Pistas para uma nova revolução produtiva - Le Monde Diplomatique

DESINDUSTRIALIZAÇÃO

Pistas para uma nova revolução produtiva

por Lawrence Carroué
7 de março de 2012
compartilhar
visualização

Foi-se o tempo em que os defensores da indústria eram tachados de arcaicos. Cada vez mais, os candidatos às eleições presidenciais vangloriam-se da retomada da produção local. Mas, afinal, qual é o futuro da indústria nos países centrais agora que a China anuncia uma escalada da diversificação de seus produtos?Lawrence Carroué

A despeito dos discursos sobre a “sociedade pós-industrial do lazer” florescidos nas décadas de 1990 e 2000, a produção industrial ainda desempenha papel essencial na organização dos territórios, na dinâmica dos sistemas produtivos e nas relações de poder estruturantes da globalização. Em vinte anos, de 1990 a 2010, profundas mudanças surgiram na hierarquia global: diante do dinamismo dos países emergentes e das potências regionais, a participação da Europa dos 30 (os 27 países da União Europeia mais Noruega, Islândia e Suíça) na produção mundial caiu de 36% para 24,5%. Em 2011, a China se tornou a primeira potência industrial do mundo, encerrando um século de hegemonia norte-americana, enquanto o Brasil, promovido a sexta maior economia do globo,1 ultrapassou a França em produção industrial; a Coreia do Sul superou o Reino Unido, que é seguido de perto pela Índia. Tais reconfigurações geoeconômicas explicam-se pela emergência de uma nova divisão internacional do trabalho, no contexto de uma arquitetura mundial multipolar.2

Viu-se então um deslocamento sem precedentes dos mercados, arrastando investimentos, empregos, parques produtivos. De 1990 a 2010, a fatia dos lucros dos 220 maiores grupos europeus vinda dos países emergentes aumentou de 15% para 24%. As lógicas de localização das transnacionais sofreram intensas transformações. Embora persistam as deslocalizações (transferências da produção do centro para a periferia do capitalismo) baseadas nas diferenças de custos salariais, as empresas passam a procurar também responder às demandas das novas classes médias urbanas adimplentes, já que nos países do Norte os rendimentos destas estão bloqueados. Assim, lança-se uma corrida em direção aos mercados do Sul.

Longe de confinar-se a atividades de baixo padrão, os grandes países emergentes ganham espaço em setores mais sofisticados: telecomunicações, indústria aeroespacial e aeronáutica, transportes de alta velocidade, energia atômica, indústria naval… Eles negociam ferozmente as transferências de tecnologia, realizam um sensível esforço de qualificação de sua mão de obra e criam corporações transnacionais cada vez mais dinâmicas, que dão trabalho aos grupos ocidentais. Nas negociações exclusivas entre a Índia e a companhia Dassault, anunciadas em fevereiro de 2012, para o fornecimento de 126 aviões de combate Rafale, o debate recaiu sobre o número de aviões construídos na Índia pela empresa estatal Hindustan Aeronautics Limited (em princípio, 86%), sobre as transferências de tecnologia consentidas e sobre as contrapartidas econômicas e financeiras.

A geografia mundial da inovação sofreu uma reviravolta, como ilustra o tríptico chinês, que mobiliza fatores humanos, financeiros e tecnológicos. Esforço humano: com 1,15 milhão de pesquisadores, a China dispõe de um potencial equivalente a 82% da capacidade norte-americana e 79% da europeia; segundo a National Science Foundation norte-americana, o país deverá concentrar 30% de todos os pesquisadores do mundo até 2025. Esforço financeiro: em 2009, pela primeira vez, a China apresentou um orçamento para pesquisa que a colocou em segundo lugar no mundo – ainda bastante longe dos Estados Unidos, mas à frente do Japão.3 Finalmente, esforço tecnológico: em 2011, o país se tornou o primeiro depositante mundial de patentes, graças a uma estratégia nacional que visa a passar do “Made in China” (“produzido na China”) para o “Designed in China” (“projetado na China”).

O impacto é considerável, e abre novos campos de concorrência direta. No dia 23 de dezembro de 2011, o grupo China Three Gorges (CTG) – que deve seu nome à famosa barragem hidrelétrica no rio Yang-Tsé – comprou 21,3% do capital da empresa Energias de Portugal (EDP), privatizada em nome da luta contra a dívida pública. Ele venceu o grupo alemão Eon e a brasileira Eletrobrás, por um montante de 2,7 bilhões de euros, oferecendo um preço por ação 50% acima do preço de bolsa. A China já é responsável por metade da produção mundial de painéis solares fotovoltaicos, colocando pressão sobre os fabricantes ocidentais – como mostra a falência, em dezembro de 2011, das alemãs Solon e Solar Millennium. O país conta com o primeiro parque mundial de turbinas eólicas, que até 2020 deverá ser multiplicado por 4,7.

 

Ladeira abaixo

Nesse contexto, o impasse das estratégias europeias e a cegueira de suas elites políticas e econômicas são impressionantes, sem falar no verdadeiro choque que a chegada da indústria mundial chinesa ao primeiro lugar causou nos Estados Unidos.4 É mais que urgente que a União Europeia e a França finalmente se preocupem de maneira séria com seu futuro industrial, científico e tecnológico. A Europa enfrenta uma combinação de desemprego e subemprego, com 23,8 milhões de pessoas em busca de trabalho no final de 2011.

A crise traduziu-se numa queda de 20%, em dois anos (2007-2009), do valor da produção industrial na União Europeia. O declínio foi de 15% na Europa Central e Oriental, um terço na Estônia, um quarto na Letônia, passando de 20% na Alemanha (21,4%), Itália, Finlândia e Suécia. Entre o início da crise, no final de 2008, e o fim de 2010, a União Europeia perdeu mais de 4 milhões de empregos industriais, ou 11% de seus efetivos. No terceiro trimestre de 2011, essas perdas ainda não haviam sido absorvidas, exceto na Alemanha. A severa recessão que se anuncia para 2012-2014 por conta dos gigantescos planos de austeridade só poderá agravar esse declínio.

A França se tornou o país mais desindustrializado entre os quatro grandes da zona do euro (os outros são Alemanha, Espanha e Itália); entre 1980 e 2011, os empregos industriais no país caíram de 24% para 13% do total. Os motivos dessa forte erosão são tema de debate. Geralmente se avalia que, desde 1980, cerca de um quarto desse declínio pode ser atribuído a mutações no sistema produtivo e à crescente terceirização de atividades industriais para o setor de serviços, como a utilização de pessoal temporário. Algumas tarefas de projeto, de logística e até de secretariado acabam sendo repertoriadas como serviços, ao passo que até então eram incluídas na produção.5 É preciso acrescentar a isso a baixa dos efetivos vinculada aos ganhos de produtividade, a qual representa cerca de 30%.6

A França traça uma longa e inquietante marcha em direção à desindustrialização, que a crise só faz acelerar. Há vários indicadores evidenciando esse processo, como o declínio dos investimentos, com queda de 10% entre 2008 e 2010, ou a explosão do déficit comercial a partir de 2004. A balança comercial industrial está no vermelho para quase todos os produtos, com exceção do setor agroalimentar. As exportações atingem apenas 87% das importações do conjunto dos produtos industriais, 73% dos bens de consumo e 87% dos bens de capital. Nos últimos cinco anos, o déficit acumulado atingiu 113,6 bilhões de euros, em particular com a China e a Alemanha. Enquanto os pontos fracos se aprofundam, desgastam-se os pontos fortes: a França perde fatias do mercado de exportação para a Europa e o mundo, sem conseguir satisfazer suas próprias necessidades nacionais.

Embora os trabalhadores não qualificados paguem o preço mais alto, com uma redução de 671 mil empregos (-55%), verifica-se também a perda de 182 mil postos de trabalho qualificados e 74 mil postos de engenheiros, gerentes e técnicos. Não é de espantar que a desindustrialização tenha se tornado um dos maiores desafios das próximas eleições presidenciais, tanto a francesa como a norte-americana. Não há candidato, da extrema esquerda à extrema direita, passando por François Hollande e Nicolas Sarkozy, que não fale sobre isso.

A Comissão de Bruxelas e os governos nacionais que se sucederam ao longo das três últimas décadas têm uma responsabilidade direta, tanto na construção como no colapso da acumulação financeira e no mecanismo de desindustrialização da União Europeia: trata-se dos dois lados de uma mesma crise sistêmica. Definida em 2000, a chamada Estratégia de Lisboa revelou-se uma grande ilusão. Na verdade, ela estabeleceu a meta – jamais alcançada – de cada Estado dedicar 3% de seu Produto Interno Bruto (PIB) à pesquisa e desenvolvimento e à inovação. Para isso, ela se baseava num sistema de representação ideológico que tinha como eixo a “economia do conhecimento”, a qual deveria substituir a produção material.

Esse discurso permitiu particularmente justificar o abandono de setores inteiros da indústria francesa e europeia em nome de uma especialização internacional do trabalho que reservava à União Europeia as tecnologias e os setores de ponta. Em larga medida, isso acompanhou a redistribuição internacional do capital, a financeirização crescente e a gestão de curto prazo dos ativos industriais, a acentuada deterioração da relação entre trabalho e capital na distribuição da riqueza e a recusa constante e sistemática de qualquer política industrial de bloco ou nacional em nome do dogma da livre concorrência.

 

Custo do trabalho

Esse desarmamento ideológico, político e econômico pagou um preço alto: entre 2000 e 2010, o PIB per capita cresceu apenas 0,9% na União Europeia e 0,5% na França, uma das mais baixas taxas das economias industriais. Assim, a Europa e a França estão presas entre os países em desenvolvimento e os grandes países emergentes, os quais vão competir com elas, dentro de quinze anos, em setores que até agora lhes eram relativamente reservados. De 1998 a 2008, o peso da produção de baixo custo nas importações de bens manufaturados na zona do euro passou de 17% a 44%.7

Convém destacar que a perda de competitividade da França vai muito além do custo do trabalho. Qualquer análise séria deve incluir tanto a pressão exercida pela política do euro forte, como a competitividade ligada à qualidade da formação, à organização do trabalho, ao lugar da pesquisa e da inovação, às características do sistema produtivo e às retiradas de capital [pagamento de dividendos etc.]. Na verdade, não apenas o custo da hora de trabalho em 2008 – o ano mais recente disponível para comparação – na indústria de transformação francesa (33,16 euros) é inferior ao da Alemanha (33,37 euros), mas a produtividade por pessoa na França é uma das melhores da Europa: ela é 21% superior à média da União Europeia dos 27 e 15% superior à da Alemanha. É por isso que a estratégia sistemática de baixa contínua do custo do trabalho revela-se um impasse.

Como a Alemanha é evocada a torto e a direito no debate público francês, é conveniente recordar alguns fatos. A eficiência alemã baseia-se fundamentalmente numa forte estratégia industrial (20% do PIB e 19% do emprego), e esta por sua vez é baseada na inovação, na crescente qualidade dos produtos e em uma especialização das atividades motrizes centradas em bens de capital civis, um tecido produtivo que articula grandes grupos (konzerns) e um poderoso tecido de pequenas e médias empresas inovadoras capazes de exportar (Mittelstand). Observando os últimos vinte anos, constata-se que a França representa, em média, 73,5% do PIB alemão, mas o valor de sua produção industrial atinge apenas 42%, e as exportações de bens e serviços chegam a 52%.

Os efeitos dessas decisões estratégicas são imediatos: apesar da crise, a taxa oficial de desemprego na Alemanha está em seu nível mais baixo em vinte anos (6,8%). Em 2011, o crescimento foi de 3%, permitindo reduzir para 1% do PIB o déficit público. Foram criados 535 mil empregos de tempo integral, e o investimento em bens de capital aumentou 8,3%. Esse bom desempenho da economia alemã deve-se a uma alta de 8,2% nas exportações, em particular para os países emergentes, incluindo a China, que pode, em três anos, vir a ser seu maior parceiro comercial.

É verdade que os konzerns transferiram para o exterior, sobretudo a Europa Central e Oriental, parte de seu parque produtivo (indústria automobilística, mecânica). Entre 1998 e 2012, a participação das importações de insumos no valor adicionado da indústria passou de 33% para 59% (de 50% para 80% na França).8 Mas os konzerns mantiveram o controle dos segmentos e funções mais estratégicos e, acima de tudo, não pararam de modernizar seu parque industrial na própria Alemanha, a fim de responder às novas demandas globais.

 

Investimento privado

As fraquezas do capitalismo francês são conhecidas há quarenta anos: subindustrialização (12% do PIB e 11% do emprego), insuficiência do setor de pesquisa e desenvolvimento privado e industrial, destruição e pilhagem do tecido das pequenas e médias empresas por grandes grupos – os grupos exportadores são na França três vezes menos numerosos que na Alemanha –, insuficiência de formação inicial e contínua, subqualificação e não reconhecimento das pequenas e médias empresas já existentes, ampla desqualificação de toda cultura técnica, tecnológica ou científica no sistema de representações sociais… A não competitividade francesa está particularmente relacionada ao baixo investimento dos industriais e do setor privado na pesquisa. O esforço não excede um quarto dos dividendos líquidos pagos em 2008, contra 35% em 1995.9 Em 2010, isso equivalia a apenas 57% do esforço financeiro das empresas alemãs.

Enquanto a Estratégia de Lisboa pretendia aumentar para 40% o número de pessoas entre 30 e 34 anos com diploma de ensino superior, 46% dos franceses de 25 a 45 anos têm nível de escolaridade inferior ou igual ao ensino médio ou técnico. Finalmente, o sistema produtivo francês também é vítima da hegemonia dos parâmetros financeirizados na direção das estratégias industriais, com os investidores acabando por se tornar os árbitros das escolhas estratégicas.

 

Um novo modelo de desenvolvimento

Diante desses fortes obstáculos e de tais urgências, a União Europeia e a França devem repensar completamente seu modelo de desenvolvimento, e devolver o sistema bancário e financeiro ao papel do qual ele nunca deveria ter sido tirado: o de financiar um crescimento econômico, social e territorial eficaz, sustentável e solidário. Em uma geração, ou seja, em trinta anos, é necessário operar uma verdadeira revolução industrial. A ruptura técnica e tecnológica deve ser equivalente àquela realizada no fim do século XIX. O desafio é cruzar uma nova fronteira decisiva em atividades de futuro que permitam responder aos desafios da União Europeia e do mundo no século XXI.

É bom lembrar que a população global deve aumentar em 1,4 bilhão de pessoas até 2030, e que a população economicamente ativa mundial deve dobrar até 2020. A generalização do modelo norte-americano de consumo para todo o planeta revela-se um impasse. Impõe-se um debate sobre as políticas europeias e nacionais de reindustrialização, acompanhadas por um esforço de longo prazo em torno da inovação, da pesquisa fundamental e aplicada, da formação e qualificação da mão de obra. Isso exige que a França mobilize mais quatro a cinco pontos percentuais do PIB, o que equivale a um esforço indispensável, e sustentável, de 100 bilhões de euros.

Só é possível imaginar uma saída da crise por meio da promoção de um novo modelo de desenvolvimento em escala nacional e europeia, no quadro de um modelo de crescimento sustentável. Isso supõe a reabilitação de um Estado estrategista que defina políticas industriais e investimentos de longo prazo, uma rerregulação e uma reorientação do setor financeiro e bancário para o investimento produtivo, a revalorização do potencial humano e a inovação e a emergência de novas especializações em torno de um reforço da oferta fundado em novos produtores e novos produtos.

Nesse contexto, a França e a União Europeia dispõem, apesar das dificuldades atuais, de diversos trunfos.10 Por exemplo, na energia, os crescentes desequilíbrios entre oferta e demanda, o aumento estrutural dos preços das matérias-primas em médio e longo prazo e a segurança do fornecimento requerem um aumento sem precedentes da intensidade energética, uma utilização mais racional e mais econômica dos recursos energéticos e minerais (generalização da reciclagem), a introdução de novas energias e uma verdadeira ruptura tecnológica no campo da energia atômica (reatores nucleares de nova geração, gestão de resíduos radioativos de alta atividade e longa vida).

Diante do aumento das necessidades mundiais de alimentos (50% até 2025), são consideráveis os desafios para produzir ao mesmo tempo mais e melhor, respondendo às exigências ambientais, sanitárias e sociais, garantindo a segurança alimentar. Enfim, o desenvolvimento de novos campos setoriais se abre com as tecnologias verdes, as energias limpas e a captura e estocagem de carbono, as biotecnologias e as ciências da vida, a química vegetal, os novos materiais, as nanotecnologias, as ciências cognitivas e as novas tecnologias computacionais. São muitas as pistas para uma nova revolução produtiva.

Lawrence Carrou é Diretor de pesquisa do Instituto Francês de Geopolítica (IFG, Paris VIII).



Artigos Relacionados

ARGENTINA

Isso não pode acontecer aqui...

Séries Especiais | Argentina
por José Natanson
RESENHAS

Miscelânea

Edição 180 | Brasil
ENTREVISTA – EMBAIXADORA THEREZA QUINTELLA

Balança geopolítica mundial deve pender para o lado asiático

Edição 180 | EUA
por Roberto Amaral e Pedro Amaral
UMA NOVA LEI EUROPEIA SOBRE OS SERVIÇOS DIGITAIS

Para automatizar a censura, clique aqui

Edição 180 | Europa
por Clément Perarnaud

Para automatizar a censura, clique aqui

Online | Europa
EMPREENDIMENTOS DE DESPOLUIÇÃO

Música e greenwashing

Edição 180 | Mundo
por Éric Delhaye
NA FRANÇA, A NOVA UNIÃO POPULAR ECOLÓGICA E SOCIAL

Os bárbaros estão em nossas portas!

Online | França
por Pauline Perrenot e Mathias Reymond
“NO TOPO, O PODER CORROMPIDO; NA BASE, A LUTA INTRÉPIDA”

A revolta popular no Sri Lanka

Edição 180 | Sri Lanka
por Éric Paul Meyer