Poderosa como uma teimosia
A poeta Milena Martins Moura, que foi semifinalista do Jabuti em 2024, faz do tragicômico da vida comum um lugar produtivo para a sua escrita
Bem no início de O carro de apolo capotou no horizonte, sexto livro de Milena Martins Moura, uma espécie de prelúdio funciona como catraca ou ingresso para o que virá a seguir. Marca um ponto de embarque, não exatamente para a carona no carro de Apolo, mas para o trajeto circular entre dia e noite a que a poeta se vê obrigada a fazer:
“19h44 / o carro de apolo já foi pra sua garagem / no oriente hoje / vem amanhã me tentar / um pouco mais”.
Estar viva é um beco sem saída e as dores insistem em dar pistas disso, como bem escreve Milena em outro verso: “dor é prova de vida”. Seria apenas trágico, se não fosse cômico. Sim, o sofrimento é físico, persistente, cotidiano. Vai do bullying escolar, instigado por indícios de uma neurodivergência da “criança que dá raiva nas outras crianças”, à falta de água anual em casa nos verões, que faz até os gatos padecerem o calor. Mas todo esse incômodo emocional e físico esbarra, ou melhor, acaba sendo contido, pelo absurdo da realidade. De tão absurda, chega a soar engraçada: “existir / e ir pagando a conta / do amor alheio / daquela trepada em fevereiro de 86 / em cada conta de luz / e remédio controlado // ir se impedindo de morrer / custa caro”.
Na vida real, e na vida lançada aos poemas, o absurdo e o banal se ligam como dois lados da mesma moeda. Isso acende uma dupla de forças que mobiliza os versos do início ao fim: o trágico e o cômico. A tragicomédia também ganha vazão numa série de rasuras e pensamentos quase intrusivos que Milena deixa, propositadamente, escapar.
Como nos versos: “será que o carro de apolo era um apollo? / acho que não um deus grego não teria / vindo aproveitar uma promoção / da autolatina devia ser um verona”. A rasura, a repetição e o não-dito são parte do projeto – seja na reincidência de versos já escritos, seja na indicação gráfica dos “rabiscos” em versos tidos como “menos poéticos” ou poéticos demais, seja nos desenhos de traço infantil que acompanham as páginas.
Não há polidez nos versos, mas um fluxo insistente, repetitivo, que cava, a partir de si mesmo, detalhes da percepção daquela que escreve, sem abandonar ou esconder o que talvez ficasse de fora do discurso costumeiro. Tudo isso funciona como marca estética do conjunto, trazendo desvios não lineares de pensamento, além de invocar o erro, o equívoco, a distração e o excesso. Em versos como: “tenho existido há muito tempo / por educação / e respeito aos costumes / janelas são tão convidativas”, a autora desdobra, a partir dos próprios poemas, a sensação de uma voz, mais errática e permissiva. Mas ainda a voz própria de seus poemas, ramificada em autocrítica, elaborações da infância e da idade adulta, alusão à mitologia grega, convívio com a neurodivergência, vontade e impossibilidade de morrer e o tragicômico de tudo isso.

Ao explicitar os dois lados da mesma moeda – o impronunciável e o que se deve dizer, a violência das crianças e o fracasso dos deuses, o perigo a que os adultos submetem os filhos e os castigos que julgam educativos, a clareza dos versos e a verborragia dos pensamentos, a vazão ao hiperfoco e a tentativa de mascará-lo – a autora se compromete com a minucia da percepção. Uma percepção que vasculha e, na leitura, é vasculhada de volta por nós, que a lemos – “era pra eu ser canhota / minha avó achava que era coisa / do demônio / me deixou ambidestra em fraqueza // existir / essa força motriz evolutiva / poderosa / como uma teimosia”
Sua persistência pensante funciona como um antídoto à letargia, em um fluxo que é contragolpe à polidez, aquela que refrearia palavras e gestos. E o limite usual entre o que poderia ser dito, ou escrito, e o que geralmente não se diz nem se escreve é desestabilizado. O que vale mostrar? Porque mostrar o que em geral não se mostra amplia a lógica do vivido. E ampliar a lógica do vivido é colocar em cena modalidades de percepção que perderiam espaço com a justificativa da polidez, justamente. Os versos de Milena reivindicam outras lógicas de percepção e visibilidade pela via da linguagem poética.
Outro aspecto que chama a atenção é o diálogo com a mitologia grega – “eurípides nunca teria / me escalado / pro seu elenco” –, evidente desde o título do livro, com Apolo em ação. O carro do deus do sol sustentaria o dia no horizonte, mas capota. Além de Apolo, Milena também propõe um diálogo com Medeia, personagem da tragédia de Eurípedes, a mulher que, por vingança, decide matar seus filhos e é vista, ao longo dos tempos, ora como louca, ora como corajosa.
O diálogo com figuras de mitologias já estava presente em livros anteriores de Milena, como em O Cordeiro e os Pecados Dividindo o Pão, semifinalista do Prêmio Jabuti 2024 na categoria poesia. E em O carro de apolo capotou no horizonte tal diálogo segue não
priorizando a representação das personagens de modo reverente. Os poemas as mobilizam em prol de uma construção singular – a loucura e a coragem de Medeia para suportar a vida, o trabalho vão de Apolo para sustentar a realidade. À releitura dessas personagens se somam outras, digamos, da mitologia pessoal da autora – uma avó que condena ao pecado para cuidar, uma professora amada que ensina com crueldade etc.
não matei meus filhos
como caberia à louca
não fugi pra atenas
no carro de apolo
estou viva
nesse filme b
Os poemas reúnem o que poderia ter sido com o que finalmente é. Não pela via de um otimismo estéril ou de uma autocomiseração inerte. Mas pela decisão de dizer o impronunciável – a vontade de morrer, a escuridão dos dias e a suposta loucura que, talvez, seja apenas um modo de responder à vida. Surge no horizonte dos versos uma persistência lúcida, vívida, que ri e toma o acidente como rotina. Movimentos que encenam e teimosia de prosseguir – escrevendo, pensando, vivendo, elaborando, lembrando, odiando, sentindo calor etc.
Por fim, o medo já não é da morte, mas da vida que dói. Se a vida anda inescapável e nos obriga a percorrê-la, já não é a morte que se teme, única capaz de dar cabo ao sofrimento. Milena Martins Moura parece, enfim, colocar a morte no bolso, amigar-se a ela, atravessando a vida, essa teimosia, fazendo graça do medo, não de morrer, mas de estar viva: “e, no entanto, ainda estou viva / merda / essa força motriz evolutiva / poderosa / como uma teimosia / merda / estou viva”.
Ana Luiza Rigueto é jornalista, poeta e crítica de literatura.

