Perifativismo cultural, um olhar político jovem - Le Monde Diplomatique

JUVENTUDE E POLÍTICA

Perifativismo cultural, um olhar político jovem

por Leandro Hoehne
5 de novembro de 2012
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Os jovens agem de forma direta e radical, em conflito constante com as relações de poder instauradas, problematizando suas estruturas em vez de sublinhar reformas. Conversam com autores anarquistas, ouvem e criam raps de denúncia, misturam ideais anarcopunks com cultura tradiocional brasileiraLeandro Hoehne

Existe uma vaga sensação de que a juventude brasileira se mostra desinteressada quando o assunto é política. No entanto, é necessário pensar se não são os próprios interesses políticos da juventude que estão se movendo em outra direção, com outros modos de organização/articulação, outras proposições. Esse constante movimento não mais “e” nem “re-volucionário”, mas em “volução”1se apresenta como ação de resistência permanente contra conservadorismos manifestos na sociedade. Que direções seriam essas? Quais são os movimentos? Como a juventude se organiza?

São muitos os pontos. É preciso observar que a juventude tem se organizado em diferentes agrupamentos para experienciar encontros de troca, celebração e manifesto;2 entender que o jovem não vive isolado dos processos de mudança da sociedade, cuja formação identitária vive momentos de crise;3 considerar todo o processo histórico recente de identificação do jovem como um sujeito de direitos, que culmina na construção de políticas públicas específicas,4 porém ainda deficitárias. Por fim, não há como não pensar em juventude sem considerar a relação tradição-inovação, processos de conservação ou transformação de estruturas acomodadas.

A política partidária no Brasil teve importante papel no processo de redemocratização do país, com intensa participação da juventude. Porém, hoje, os jovens partidarizados têm ação limitada e passam a reproduzir meios e fins pela manutenção de um ideário político já estabelecido. O jovem aparece estereotipado, reduzido a uma peça estratégica de marketing. As propostas políticas são antiquadas, adaptativas e arraigadas nas mesmas formas de pensar e agir.

Em contraponto, surgem movimentos apartidários formados por coletivos culturais jovens que são determinantes nesse processo de provocação de mudanças, tanto no que diz respeito ao ponto de partida do olhar – olhar e desejar pensar diferente – quanto ao modo de se organizar – agir diferente. Existe uma efervescência de propostas pelo Brasil que atuam diretamente no cotidiano, com ações artísticas interventivas e articulação de atores sociais em torno de celebrações, encontros e ocupações de espaços públicos. Em geral, são agrupamentos não institucionalizados, que surgem espontaneamente em torno de determinada urgência social ou por simples desejo de troca e livre expressão. São da marginalidade, descolados dos centros produtivos – do capital e do conhecimento –, nascem das periferias urbanas e afirmam-se por sua própria produção de subjetividade. Primam pelo ato político manifesto, clamam “direito à cidade”.5 Olhar para os espaços de celebração nas periferias (os circuitos de saraus das zonas sul e norte de São Paulo, as intervenções artísticas em espaços públicos da Rede Livre Leste, o movimento teatral das cidades do Alto Tietê, a Rede Encena em Salvador, o Movimento Todo Teatro É Político de Fortaleza etc.) exige um novo modo de considerar a ação política como um todo em transformação.

Esse movimento data da última década, a partir da elaboração de políticas com participação direta da sociedade, exceções à regra da comumente exercida política de gabinete. Destacam-se os Pontos de Cultura6 espalhados por todo o território nacional e o Programa VAI,7 que debruçou um olhar específico sobre as proposições culturais dos jovens da periferia de São Paulo.

No território virtual, a internet coloca-se não somente como ferramenta, mas como o próprio campo de atividade política da juventude. Sua potência em conectar pessoas e relacionar ideias permite o desenvolvimento de ações políticas surgidas desde simples articulações via Facebook até ações “por um hacktivismo intrusivo”8 nos sistemas de informação. Assim, Grajaú está em Ermelino Matarazzo, Cidade Tiradentes na Colômbia, e todos, de alguma forma, interagem com a Primavera Árabe.

Isso instaura uma problemática estrutural, uma vez que os ativismos se colocam muito mais dinâmicos e se distanciam da lenta, ineficiente e conservadora estrutura democrática brasileira. Vários setores da sociedade vêm problematizando tais questões, porém os jovens agem de forma direta e radical, em conflito constante com as relações de poder instauradas, problematizando suas estruturas em vez de sublinhar reformas. Conversam com autores anarquistas, como Hakim Bey, ouvem e criam raps de denúncia, misturam ideais anarcopunks com cultura tradicional brasileira, convivem com a cultura pop do Japão, HQs e se interessam por novas tecnologias. A velocidade com que a juventude se apropria das transformações hoje regidas por uma cultura globalizada9 é muito maior do que a que o Estado é capaz de assimilar. Este acaba por agir de modo regulatório e castrador.

Os movimentos culturais resistem contra as investidas constantes pela anulação de um espaço político já conquistado e exprimem um desejo jovem de mudança que interfira diretamente nas estruturas de poder. Essa ação é cultural, pois estabelece novas subjetividades, novas configurações, novos olhares para o mundo. Mas também é política, porque intervém nas relações entre sujeitos, entre coletivos, entre territórios, periferias. Não se luta para alçar patamares de poder, mas para modificar radicalmente suas estruturas, atuando pela ruína destas para possibilitar novas. Assim, a política é o próprio estar como ser social, na pólis para a pólis, desinteressada em fixar hierarquias, e talvez por isso pareça alienada. Ao contrário, no campo da cultura, existe uma juventude engajada em participar na construção de políticas a partir de sua práxis.

Leandro Hoehne é Artista do Grupo do Balaio e desenvolve trabalhos sobre juventude, cultura e política na periferia de São Paulo. É um dos articuladores-fundadores da Rede Livre Leste e colabora com outras redes e movimentos culturais de periferias brasileiras. Foi recentemente indicado ao Prêmio Cidadão Sustentável na categoria Intervenções Urbanas.



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