Traduzir bárbaro
Permanecer bárbaro: não brancos contra o império, da jornalista franco-argelina Louisa Yousfi, é um chamado à união de todos os colonizados do mundo
“Sinto que tenho tantas coisas a dizer que é melhor que eu não seja demasiado culto. Tenho que manter uma espécie de barbárie, tenho que permanecer bárbaro.”[1] É assim que o escritor argelino Kateb Yacine[2] entra em erupção. Crítica literária, cronista para a revista Sciences Humaines, apresentadora nas plataformas políticas Paroles d’Honneur e Hors-Série, a jornalista Louisa Yousfi aproveita o calor dessa lava, esquenta a pele do gallal[3] analítico, e dá a batida de abertura do seu curto e pungente ensaio.
Em Permanecer bárbaro: não brancos contra o império, no ritmo do rap e no compasso da literatura, a brilhante franco-argelina acende o seu primeiro livro e bota fogo no salão. Ressoa então o baque solto de uma alforria marinha, cheirando a sargaço; uma chamada à união de todos os colonizados do mundo.
Pois se Umberto Eco, no requinte asséptico da sua torre à milanesa, pôde comparar a entrada do Manifesto comunista (“proletários do mundo inteiro, uni-vos”) com a da quinta sinfonia de Beethoven, eu, tradutor, emergindo fedorento do meu mangue recifense, assimilo a introdução mediterrânea de Permanecer bárbaro à abertura atlântica do Carnaval de Olinda.
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Vésperas de Zé Pereira. Diversas nações de Maracatu saem de suas sedes, convergem, desfilam em cortejo pelas ladeiras da cidade, e terminam defronte à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, velho terreiro de congadas no alto da colina.[4] Tudo isso em silêncio. É a Noite dos Tambores Silenciosos. No peito do colonizado, arde um tambor sufocado.
Os representantes dos Maracatus banham a igreja de perfume, o porta-voz do clero cede a chave da cidade. Intervalo ritual, provisória passarela do sagrado ao profano; suspensão do religioso, irrupção do pagão. Rufam os tambores. O batuque bárbaro engole o silêncio da sultana burguesa.
Mas quatro dias de folia por ano é esmola. Na saliva da revolta, a ordem dos fatores não faz curva: o colono branco escravizou; o escravizado negro construiu. E é claro que eles não cederão.
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Em Permanecer bárbaro, Yousfi confirma que cabe aos periféricos do mundo tomar as chaves das portas que eles assentaram, dos prédios que ergueram, das cidades que fundaram. A barbárie que arde na língua deles é como a massa que ferve nas entranhas da terra. Não adianta água gelada: essa chama, bombeiro nenhum apaga. Pois o enunciado que dá o tom do ensaio de Yousfi não é só questão de estilo: Kateb Yacine comeu o pão que o colono amassou.
“Apesar de indigène aristocrata, ele foi às ruas de Sétif em 8 de maio de 1945.”[5] Com somente 16 anos de idade, participou de um suntuoso cortejo. Não se tratava de maracatu, nem de tambores silenciosos: era a festa da vitória dos Aliados contra o colono francês. Mas a repressão foi fenomenal. A carnificina entrou para a história da violência colonial.
Filho de uma Argélia estuprada pela França, o jovem Kateb sentiu na goela o enxofre do império. Humilhação, contato íntimo com a destruição, com a morte: tantas experiências se acumulando em um silêncio imposto. Sua história é a de tantos brasileiros e brasileiras, marcados pelo ferro da colônia, pela lei do império. Homens e mulheres livres para obedecer, como diria o historiador do nazismo, Johann Chapoutot.[6]
Dilacerado. Separado dos seus. Kateb escapou da morte, mas não do xadrez: é aí que, segundo Yousfi, ele se encontra com a “verdadeira Argélia”, com seu “povo martirizado, desumanizado, mas inabalavelmente revoltado”.
“Bárbaro” é uma identidade histórica que persegue Kateb desde o berço para recobri-lo como uma segunda pele. Mas ela não é (ainda) uma carapaça, longe disso. É um anátema imposto pela civilização ocidental. Para além do Império, é a zona do não ser, na qual ele vegeta, ele e os seus companheiros de cela: camponeses, estudantes, camaradas revolucionários. Todos bárbaros. Seu status social não muda nada. Na prisão, ele compreende que nunca saiu da periferia, que todos os seus esforços para falar a língua do civilizador e dominar o seu mundo são impotentes perante esta verdade: bárbaro sou, bárbaro quero permanecer.[7]
Filha de argelinos, Louisa cresceu na França. Ela sentiu e sente na pele a herança do massacre colonial. Relegada a essa “zona do não ser” – assim como os não brancos do Brasil –, ela sabe que, para vingar sua raça[8], deve manter uma espécie de barbárie.
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“O homem coletivo sente a necessidade de lutar. […] Viva Zapata, viva Sandino, viva Zumbi, Antônio Conselheiro, todos os Panteras Negras, Lampião, sua imagem e semelhança: eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.”[9] Se os católicos dizem que quem canta reza duas vezes, amém. No batuque de Chico Science e Nação Zumbi, o tradutor bárbaro afina a língua e, no bom estilo curto e grosso, responde: o subalterno pode até não falar, amiga Spivak,[10] mas ele canta, dança e batuca – sua expressão vale por três. É isso que afirma Yousfi quando dá ao rap o que é do rap.

“Foderei a França até que ela me ame.” É com essa punchline que, em 2005, no álbum intitulado 93 Hardcore, o grupo francês de rap Tandem nocauteia a inocência. Baque virado, língua solta. Tandem falou, Yousfi repetiu: foderei a França até que ela me ame.
“Foder a França” já diz tudo. Mas em “até que ela me ame” a coisa fica insuportável. Não conseguimos escapar à imagem: o estupro de uma mulher que terminaria “gostando disso”. Diante de tal violência, recorremos logo à interpretação. Seria porventura a expressão de um ódio sem limite pela França ou, inversamente, um grito de amor frustrado, que denunciaria sobretudo uma vontade furiosa de ser amado por ela?[11]
Imagina uma letra de samba ou uma chamada de maracatu que entoasse: “foderei a pátria amada até que ela me ame”. Vagabundo, cuspiria o sujeito considerado branco pela Polícia Militar (sujeito esse que vai do herdeiro da Casa Grande ao simples “cidadão de bem”). Mas, que ganha o herdeiro da senzala quando aprende a etiqueta? Realçando os contornos da prática colonial da linguagem, Yousfi comprova que não será imitando quem o cala que o bárbaro conseguirá falar.
“Chester Himes escreve: ‘negro mata branca’, e imediatamente se lê: ‘culpado mata inocente’.” Ora, vamos. “É um culpado que termina comportando-se como um culpado, é isso que vocês queriam, não?”[12] Cruzando a língua do rap com a da literatura, Yousfi deixa claro que, passada a barra da branquitude ocidental, a opressão de gênero se inverte: a discriminação estrutural atinge primeiro os homens – a matraca e o gatilho do Estado condenam pessoas pelo “fato” de serem não brancas do sexo masculino.
É o homem culpado por ser não branco que, todos os dias, a polícia prende, massacra, mata. É essa violência organizada pelo Estado capitalista moderno que aumenta a violência conjugal contra a mulher. Recusando entrar no jogo perverso de uma branquitude estrutural que induz os bárbaros a se matarem entre si, Yousfi realça a necessidade de lutar contra essa violência vertical, e clareia com luz nova o caminho de um feminismo decolonial.
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Tenho que manter uma espécie de barbárie.
“Palavra de ordem estética e fábula política ao mesmo tempo, o enunciado de Kateb Yacine permite convocar uma tropa asselvajada ao assalto do Império”:[13] se ele funciona como uma fórmula mágica de abertura para o argumento de Louisa Yousfi, Permanecer bárbaro chega ao Brasil para engrossar o caldo da gramática emancipatória.
Com a clareza e a precisão exigidas pela urgência do seu tema, Yousfi cita e comenta tanto as ciências sociais quanto a literatura, de Chester Himes a Houria Bouteldja, passando por James Baldwin e Toni Morrison. E para mostrar o que o rap faz à língua, ela conecta suas caixas de som aos amplificadores daqueles que – como Booba, PNL e Tandem (marcos bárbaros do rap francês contemporâneo) – recusam a assimilação ao capitalismo imperial moderno, organizador da instituição racista. A partir dessa matéria polimorfa entre artes e ciências, a autora nos presenteia com uma série de operadores políticos e intelectuais que permitem pensar para além da “visibilização” carnavalesca dos bárbaros – historicamente relegados pelo Império a uma zona de não ser. Se restava dúvida a respeito da importância para o pensamento decolonial de uma reflexão sobre a língua, e sobre os massacres que ela pode comandar, Yousfi sacode a poeira, e dissolve as reticências.
É enquanto bárbaro que o digo: obra incontornável!
Diogo Santiago é tradutor e escritor.
[1]. Louisa Yousfi, Permanecer bárbaro: não brancos contra o império, trad. Diogo Santiago, GLAC & Autonomia Literária, São Paulo, 2025, p. 31. O trecho citado pela autora é extraído de “Une vie, une œuvre: Kateb Yacine, le poète errant” [“Uma vida, uma obra: Kateb Yacine, o poeta errante”], Marion Thiba e Gislaine David, rádio France Culture, 19 de março de 1998. A partir daqui, por economia, referenciaremos o livro de Yousfi com a sigla PB.
[2]. Kateb Yacine (1929, Constantina-1989, Grenoble).
[3]. Gallal, guellal, qallouz, aqqallal: tambor tradicional berbere.
[4]. Terminada no começo do século XVII, Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos é a primeira igreja do Brasil pertencente a uma irmandade de negros. Criada pelos escravizados daquela época, congada é uma dança dramática em que se representa a coroação simbólica de um rei ou de uma rainha do Congo.
[5]. PB, p. 35.
[6]. Johann Chapoutot, Livres de obedecer: a gestão, do nazismo aos dias de hoje, trad. Miguel Serras Pereira, Antígona, Lisboa, 2023, 160 p.
[7]. PB, p. 35-36.
[8]. Na cerimônia em que recebe o Nobel de literatura em 2022, Annie Ernaux declara ter sido graças à frase de Rimbaud (“sou de raça inferior por toda a eternidade”) que ela anotou no seu diário íntimo: “escreverei para vingar minha raça”.
[9]. Chico Science & Nação Zumbi, “Monólogo ao pé do ouvido”, Da Lama ao caos, 1994.
[10]. Alusão à obra de Gayatri Chakravorty Spivak, Pode o subalterno falar?, UFMG, Belo Horizonte, 2018, 133 p.
[11]. PB, p. 99.
[12]. Ibidem, p. 47.
[13]. Alusão ao texto da contracapa de Louisa Yousfi, Rester barbare, La Fabrique, Paris, 2022, 112 p.

