Petróleo: geopolítica e finanças unidas na crise atual - Diplomatique Brasil

OBSERVATÓRIO DA ECONOMIA CONTEMPORÂNEA

Petróleo: geopolítica e finanças unidas na crise atual

por Jose Sergio Gabrielli de Azevedo
10 de março de 2020
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Há estimativas de que a demanda mundial de petróleo poderá se reduzir em até 5% nos próximos três meses, o que pode implicar uma queda de mais de 4 milhões de barris/dia na oferta mundial de petróleo. Confira novo artigo do Observatório da Economia Contemporânea

Os preços do petróleo tiveram nos últimos dias uma das maiores quedas de sua história, com repercussões claras sobre os mercados financeiros e as perspectivas de crescimento mundial. Os impactos mostram a importância estratégica desse produto e seus efeitos sobre a organização produtiva e financeira do mundo. Choram, entre outros, os ideólogos do petróleo como “commodity qualquer”, que precisa ser tirado do subsolo o mais rápido possível. Entendem os que consideram o petróleo como elemento fundamental da diplomacia e da guerra, principalmente das grandes potências.

A violenta queda dos preços do petróleo tem múltiplas causas, mas sua utilização geopolítica é uma das principais causas motivadoras dos movimentos recentes. Podem ser citados como fenômenos relevantes para o entendimento desta queda, entre outros, os seguintes:

 

1) Colapso dos acordos Rússia e Opep no final da semana, depois de três anos de acordo para controlar a oferta de petróleo

O acordo de contenção da produção entre a Rússia e a Opep, especialmente a Arábia Saudita, que foi responsável pela recuperação dos preços depois da debacle de 2014-2015 foi rompido tanto por interesses geopolíticos da Rússia, como pela incapacidade da Arábia Saudita de vir a liderar um movimento de atração dos outros produtores que entraram nos mercados, como Estados Unidos, Brasil e Canadá.

O fim deste acordo praticamente sepulta, no curto prazo, as possibilidades de contenção da produção de petróleo cru que poderia compensar a queda da demanda resultante da pouca perspectiva de crescimento da demanda mundial, especialmente depois da crise do coronavírus.

Para agravar a situação, a Arábia Saudita resolveu intensificar sua disputa por market share, tentando agora deslocar a própria Rússia e não apenas os Estados Unidos, ofertando seu petróleo com descontos nunca antes vistos na história, em um primeiro passo de uma potencial espiral de queda que pode levar os preços para níveis imprevisíveis. A Saudi Aramco está vendendo com descontos e a Rússia liberou a produção e a exportação de suas empresas.

 

2) Demanda contraída (e ainda mais pelo efeito do coronavírus)

A demanda internacional de petróleo vinha de um período estagnado nos países da OCDE, particularmente na Europa, mas também nos Estados Unidos e Japão. A única exceção de crescimento significativo vinha da Ásia (China e Índia, especialmente).

Agora, a demanda chinesa caiu muito por restrições de viagem e a China é o maior importador do mundo de petróleo (14 milhões de barris dia), com indicações de queda de 20% desta demanda, equivalente às importações da Itália e do Reino Unido somadas. Os refinadores chineses estão contraindo suas cargas processadas em níveis recordes e as compras de petróleo cru deverão cair no curto prazo.

Há estimativas de que a demanda mundial de petróleo poderá se reduzir em até 5% nos próximos três meses, o que pode implicar uma queda de mais de 4 milhões de barris/dia na oferta mundial de petróleo, para se equilibrar com os níveis de demanda reduzida.

 

3) Outros países exportadores fora da Opep conseguirão continuar exportando a preços mais baixos?

O Brasil é um dos países mais atingidos por essa queda do petróleo. A Petrobras vem adotando uma estratégia de desintegração vertical, reduzindo as cargas de suas refinarias, estimulando as importações de derivados e se desfazendo dos ativos que não sejam aqueles estritamente vinculados aos reservatórios do pré-sal, destinando sua produção crescente para as exportações mundiais. Em ciclos de alta de preços, tudo bem, mas quando os preços caem, as receitas internacionais também caem, sem o colchão amortecedor das margens de refino, voltado para as vendas domésticas.

Mesmo com a parcial compensação da depreciação do real, as receitas das exportações diminuem, afetando a rentabilidade da empresa porque os preços se aproximam de seus custos de produção.

Há também o desafio da política de preços dos derivados. Os preços internacionais de gasolina, diesel, QAV, gás de cozinha devem cair, ainda que menos do que os preços do petróleo. Que acontecerá com os preços dos derivados no mercado brasileiro? Para manter a consistência, devem cair, aliviando um pouco a vida dos consumidores desses derivados, mas ameaçando ainda mais a rentabilidade da Petrobras.

O principal motivador geopolítico da mudança da posição russa foi o agravamento das tensões entre os Estados Unidos e a Rússia. Recentes sanções de Washington contra os russos atingiram fortemente a Rosneft e o gasoduto planejado em construção, ligando a Rússia à Europa para fornecimento de gás natural (o Nord Stream 2). As tensões entre os dois países vêm se agravando nos últimos tempos.

Os Estados Unidos viraram relevantes exportadores de petróleo nos últimos anos, depois da revolução produtiva da ampla utilização das técnicas de fracking, que possibilitou a expansão da produção do shale gas, dos condensados associados a ele, do tight oil e de bacias que estavam em declínio, como a Bacia Permiana.

Pequenas e médias empresas dominam esse setor, com alto grau de endividamento, o que era possível com taxas de juros baixas e grande liquidez nos mercados internacionais. A queda dos preços agrava a situação financeira destas empresas, ameaça a continuidade de sua produção e deve provocar um processo de reestruturação industrial do setor com aumento das fusões e aquisições.

Do ponto de vista geopolítico, a Rússia viu que a continuidade do acordo com a Opep poderia beneficiar os produtores norte-americanos por segurar a queda dos preços e optou por abandonar os árabes. Os produtores americanos precisam do preço do petróleo mais alto e a Rússia assume, agora, a posição da Arábia Saudita em 2014, quando aumentou sua produção e derrubou os preços, recuperando-se nos acordos Opep Plus (OPEP mais Rússia), que morreu nestes últimos dias.

A Arábia Saudita resiste aos preços baixos e tem um grande potencial de aumentar sua produção no curto prazo, compensando parcialmente a queda dos preços com aumento de volume exportado.

Um dos riscos políticos dessa estratégia de preços decorre de seus impactos sobre os processos eleitorais que ocorrem nos países consumidores. Nos Estados Unidos, a queda dos preços atinge a gasolina, variável de importante peso nas eleições do país. Sua queda favorece Trump. No Brasil, outro país que vem aumentando suas exportações de petróleo sob orientação do governo Bolsonaro, uma queda de preços de derivados pode aumentar sua popularidade, mesmo à custa das finanças da Petrobras.

Foto: Andrey Rudakov
3.1 Efeitos positivos para os países consumidores

A queda dos preços do petróleo, com seus desdobramentos sobre os preços dos derivados, leva a menores desembolsos com importações de petróleo e derivados, assim como, no curto prazo a desestímulos para a substituição energética, tornando as fontes alternativas relativamente mais caras, ainda que no curto prazo.

Há muitas incógnitas neste cenário, mas duas são especialmente relevantes nos próximos dias para indicar possíveis tendências. São elas as estatísticas de acumulação dos estoques comerciais de petróleo e derivados e das margens de refino.

Estas são varáveis setoriais, mas como as questões geopolíticas são fundamentais, as respostas políticas do governo de Putin, de Trump e como o coronavirus se comportará em países sem sistemas públicos de saúde, como os Estados Unidos e alguns países da Europa, serão decisivos para os rumos da crise atual. O Brasil perdeu a chance de ser protagonista, sofrendo os efeitos dos movimentos dos preços, sem capacidade de influir no futuro.

 

Jose Sergio Gabrielli de Azevedo é professor aposentado Ufba e pesquisador do Ineep.

 

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O Observatório da Economia Contemporânea tem como foco a discussão da economia nas suas várias dimensões; estrutural e conjuntural, empírica e teórica, internacional e doméstica. Sua ênfase, porém, será na política econômica, com acompanhamento aprofundado da conjuntura internacional e da economia brasileira no governo Bolsonaro. Fazem parte do Observatório, economistas e cientistas sociais, professores e pesquisadores de diversas instituições, listados a seguir: Alex Wilhans, Alexandre Barbosa, André Calixtre, André Biancarelli, Angelo Del Vecchio, Antonio Correa de Lacerda, Bruno De Conti, Carolina Baltar, Claudio Amitrano, Claudio Puty, Clelio Campolina, Clemente Ganz Lúcio, Cristina Penido, Daniela Prates, David Kupfer, Denis Maracci Gimenez, Elias Jabbour, Ernani Torres, Esther Bermeguy, Esther Dweck, Fabio Terra, Fernando Sarti, Giorgio Romano, Guilherme Magacho, Guilherme Mello, Isabela Nogueira de Moraes, Ítalo Pedrosa, João Romero, Jorge Abrahão, José Celso Cardoso, José Dari Krein, Luiz Fernando de Paula, Luiz Gonzaga Belluzzo, Marcelo Manzano, Marcelo Miterhof, Marcos Costa Lima, Marta Castilho, Maryse Farhi, Nelson Barbosa, Paulo Nogueira Batista Jr., Pedro Barros, Ricardo Carneiro, Tânia Bacelar e William Nozaki.



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