUGUESA DO BRASIL

Passado e presente explicando nossa (multi)cultura

A língua é ao mesmo tempo constituída e constituinte das realidades sociais em mudança constante

Os pesquisadores de linguagem e língua se deparam com algumas das mais importantes questões que atravessam as sociedades em suas imensas e dinâmicas trajetórias. Afinal, história, antropologia e geografia, para citar três ciências humanas, sociais e/ou políticas, são conduzidas intrinsecamente a partir de teias de vozes e de discursos que, como ensinou Marx (1867), estão em constante luta de classes, criando uma materialidade dialética inescapável.

Antoine Meillet, um dos precursores da linguística moderna, antes mesmo de Saussure, já ensinava: “du fait que le langage est une institution sociale, il résulte que la linguistique est une science sociale” [traduzo: “como a língua é uma instituição social, decorre daí que a linguística é uma ciência social”] (Meillet, 1906, p. 17, apud Faraco, 2017, p. 115).

A língua é ao mesmo tempo constituída e constituinte das realidades sociais em mudança constante. Dito por Bourdieu, distinguimos a noção de campo, que é, simultaneamente, estruturado (regras constitutivas) e estruturante (lutas que modificam a estrutura). Ou seja, vemos aí o papel do que Marx chamaria de práxis, força necessária para não apenas enxergar a problemática e a luta, como também enfrentá-la e revolucioná-la. Como o linguista Bakhtin/Voloshinov mostrava: “E a língua – o mais sensível indicador das mudanças sociais, nas palavras de Bakhtin / Voloshinov (1973, p. 19) – não poderia deixar de se adaptar à nova realidade” (Faraco, 2017, p. 117).

Pensando também com nosso Milton Santos, segundo o qual “cultura e territorialidade são, de certo modo, sinônimos” (Santos, 1996, p. 61), escrevi recentemente, enfatizando a língua portuguesa do Brasil, livro pela Coleção Letras da Uerj, publicado pela Eduerj, obra que se intitula Língua portuguesa: geo-história filológica do latim ao presente (Rio de Janeiro, Eduerj, 2026). A obra tem prefácio do lendário gramático e filólogo Evanildo Bechara, que foi membro da Academia Brasileira de Letras e meu confrade da Academia Brasileira de Filologia, e orelha de Ricardo Cavaliere, igualmente da Academia Brasileira de Letras e igualmente meu confrade da Academia Brasileira de Filologia.

Ressalto da obra a ideia de que, como filólogo, estabeleço 218 a.C. como a data em que podemos começar a marcar o relógio da deriva da língua portuguesa. Nesse ano, os romanos chegaram à Península Ibérica por ocasião de uma guerra púnica. Nesse território novo – observemos como geografia e história se integram às questões de língua, e vice-versa –, os colonizadores romanos encontraram povos originários ali habitando, genericamente chamados de celtiberos. Do contato dessas culturas-línguas colonizadoras (superestratos) com as línguas dos colonizados (substratos), nasceram línguas novas, resultantes do amálgama, forjado pelo espaço e tempo, das duas culturas (adstratos).

Idêntica dinâmica viria a ocorrer no Brasil na sua colonização, quando os portugueses invadiram as terras brasileiras e trouxeram consigo a língua portuguesa europeia quinhentista, que, com o passar do tempo, e no decurso do espaço, tornou-se a língua portuguesa do Brasil.

Com efeito, um dos objetivos desta minha obra recente é mostrar também que fenômenos do passado ajudam a elucidar fenômenos do presente, na língua e, portanto, na cultura e na antropologia. Esses saberes são ancilares para a descrição etnográfica de um povo como o brasileiro, proveniente de um caldeamento multicultural tracionado por diversos fatores, como os estudos de complexidade (Morin, 2000), a interseccionalidade (Crenshaw, 1997; Gonzales, 2020), a decolonialidade (Quijano, 2005) e a teoria multicultural (McLaren, 1997). Com isso, a obra incentiva, com fundamentação científica, que toda forma de preconceito linguístico é, no fundo, desconhecimento geo-histórico da própria língua portuguesa.

Um exemplo que está no livro, ocorrido há séculos na passagem do latim para o galego-português, e que ocorre igualmente no português brasileiro contemporâneo, é item frequentemente descrito em nossa Lélia Gonzales e suas noções de pretuguês e amefricanidade.

No pretuguês, é interessante observar que o rotacismo (mudança de um fonema qualquer pelo fonema /R/) é considerado manifestação dessa variante. Isso se exemplifica em pronúncias como *“framengo”, em vez de “flamengo”, *“bicicreta”, em vez de “bicicleta” etc. A explicação é que algumas etnias africanas trazidas para o Brasil não possuíam o fonema /L/. De fato, ouvem-se, em algumas variantes brasileiras, em outro contexto fonético, mas envolvendo o fonema /L/, formas como *“bara”, em vez de “bala”, *“bereza”, em vez de “beleza” etc. Há outras substituições do /R/ em lugar do /S/ em algumas variantes da língua portuguesa do Brasil, como em palavras tais que *“caRtigo”, em vez de “castigo”, *“meRmo”, em vez de “mesmo”, *“peRcoço”, em vez de “pescoço”, * “contraRte”, em vez de “contraste”.

Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (SP), retrata o passado e o presente da língua (Crédito: Ana Paula Hirama/Flickr)

As filologias românica e portuguesa apresentam explicação que, de certa forma, reforça a tese acima. Embora o rotacismo que se descreve com essas filologias remonte a séculos atrás, ainda na Península Ibérica, é sabido que as áreas em que esse tipo de metaplasmo ocorreu eram áreas de prevalência de moçárabes, que, como sabemos, são os ibérico-visigodos que, de 711 d.C. em diante, na Península Ibérica, se arabizaram a partir de costumes de árabes e berberes do Magreb, oriundos precisamente do norte da África. Existe até uma entidade transnacional chamada União do Magreb Árabe (UMA), criada em 1989, uma organização regional composta pelos cinco principais países: Argélia, Líbia, Mauritânia, Marrocos e Tunísia.

Em resumo: tanto no caso filológico de 711 em diante na Península Ibérica quanto no caso dos escravizados levados ao Brasil a partir do século XVI, o rotacismo, em certos casos, parece mesmo corresponder à influência de línguas africanas.

Digo eu em meu recente livro: “Assim, como vimos, os encontros consonantais PL/CL/FL transformaram- se, historicamente/diacronicamente, nas áreas de influência moçárabe, respectivamente, em PR/CR/FR, como atestam vocábulos há pouco exemplificados: plano > prano > porão / clavus > cravo / flacus > fraco. Vimos tratar-se de um caso do metaplasmo designado como rotacismo. Aqui a constatação foi diacrônica. No entanto, no plano sincrônico, encontramos registros em domínios discursivos que mantêm esse rotacismo em casos como bicicleta > *bicicreta; Flamengo > *Framengo; Cláudia > *Cráudia etc.” (Caetano, 2026, p. 76).

Assim, a preocupação do livro é mostrar periodizações filológicas da geo-história da língua portuguesa no passado e no presente, pois, como é o seu objetivo principal, demonstro que a geografia e a história não são ciências exatas, nem, tampouco, necessariamente coerentes num sentido idealista ou abstrato, já que se trata de disciplinas complexas que lidam com os saberes e os fazeres humanos. Entretanto, pode-se perceber que, frequentemente, fatos ocorridos na cultura de um tempo e espaço podem encontrar correlatos e explicações em outros espaços e tempos. As periodizações sistemáticas das balizas geo-históricas da língua – como nau que encabeça as movimentações culturais, como visto – ganham especial utilidade nesse mister.

Eu anoto, assim, que as primeiras tentativas de periodização, pelo que indicam os filólogos eminentes, estão em Fernão de Oliveira (1536), João de Barros (1540), Pero de Magalhães Gândavo (1574), Duarte Nunes de Leão (1576) e, certamente, até em eruditos anteriores a eles, antes da Renascença. Os séculos XIV e XV, como salienta Sylvain Auroux em A revolução tecnológica da gramatização (1992), são os séculos exatamente do início da normatização gramaticográfica e lexicográfica. Dicionários e gramáticas foram escritos em todo o Ocidente europeu.

Das línguas neolatinas, a primeira gramática de que temos registro é a de Nebrija (da língua castelhana), de 1492. O mesmo Antonio de Nebrija publicou um dicionário Latim-Espanhol, no mesmo ano 1492, e seu subsequente dicionário Espanhol-Latim em 1495. A primeira gramática portuguesa é a de Fernão de Oliveira, de 1536. O primeiro dicionário da língua portuguesa, no entanto, veio muito tardiamente: publicado entre 1712 e 1728, o Vocabulário português e latino (Vocabulario portuguez e latino, no original), do padre Raphael Bluteau, sacerdote de origens britânica, francesa e portuguesa. Tecnicamente, o primeiro dicionário, assim nomeado, da língua portuguesa foi publicado, de fato, apenas em 1789, pelo carioca Antonio de Moraes Silva: trata-se da obra intitulada Diccionario da lingua portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Moraes Silva [,] natural do Rio de Janeiro.

Por fim, reitero que o grande objetivo da obra consiste em oferecer um panorama de mais de 2 mil anos de história da língua portuguesa, que constata a tenacidade das culturas que a usam, com ênfase na cultura brasileira, ainda que a forma de contato dessa língua tenha sido, amiúde, criada sobre violências diaspóricas e escravizadoras, mesclando a antropologia de um povo sui generis – o brasileiro – em que convivem em sincretismo as formas de passado e presente, colonização e colonizador, norma culta e variantes não monitoradas, cultura erudita e cultura popular.

 

Marcelo Moraes Caetano é professor associado de língua portuguesa e filologia românica da UERJ, PhD em estudos de linguagem (PUC-Rio, Uerj e Universidade de Copenhague, Dinamarca), pesquisador em direito e em psicanálise teórica e clínica, membro da Academia Brasileira de Filologia, da Academia Fluminense de Letras e do PEN Club do Rio e de Londres. Pianista clássico vencedor de concursos no Brasil e exterior (São Paulo, Rio, Minas, Córdoba, Paris, Viena). Tradutor de inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, latim, grego e estudioso das filologias do mandarim, russo e sânscrito. Autor de mais de sessenta livros no Brasil e no exterior.

 

Referências

BAKHTIN, M. M; VOLOSHINOV, V. N. Marxism and the philosophy of language. New York: Academic, 1973.

CAETANO, Marcelo Moraes. Geo-história filológica do latim ao presente. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2026.

FARACO, Carlos Alberto. “O tratamento você em português: uma abordagem histórica.” In: LaborHistórico, Rio de Janeiro, 3 (2): 1-134, jul. | dez. 2017.

GONZALES, Lélia. “A categoria político-cultural da amefricanidade”. In: RIOS, Flávia; LIMA, Márcia (Orgs.). Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

MARX. Karl. Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie. Hamburg: Verlag von Otto Meissner, 1867.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Trad. Catarina Eleonora F. da Silva e Jeanne Sawaia. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2000.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 1. ed. São Paulo: Hucitec, 1996.

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