Pin Yin, a imprensa chinesa e o alfabeto latino
A civilização chinesa inventou o papel no século II e a imprensa no século VII – na Era Cibernética, o Império Romano enfim conquistou a China
A civilização chinesa inventou a pólvora no século IX, utilizada inicialmente em práticas alquímicas e pirotécnicas. No Ocidente, a pólvora foi rapidamente adaptada e produzida em larga escala para fins bélicos – canhões, armas de fogo portáteis, artilharia. Em meados do século XIX, sedenta por chá, seda e porcelana, a Inglaterra fez uso da pólvora em canhões de longo alcance para incendiar a esquadra e subjugar o milenar Império Chinês nas infames Guerras do Ópio.
Os europeus, empenhados no “livre comércio” e em “civilizar” o mundo, têm se caracterizado por sua ganância, selvageria, covardia e dom de iludir. Foi assim na China, Japão, Oceania, Sudeste Asiático, Índia, Oriente Médio, África, nas Américas, que eles “descobriram”… acho que estou divagando, melhor voltar para o tema.
A civilização chinesa também inventou o papel e a imprensa. O mandarim é tonal, possui cinco tons – “a” (neutro, leve), “ā” (alto, plano), “á” (ascendente), “ǎ” (descendente-ascendente) e “à” (descendente). A variação melódica dentro da sílaba, o tom, altera completamente o significado da palavra; enquanto que, no ocidente, o tom é totalmente irrelevante para o seu significado. Após os sete anos de idade, um estrangeiro dificilmente conseguirá aprender a falar chinês e a diferenciar os tons do idioma (surdez tonal), tampouco alcançará fluência nativa – não conseguirá emitir consistentemente e muito menos discernir, em velocidade de fala corrente, a variedade de tons que os chineses usam em seu dia a dia.
Uma amiga brasileira, que falava chinês e estava almoçando comigo na China, pediu mais arroz para o garçom, 白饭, Bái Fàn. Ela levou muito tempo repetindo as palavras 白 e 饭, em tonalidades diferentes; e o garçom levou muito tempo para entender o que ela estava querendo dizer – cinco tonalidades para 白 e cinco tonalidades para 饭, ou seja, 25 combinações. Se ela tivesse pedido um pneu no restaurante, vá lá, tudo bem; mas arroz, a alimentação básica na China?! Falei para minha amiga jogar o diploma de chinês dela na lata do lixo – se fossem três sílabas, a chance de ela se fazer entender seria de uma em 125.
Por outro lado, boa parte dos sons das palavras estrangeiras não são discerníveis para os chineses, que também são incapazes de reproduzi-los. “Bra” e “zil”, por exemplo: o mandarim não comporta encontros consonantais tipo “br”, não possui o som “z”, nem o “l” final. Brasil é conhecido como 巴西, Bā Xī.

Além do mandarim ser tonal, a escrita chinesa é ideográfica. O idioma é composto por palavras de uma só sílaba, que correspondem a um só caractere e um fonema – quase cinquenta mil caracteres, cerca de cinco mil de uso diário. Pelo fato de as palavras serem monossilábicas, o uso da composição é muito frequente. Há sim, em parte, relação fonética entre os símbolos e os sons. Mas ela é tão vaga e inconsistente que, para um ocidental, na prática, a escrita chinesa não oferece pista alguma sobre a pronúncia do ideograma.
Fiquei intrigado com a organização dos cinquenta mil ideogramas, de acordo com a sua complexidade crescente, na elaboração de dicionários. O sistema radical-por-traço é lógico, mas só é funcional para quem já domina a escrita; para os demais, é um labirinto. Cada caractere possui um radical, que deve ser localizado de antemão (nada óbvio). São 214 radicais, ordenados pelo número de traços (de 1 a 17); e ainda resta analisar os traços remanescentes – digamos que, para um estrangeiro, é uma obra praticamente impossível.
Em 1987, vi computadores na China e fiquei curioso. Os chineses, que inventaram a imprensa, nunca puderam fazer uso da máquina de escrever mecânica convencional. “Cinquenta mil caracteres, hein?!” As máquinas de escrever chinesas utilizavam bandejas contendo milhares de tipos móveis.
O sistema britânico de romanização do mandarim, Wade-Giles, foi introduzido no século XIX; e o sistema desenvolvido por linguistas chineses, Pin Yin, foi introduzido nos anos 1950. Em computadores, normalmente, a pessoa digita as letras latinas do Pin Yin, que o sistema converte para uma série de ideogramas possíveis, ordenados por frequência de utilização, e o digitador escolhe a alternativa desejada. O Pin Yin atua como uma ponte fonética entre o alfabeto ocidental e os ideogramas milenares.
Com o computador e o celebrado celular, o uso da grafia latina para a representação de palavras chinesas acabou se difundindo. Na atualidade, as crianças chinesas aprendem o Pin Yin antes dos ideogramas – enfim, o Império Romano conquistou a China.
A digitação do idioma chinês em Pin Yin e sua conversão automática em ideogramas têm acarretado “amnésia digital”. Embora o reconhecimento visual e a leitura não estejam sendo prejudicados, o declínio da escrita manual tem favorecido o esquecimento, perda de fluência e dificuldade crescente em reproduzir os caracteres tradicionais. Em um futuro distante, os ideogramas chineses poderiam ser substituídos pelo Pin Yin? Em 1945, após declarar a independência, o Vietnam abandonou oficialmente os ideogramas em favor do alfabeto latino.
Em 1987, quando pisei em Shang Hai pela primeira vez, eram raros os chineses que falavam inglês, assim como eram raros os estrangeiros andando pela cidade (os poucos turistas viviam protegidos por excursões). A princípio, eu usava mímica, acompanhada de palavras em inglês, só para não parecer cinema mudo. Mas tive que me restringir, calado, à mímica, porque os chineses pareciam se divertir muito tentando decifrar os sons das sílabas que eu emitia, procurando um significado para elas, por mim desconhecido, que os desconcentrava, prejudicando a comunicação. Eles, ao contrário, não paravam de tagarelar, pondo ênfase em sua fala, achando que, assim, eu acabaria por entender alguma coisa.
Quando voltei em 2011 e 2013, encontrei vários chineses falando inglês. Mas a grande maioria, até hoje, continua incapaz de entender minimamente qualquer idioma estrangeiro. Mesmo as pessoas que entenderiam algumas palavras em inglês as reproduzem adaptadas, tipo Bā Xī para Brasil, e não reconhecem a pronúncia estrangeira.
Na quarta visita a Shang Hai, em 2026, minha comunicação piorou muito. Eu só uso duas palavras chinesas, Nǐ Hǎo e Xiè, Xiè, olá e obrigado; mas meus interlocutores se apressam em enfiar os seus celulares na minha boca para acionarem a inteligência artificial, não querem esperar eu conferir o texto em inglês, confiam cegamente nas informações da IA e a conversa, ao invés de progredir, anda em círculos de desinformação – o resultado é comunicação zero.
Até 2013, eu, que sou vegetariano, tinha que andar com uma lista enorme de nomes de animais, porque os chineses não concebiam um ser humano vegetariano, não adiantava eu dizer que não consumia carne, frango ou peixe, porque eles ofereciam carneiro, pato e camarão… minha lista incluía escorpiões, cães e gatos.
Contudo, a quantidade de turistas e ocidentais vivendo na cidade aumentou tanto que hoje basta eu mostrar o ideograma 素 (Sù)[1] para ser prontamente atendido (ou enxotado do restaurante).
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de New York, New York.
[1] Nota: 素 (Sù) pode ter vários significados. Se você estiver num restaurante, é dieta vegetariana, sem carne. Mas, dependendo do contexto, poderia também significar branco, claro, simples, puro, básico, essencial, fundamental, natural, vegetal, cru etc.

