Piketty, desigualdade e literatura - Le Monde Diplomatique

O SEGREDO DOS RICOS

Piketty, desigualdade e literatura

por Fábio Salem Daie
19 de novembro de 2014
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Este texto foi apresentado por seu autor durante o lançamento do livro Thomas Piketty e o Segredo dos RicosFábio Salem Daie

1.

Logo no início de O Capital no Século XXI[1], Thomas Piketty nos diz o seguinte: “A questão da distribuição [da riqueza] merece ser estudada de maneira sistemática e metódica. Sem fontes definidas, métodos, e conceitos, é possível ver tudo e o seu oposto” [p. 2-3]. Comecemos com essa petição de rigor, tão importante para Piketty, para citar outra observação que vem ao nosso encontro: “Certamente, seria um erro subestimar a importância do conhecimento intuitivo que todo mundo adquire sobre a riqueza contemporânea e os níveis de renda, ainda na ausência de qualquer construção teórica ou análise estatística. Cinema e literatura, romances do século dezenove em especial, estão cheios de informação detalhada sobre a riqueza relativa e os padrões de vida de diferentes grupos sociais, e especialmente a respeito da profunda estrutura da desigualdade, as maneiras pelas quais é justificada, e seu impacto nas vidas individuais” [p. 2]. Consonante com a aposta na relevância da literatura – incomum entre os economistas, diga-se de passagem –, Piketty cita em diversos momentos de seu livro os romances de Honoré de Balzac e Jane Austen. O recurso à literatura deles funciona, nas mãos de Piketty, como ferramenta para conferir sentido à história da riqueza.

O que significava, afinal, viver com duas mil libras por ano na Inglaterra oitocentista? Isso era, como nos faz saber Piketty, 60 vezes mais do que a renda média inglesa à época. Ainda assim, Marianne (personagem de Austen) acha “difícil viver com menos” [p. 416], embora não possa dizê-lo “sem corar”. Nós, ao imprimirmos qualquer discurso sobre o sentido da igualdade e da justiça, quanto tempo teríamos de dedicar às duas mil libras de Marianne? Por sua vez, quanto tempo levaríamos para entender o seu enrubescimento? O rubor, mencionado por Austen, está ligado por certo a algum sentimento de pertencimento de classe, a expectativas individuais de inserção social, marcas bem definidas de distinção de grupos, hábitos e costumes especiais… Fatores relacionados à riqueza, mas que a tornam palpável, como não podem fazê-lo os números. Piketty, que sabe disso, complica ainda mais o problema e vai buscar Elinor, irmã de Marianne. Elinor “não pode deixar de dizer à irmã que ela está sendo extravagante”. De acordo com Piketty, essa extravagância tinha algo de necessário: na opulência da minoria rica está o material humano do escritor, que de outra maneira conduz seu relato sobre a luta do resto da sociedade pela sobrevivência.

Para ele, há certo crédito na visão da desigualdade do século XIX porque – segundo diz – esta “não descreve a si mesma como meritocrática”. “Neste mundo [europeu oitocentista], era perfeitamente óbvio que sem uma fortuna era impossível viver uma vida digna” [p. 416]. E para os esforços que empenhamos, hoje, contra as estratégias neoliberais, permanece o aviso: “A moderna sociedade meritocrática, especialmente os Estados Unidos, é muito mais dura com os perdedores, porque procura justificar a dominação no terreno da justiça, da virtude e do mérito, para não mencionar a produtividade insuficiente daqueles que estão embaixo”.

 

2.

Dissemos tudo isso com um único objetivo: puxar a sardinha para a literatura. Dessa maneira, desejamos também suprir uma lacuna que consideramos importante na obra de Piketty, a saber: a questão (não explorada) de como surgiu a desigualdade na história do mundo. Já que Piketty nada diz a respeito do assunto, nos vemos obrigados a mencioná-lo. A resposta se encontra no capítulo 21, da obra de 1926, escrita pelo argentino Ricardo Güiraldes. De acordo com o próprio Jorge Luís Borges, trata-se do clássico Don Segundo Sombra[2]. Ali, somos informados de que:

“Nosso senhor, que assim dizem foi o criador da bondade, costumava andar de povoado em povoado e de rancho em rancho, pela Terra Santa, ensinando o Evangélio e curando com palavras. Nessas andanças, levava de assistente São Pedro, de quem gostava muito, por homem de fé e serviçal”[p. 232]. Contam que numa dessas viagens, tão duras aliás como eram duras as viagens dos que levavam gado no infinito dos pampas, a mula em que ia Nosso Senhor perdeu uma das ferraduras e começou a mancar. (Passo a resumir agora a história de Güiraldes, contada por Don Segundo) Por sorte, Nosso Senhor e São Pedro estavam perto de um povoado. Avistaram uma casa, onde se lia numa tabuleta: “Ferraria”.

– Boa tarde – disse Nosso Senhor – Poderia ferrar minha mula que perdeu a ferradura de uma das mãos?

– Passem adiante – respondeu o velho ferreiro – Vou ver como posso servi-los.

Depois de sentarem em uma cadeira puída e de pés quebrados, Nosso Senhor perguntou:

– E qual é o seu nome?

– Me chamam Miséria – respondeu o velho, e foi buscar o que precisava para servir os forasteiros.

Não possuía quase nada com que pudesse trabalhar. Revolvendo um monte de entulhos, encontrou um pedaço de prata. Pediu desculpas a Nosso Senhor por não ter mais para oferecer, e com este metal construiu uma ferradura. Com ela, ferrou a pata do animal.

– Quanto te devemos, bom homem? – perguntou Nosso Senhor.

Miseria olhou os forasteiros de cima abaixo e concluiu:

– Pelo que vejo, vocês são tão pobres quanto eu. Do que vale cobrar? Vão pelo mundo, que talvez algum dia Deus me tenha em conta.

– Assim seja.

Nosso Senhor e São Pedro se retiraram. No caminho, São Pedro disse:

– Como somos mal agradecidos, Senhor! Aquele pobre homem nos ferrou a mula com uma ferradura de prata, não nos cobrou nada, ainda que nada possuísse, e nós vamos embora sem sequer dar-lhe um presente de amizade!

Nosso Senhor pesou aquelas considerações e concordou, e retornaram à Ferraria. Ali, concedeu ao velho ferreiro três pedidos.

– Pense bem, disse ele.

São Pedro, que estava atrás de Miseria, soprou no seu ouvido:

– Peça o Paraíso.

Mas Miseria não lhe deu atenção. Ao invés disso, pediu que qualquer um que sentasse em sua poltrona, subisse em suas nogueiras ou se metesse em sua tabaqueira, ficasse preso. Preso até que o próprio Miseria o libertasse. A cada pedido desses, São Pedro insistia:

– Peça o Paraíso!

De nada adiantou. Somente quando Nosso Senhor e São Pedro haviam partido novamente, Miseria ponderou que talvez agira mal. Arrependeu-se e disse em voz alta:

– Como fui tolo! A verdade é que, se agora mesmo me aparecesse o diabo em pessoa, daria a minha alma em troca de mais vinte anos de vida e dinheiro à vontade.

Nesse momento, apresentou-se à porta um cavalheiro bem vestido.

– Se deseja, Miseria, posso te apresentar um contrato, dando-lhe o que pede.

Sacou do bolso um rolo de papel, cheio de escrituras e números. Leram juntos e, estando de acordo, firmaram os dois.

A partir daí, a história contada por Don Segundo Sombra se estende num conjunto de peripécias. Nelas, Miseria engana por três vezes Lúcifer e sua trupe diabólica, fazendo uso dos poderes recebidos, anteriormente, de Nosso Senhor. Em determinado momento, quando Miseria consegue prender todos os demônios do inferno em sua pequena tabaqueira, alguns poderosos – médicos, advogados, juízes – vão reclamar com o prefeito. Qual a razão? Uma vez que o Mal não está mais à solta, eles não têm o que fazer, porque já nada de ruim ocorre na cidade. É por pressão desses poderosos que Miseria se vê obrigado a libertar novamente o Diabo e seus seguidores.

Quando enfim morre, Miseria sobe aos céus. Encontra lá São Pedro, que diz que não lhe guarda rancor. Porém, completa: como o ferreiro não pediu o Paraíso quando lhe foi possível fazê-lo, infelizmente não pode deixá-lo entrar.

Rejeitado às portas do Céu, Miseria desce ao Purgatório. Neste local existe certo ar de repartição burocrática, e informam de que só podem permanecer aqueles destinados às glórias celestes.

Maldizendo a própria sorte, Miseria marcha por fim ao Inferno. Bate na porta. Um dos demônios, ao abri-la, reconhece seu rosto e corre para os pés de Lúcifer, o diabão. Todos os demônios se lembram na mesma hora dos enganos e tormentos que Miseria os fizera passar na Terra. Desesperado, Lúcifer grita que fechem imediatamente a porta, e que não o deixem entrar por nada.

(Volto às palavras de Don Segundo): “Aí ficou Miseria sem entrar em lado algum, porque nem no Céu, nem no Purgatório, nem no Inferno o queriam como sócio; e dizem que é por isso que, desde então, Miseria e Pobreza são coisas deste mundo e nunca irão a outra parte, porque em nenhuma outra querem admitir sua existência” [p. 245].

 

3.

No contexto da novela de Güiraldes, a história de Miseria funciona como o mito fundador do gaucho argentino, do homem do campo no limiar do século XX. Apesar de suas referências ao universo bíblico, católico; bem como dos jogos de oposição entre Mal e Bem, Riqueza e Pobreza, essa história carrega algo de mais primordial: a semelhança com os relatos míticos que a antropologia colhe dos chamados “povos primitivos”, em que subsistem dois tempos: o tempo a-histórico (quando tudo foi criado, inclusive o homem); e o tempo histórico (que é o tempo da vida em sociedade). Nessa dupla chave está sua riqueza, e talvez algo da nossa verdade periférica.

O relato de um gaucho pobre (Don Segundo Sombra) sobre Miseria quer dar sentido à vida de excluídos, a saber: aqueles excluídos do espaço urbano nascente, da cidade moderna, da modernidade em si. Que a Miseria esteja condenada a vagar pela terra, como o gaucho vaga pelo pampa sem fim, nos traz ecos de uma experiência histórica própria, que no Brasil também aparece sob o véu do sertão infinito e circular de Guimarães Rosa. Que experiência e que ecos são esses?

A crer no que nos dizem mestres como Antonio Candido, Roberto Schwarz, Francisco de Oliveira – para citar apenas alguns –, trata-se desta contradição fundamental: o fato, brutal e desconcertante, de que aquilo que nos faz modernos, o elemento que nos insere na vanguarda da ordem do mundo, é justamente nosso traço arcaizante, o componente vetusto, “atrasado”, da composição nacional. Essa contradição se daria não somente na nossa relação com o exterior, mas também internamente. Aqui, a incrível rapidez da acumulação primitiva de capital industrial só teria sido possível porque conviveu, intimamente, com processos pré-capitalistas de reprodução social. Um exemplo (entre muitos) seria os mutirões de construção de moradia que, para Francisco de Oliveira, durante décadas contribuíram para baixar o custo de reprodução da força de trabalho, tirando a pressão sobre os salários e, portanto, contribuindo para garantir a superacumulação na ponta. Modos de vida “arcaicos”, inseparáveis de modos de vida “modernos”, estão no eixo da nossa chamada formação.

A interpretação brasileira possui um aspecto extra-nacional. A dinâmica ininterrupta entre o moderno e o arcaico; o positivismo, o liberalismo (e outros tantos ismos) claudicantes e estrambólicos em relação à norma europeia; a existência de uma dimensão interna imponderável, porque secularmente penhorada ao humor das finanças estrangeiras… É este, talvez, o magma profundo que surge, nas histórias de Miseria e Don Segundo, como momentos distintos de uma unidade: o relato mítico fundacional; o relato histórico da vida do gaucho, do excluído, do homem do campo. Em chave similar (mas avançada histórica e esteticamente em relação a Güiraldes), fornece ao famoso labirinto de Borges o seu caráter infinito, retirado de paredes finitas; encontra no sertão de Guimarães Rosa o palco onde Riobaldo enfrenta o mundo, e simultaneamente o transcende; envereda por Cien Años de Soledad apenas para, no término, regressar ao início.

As formas do mito são numerosas. Certamente, há diferenças importantes entre os países latino-americanos. No Brasil, hoje, quando se proclama que “o futuro finalmente chegou”, que “o gigante acordou”, enquanto a indústria vive como sócia menor do capital nacional e internacional (precedida pelo agronegócio e pelo capital bancário)… Quando isto acontece, vivemos, quer saibamos ou não, mais um capítulo dessa trajetória desconjuntada. Como poderia, afinal, “o futuro chegar” num momento tendencial de desindustrialização? Sem dúvida não vivemos (os brasileiros) o mesmo capítulo de forma idêntica. Exemplo disso seria o ódio atual de certa elite, que nega o caráter político de rejeição aos próceres do neoliberalismo, classificando-a (a esta rejeição) como um novo “cabresto”; portanto, como um regresso ao arcaico (do qual ela mesma constituiu-se).

Queremos dizer que a experiência destadesigualdade estrutural funda nossos afetos, nossa memória, nosso imaginário. Tudo isso nos fala profundamente, como não fala a um europeu. Talvez seja daí, desta fonte de nascença (os mais pessimistas diriam ‘fonte da vida eterna’), que possamos e devamos nos inserir no atual debate sobre a desigualdade.

Para terminar, uma anedota:

No fim do livro de Ricardo Güiraldes, um gaucho chamado Fabio Cáceres – pupilo de Don Segundo Sombra – consegue finalmente romper a dinâmica de reprodução da pobreza. Alguém sabe como ele a rompe? Herdando. Cáceres herda uma estância do pai, que era um homem rico. Está aí uma solução que Piketty julgaria, sem dúvida, muito realista e atual.

Fábio Salem Daie é jornalista e pesquisador no programa de pós-graduação da Universidade de São Paulo e um dos autores de “Thomas Piketty e o Segredo dos Ricos”, ed Venetta.



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