Pixação e as aves de rapina - Le Monde Diplomatique

CULTURA

Pixação e as aves de rapina

por Sérgio Franco
1 de novembro de 2010
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Hoje, já não podemos considerar a paisagem metropolitana sem notar a pixação. Ela é uma organização social complexa que age para modificar valores da sociedade em relação aos mais pobres. Manifesta-se como luta contra a invisibilidade socialSérgio Franco

Enquanto escrevo, os abutres devoram defuntos desde o século XV a.C. em estruturas conhecidas como Torres do Silêncio (dokhma) na região do que foi o Império Persa. Realizam isso num ritual fúnebre integrado à religião do Zoroastrismo, que inaugurou o monoteísmo e foi uma das bases do que se configurou no Judaísmo, Islamismo e Cristianismo.

Embora não tenhamos mais os urubus integrados à obra “Bandeira Branca”, de Nuno Ramos na 29ª Bienal, talvez possamos encontrar essa intensidade expressiva das aves de rapina vinculadas a atividades simbólicas do homem nesse local distante do prédio de Oscar Niemeyer, no Parque do Ibirapuera. Os urubus de Nuno saíram motivados pelo ataque de uma frase de Djan Ivison – artista presente na seleção da 29ª Bienal e pixador1– nas paredes da instalação que dizia: “liberte os urubu” (sic), a qual colocou o assunto na mídia de massa e levara a um processo judicial que determinou o fim da licença ambiental para estarem ali. Do outro lado do mundo, o sentido de utilizar uma ave de rapina é impedir que corpos impuros maculem a terra sagrada. A religião desse ritual foi ainda a fonte de Nietzsche para escrever “Assim falou Zaratustra [seu profeta] – um livro para todos e ninguém” (1883), da mesma forma que esse autor o foi para as ações empreendidas pelos pixadores nos ataques de 2008 à Faculdade Belas Artes, à Galeria Choque Cultural e a própria Bienal na sua 28ª edição. Pois falou Nietzsche que Zaratustra diria: “Amo os do grande desprezo, porque são os do grande respeito e dardos da aspiração pela outra margem”. O ataque era para se chegar à outra margem e, agora, estão nela, como artistas convidados da Bienal em 2010.

Hoje, já não podemos considerar a paisagem metropolitana sem notar a pixação, o elemento iconográfico que mais lhe dá identidade em função da abrangência em que se situa. E, partindo da cidade, ocupou gradativamente outros espaços: exposições na Fundation Cartier e na Maison des Melallos (Paris, 2009) e na Matilha Cultural (São Paulo, 2010). Em conformidade com o prestígio que as instituições conferem, o mercado da arte poderia acolher a pixação, porém ainda não conseguiu assimilá-la: ela caminha por fora conquistando esse espaço na 29ª Bienal. A fotografia e o vídeo, neste contexto, são o suporte principal da expressão, na qual permanecem para além da intervenção passageira na cidade. Mas essas expressões partilham de mais aspectos, foram rejeitadas inicialmente como manifestações artísticas, embora hoje a fotografia não enfrente esse questionamento e a pixação tenha consolidado uma recusa mais do que uma aceitação.

 

Julgamento

No que concerne ao ataque à obra de Nuno Ramos, foi dado o direito de nos incomodar. Porém, ele provou do dissabor que se repete cotidianamente com os pixadores, quando se convoca o Judiciário para intervir no universo da arte. Essa interferência de um poder de Estado não simplesmente anula a obra, mas também punie seus autores, como ocorre agora com os pixadores presos em Belo Horizonte. Caracterizados como uma quadrilha criminosa, os jovens periféricos de uma cidade grande recebem o tratamento que já conhecem em um cotidiano marcado pela violência policial.

A pixação é uma organização social complexa, que detém um saber revelar a falibilidade dos sistemas de segurança e controle que incidem no meio urbano. É uma tecnologia de subversão, aprendida pela prática e partilhada por todos nas conversas dos points (pontos de encontro dos pixadores), onde revelam suas proezas para seus iguais. É um sistema de comunicação autônomo que satura a rede com a exposição de uma marca. E a criação do público, que interage com a obra no reconhecimento de seus autores, e os retira da invisibilidade que vivenciam cotidianamente.

Todavia autônomo, o campo da arte também se governa por regras que se repetem no funcionamento da construção da crença de que algo é arte. Nesta construção de consenso, partimos de um dissenso, que vigora como luta entre o estabelecido e o que pretende ocupar uma posição ao lado e acima. Depois, passamos pela inserção no mundo do discurso, daqueles que têm o poder de tornar algo fiável e que vão irradiar esse entendimento para toda a sociedade. A pixação está dentro desse processo e age para modificar valores da sociedade em relação aos mais pobres. Manifesta-se como luta contra a invisibilidade social, que tornou mais visível na 29ª Bienal, justamente nesse almejar político de incluir o povo no entendimento da arte.

No que concerne à 27ª Bienal, percebemos a iniciativa da instituição em incluir a pixação. Porém, o procedimento curatorial apropriou-se da prática, privilegiando intermediários que a fizeram no suporte da instalação: uma obra foi da artista Esra Ersen, que fez jaquetas com inscrições na tipografia da pixação. E a outra, de Marcelo Cidade, que apresentou o pixo no seu conceito transgressivo, em aparelhos que impediam o uso do celular e câmeras de vigilância de papelão, embora feitos de forma ilegítima e fora dos padrões aceitáveis e compreensíveis pelos pixadores.

Já na 28ª Bienal (2008), se exigiu um conjunto de procedimentos e linguagens particulares para esses pixadores anônimos adentrarem no jogo. E se deu como resposta, na iminência dos ataques, uma ameaça que reforçara a impossibilidade que os pixadores desfrutam cotidianamente. Nas palavras da curadora Ana Paula Cohen: eles não sabiam o que lhes aguardava. E, verificando sua ameaça, a pixadora Caroline Piveta da Mota amargou 54 dias de prisão.

T. J. Clark diz que o processo do modernismo revolucionou por responder à inclusão dos mais pobres nesse cenário, situando como marco inicial, a procissão do quadro “Marat assassinado” (Jacques-Luis David,1793). Nela, Marat foi reverenciado como mártir da liberdade, l’ami du peuple, e possibilitava uma ligação entre os de baixo, o “povo”, e os de cima, os “jacobinos”, com objetivos claramente políticos. O marco nesse caso constituiu-se porque, na fatura do quadro, houve mudanças para dar conta da representação do popular: foi feito às pressas, repleto de imprecisões, com uma grande porção da pintura feita fora dos cânones da Academia de Belas Artes, e, em sua exposição, a arte fora arrancada dos palácios da Monarquia. Agora, na pixação, o popular quer ser autor, criador da própria obra, e não apenas tema.

Hoje, os pixadores podem ser autores se considerarmos o que diz Joseph Beuys: “todos são artistas, mas só os artistas sabem disso”. Como na pixação, as suas performances estavam interessadas na associação direta a questões das esferas social e política, ele fabricava nelas as condições para chocar a moral vigente. Na arte, Beuys via um meio de comunicar seus questionamentos acerca da cultura dominante. Neste sentido, compreendia que o artista deveria hostilizar a sociedade para mostrar-se comprometido com ela.

Sol LeWitt (artista presente na 29ª Bienal) dizia, “ideias em si podem ser uma obra de arte; estão em uma cadeia de desenvolvimento e podem finalmente encontrar alguma forma, mas nem todas as ideias precisam ser concretizadas”. Dizia ainda que, “na arte conceitual, a ideia ou o conceito é o aspecto mais importante da obra. Quando um artista se utiliza de uma forma conceitual  em arte, isso significa que todas as decisões e planejamento são feitos de antemão, e a execução é um assunto perfunctório”.

Tal sentença põe em evidência a ordem de importância entre a ideia e sua expressão e, neste sentido, diminui a relevância da comunicação numa obra propriamente dita. Diante desse contexto, no que concerne a Beuys e se refere à pixação, a comunicação é salientada, ficando manifestado, entre outras coisas, que o artista é o transmissor de uma mensagem, mas nem por isso sua audiência deveria passar incólume, como mera receptora dentro de uma linguagem banal: ela sempre é desafiada a entender no que consistia a arte. Agora, também já estamos condicionados a entender no que consiste, enquanto arte, a pixação, por mais que sua razão de ser não passe necessariamente por esse campo.

Sérgio Franco é sociólogo, mestre pela FAU-USP e curador.



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