TRABALHO SOCIOCOMUNITÁRIO

Políticas públicas e poder popular

Experiências latino-americanas mostram o potencial do reconhecimento do trabalho sociocomunitário, da participação popular e da territorialização das políticas para fortalecer processos de organização coletiva

O Brasil chegará às eleições de 2026 diante de um paradoxo. Os indicadores recentes do mercado de trabalho registram avanços na formalização, no rendimento médio e na massa salarial, mas essa melhora convive com uma experiência cotidiana ainda marcada pela insegurança e pela precariedade. Segundo a PNAD Contínua do primeiro trimestre de 2026, 38,1 milhões de brasileiros permanecem na informalidade, cerca de 16 milhões encontram-se em situação de subutilização da força de trabalho e 26 milhões trabalham por conta própria. Trata-se de um contingente equivalente à população da Alemanha e que evidencia a permanência de uma ampla zona de trabalho marcada por vínculos frágeis, instabilidade ocupacional e baixa proteção social.

A distância entre a melhora dos indicadores e as condições concretas de vida da classe trabalhadora ajuda a explicar um dos principais desafios do campo popular e democrático: políticas públicas capazes de melhorar a vida das maiorias não produzem, por si mesmas, organização coletiva, participação política ou vínculos duradouros com um projeto de transformação social. É diante dessa contradição que uma questão ganha renovada urgência: podem as políticas públicas, além de garantir direitos e enfrentar desigualdades, contribuir para construir poder popular?

Entre 2024 e 2026, a Escola Nacional Paulo Freire e a Fundação Rosa Luxemburgo, em parceria com o Governo Federal Brasileiro, desenvolveram a pesquisa Políticas públicas, trabalho sociocomunitário e educação popular na América Latina. O estudo identificou um conjunto de experiências estruturadas pela articulação entre participação social, trabalho e território, evidenciando o potencial de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da capacidade de ação e decisão de sujeitos historicamente marginalizados. Nessa perspectiva, o território é compreendido não apenas como espaço de intervenção estatal, mas como lugar de vida, relações e disputas sociais, em consonância com as contribuições de Milton Santos (1996) e Bernardo Mançano Fernandes (2008).

Os resultados revelam que as políticas do “povo cuidando do povo”, ou aquilo que denominamos alianças público-populares, expressam uma conquista histórica dos movimentos populares incorporada por governos progressistas recentes na América Latina. Inseridas no contexto do avanço da extrema direita e da reorganização das estratégias das esquerdas, essas experiências apontam para novas formas de articular políticas públicas, organização popular e territorialização. Embora este seja um primeiro mapeamento, ainda limitado pela dificuldade de apreender mais profundamente as representações e contradições vividas pelos sujeitos envolvidos, os casos analisados permitem identificar tanto o potencial quanto os limites dessas experiências como mediações para o acúmulo de forças do campo popular e democrático[1].

O território no centro da luta de classes

Ao longo da história, o território esteve ao centro das disputas políticas, se não como elemento principal das reivindicações, como elemento que coroava a vitória de um grupo sobre outro. Mais do que um espaço físico delimitado, o território constitui-se como o espaço em disputa, onde se manifestam relações de poder, dinâmicas econômicas, vínculos sociais, identidades culturais e processos históricos que conformam a vida coletiva. Nesse sentido, sua configuração resulta da interação permanente entre diferentes agentes, interesses e projetos societários.

Atuar sobre os territórios e junto às populações que os constituem pressupõe a compreensão das relações que os atravessam e que concretizam as condições de existência e de experiência humana. O que exige, portanto, uma abordagem que reconheça sua natureza multidimensional e dinâmica; e é neste ponto que as políticas estudadas se destacam: ao se propor a superar uma perspectiva em que o território é mais que um mero espaço de governança.

Elas superam uma lógica de descentralização administrativa limitada e superficial – na qual as políticas vem de cima para baixo para serem aplicadas nos territórios – e configuram-se como ações de via de mão dupla, promovendo políticas de participação sociocomunitária que se territorializam fortalecendo vínculos coletivos e solidários como base de reconstrução do tecido social. Mais que isso, constituem-se enquanto um conjunto de ações que consideram a territorialidade, ou seja, a multidimensionalidade do vivido pelos membros de determinada coletividade, colocando tais sujeitos como centro das tomadas de decisão e de ação.

Em um contexto marcado pelo avanço da extrema direita em paralelo à amplificação da precarização do trabalho, políticas públicas que se articulam de forma territorializada tornam-se fundamentais também para o fortalecimento da democracia. Isto porque, ao incorporar as dinâmicas territoriais como elemento central do planejamento, da gestão e da participação social, amplificam a capacidade de Estado de, junto à sociedade civil e organizações populares, promover serviços e execução de programas que contribuem também para recuperar a centralidade da política como instrumento de transformação social[2].

Logo, a territorialização de políticas públicas torna-se instrumento essencial para consolidar uma democracia ancorada na participação popular e na apropriação social dos processos de desenvolvimento social. Construir políticas públicas territorializadas é abrir caminhos para a construção de processos duradouros de coesão social, participação popular e fortalecimento da organização popular em diferentes contextos territoriais. Por isso, é necessário assumir uma abordagem socioterritorial como dimensão estratégica para o desenvolvimento e para a materialização das políticas públicas, permitindo uma intervenção capaz de articular os aspectos sociais, econômicos, técnicos e culturais da realidade brasileira.

Foto: CTB – Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil

O que as experiências latino-americanas podem nos ensinar: combinação das formas de luta e poder popular

Resultado do acúmulo histórico das lutas dos movimentos operários e populares ao longo da década de 1980, a Constituição de 1988 institucionalizou um amplo conjunto de direitos e princípios voltados ao enfrentamento das desigualdades históricas no Brasil. “Constituição Cidadã” e “tudo pelo social” tornaram-se expressões recorrentes para definir a Carta Magna. A perspectiva universalista do acesso aos direitos sociais materializou-se na criação da Seguridade Social – integrando assistência, previdência e saúde – e no reconhecimento da educação pública como dever do Estado. Ao mesmo tempo, a garantia de mínimos constitucionais e de fundos para o financiamento das políticas sociais foi acompanhada da criação de mecanismos de participação e controle social.

Conselhos, conferências e fundos públicos passaram a compor um mesmo desenho institucional, articulado ao pacto federativo e à descentralização das políticas públicas. À época, esse modelo respondia a uma reivindicação histórica das forças populares, que buscavam romper com décadas de administração centralizada e marcada pelo autoritarismo e pela corrupção herdados da ditadura civil-militar.

A consolidação tardia da hegemonia neoliberal, ao longo da década de 1990, desmontou boa parte da agenda social inscrita na Constituição. Por meio de sucessivas contrarreformas, sobretudo na relação entre Estado e sociedade, a ampliação de direitos, a participação popular e o financiamento público das políticas sociais foram gradualmente substituídos pela lógica do ajuste fiscal permanente, da desresponsabilização estatal e das privatizações.

Esse processo ganhou força com a chamada reforma do Estado, implementada durante o governo FHC. Embora impulsionada pelo governo federal, sua consolidação ocorreu no cotidiano da prestação dos serviços públicos. A gestão e a execução de políticas passaram a ser transferidas ao chamado “setor público não estatal”, formado por organizações sociais, ONGs e outras entidades privadas.

Mesmo durante os governos populares, que ampliaram investimentos sociais e expandiram programas e políticas públicas, esses avanços não se converteram em uma articulação territorial das ações do Estado nem em processos duradouros de organização popular enraizados nos territórios.

Essa trajetória ajuda a explicar por que a melhora das condições de vida proporcionada pela ampliação das políticas públicas não foi acompanhada por uma mudança significativa na correlação de forças entre as classes. Em outras palavras, o avanço social não se traduziu, necessariamente, em maior capacidade de organização política da classe trabalhadora.

Ao mesmo tempo, profundas transformações atingiram o mundo do trabalho. A desindustrialização, a financeirização e a plataformização remodelaram as formas de inserção produtiva e de reprodução social da classe trabalhadora brasileira. O resultado é uma classe mais fragmentada, submetida a vínculos mais precários e com perspectivas cada vez mais reduzidas de ascensão social, especialmente a partir da década de 2010.

Embora os indicadores mais recentes apontem crescimento da formalização e da massa salarial, a precariedade estrutural do mercado de trabalho brasileiro permanece. Mesmo entre os trabalhadores formais, a inserção produtiva está longe de garantir melhores salários e direitos, sobretudo após a contrarreforma trabalhista de 2017.

Essa realidade também vem sendo analisada por pesquisas recentes do Cesit (Unicamp), que defendem a criação de um Programa de Garantia de Emprego com Estabilidade de Preços. Diante do excedente estrutural de força de trabalho e da precarização das relações laborais, os pesquisadores argumentam que o Estado deve assumir o papel de “empregador em última instância”. Segundo essa proposta, a economia brasileira organiza-se em quatro grandes núcleos: o primeiro, tipicamente capitalista e mercantil, absorve cerca de 35% da força de trabalho; o segundo corresponde à administração pública, com aproximadamente 15%; o terceiro reúne os arranjos de subsistência e a informalidade, concentrando cerca de 40% dos trabalhadores; e o quarto abrange as chamadas ocupações sociais, voltadas para áreas como cultura, cuidados, produção urbana de alimentos e outras atividades produtoras de valor social.

É justamente nesse ponto que as experiências latino-americanas se tornam especialmente relevantes. A pesquisa identificou um conjunto de políticas públicas que procuram responder ao mesmo desafio: articular o reconhecimento de trabalhos concretos produtores de valores de uso, a organização popular de base, a participação social e a territorialização da ação estatal.

Evidentemente, apesar das semelhanças históricas, do elevado grau de informalização do mercado de trabalho e do avanço da extrema direita em diversos países da região, o Brasil possui particularidades em sua formação socioeconômica e em seu desenho institucional que impedem qualquer transposição mecânica dessas experiências.

Ainda assim, diante da persistente hegemonia acadêmica, política e cultural do chamado “Norte Global”, torna-se fundamental fortalecer o intercâmbio de experiências e a construção de perspectivas comuns entre os projetos populares latino-americanos e os demais países do Sul Global. Mais do que modelos a serem reproduzidos, essas experiências oferecem pistas concretas para pensar novas formas de combinar políticas públicas, organização popular e poder territorial. No quadro a seguir, apresentamos, de forma sintética, algumas dessas iniciativas e suas possíveis interlocuções com a realidade brasileira.

Política Pública País Características Diálogo com o Brasil
Relevamiento Nacional de Barrios Populares (Renabap) Argentina Ferramenta para identificar e reunir informações sobre bairros populares para garantir o acesso a direitos e políticas de integração sociourbana. Políticas de agentes territoriais de políticas públicas
Salário Social Complementário Argentina Transferência de renda para trabalhadores da economia popular Reconhecimento do trabalho sociocomunitário nos territórios
La Clinica/La Escuela es Nuestra México Gestão territorializada/comunitária de equipamentos públicos Controle social territorial/orçamento participativo
Tiendas para el bien estar México Combinação de armazéns rurais e centros de comercialização de produtos alimentícios com preços subsidiados pelo orçamento público, respondendo à demanda periféricos Políticas para a Reforma Agrária e segurança alimentar
Alianzas público-populares Colômbia Contratação direta de organizações comunitárias e populares, sem intermediários. Financiamento de iniciativas, redes e cadeias produtivas de economia popular e solidária
Eleições de projetos sociais para as Comunas Venezuela Votações periódicas para que os territórios comunais escolham diretamente quais projetos comunitários devem receber financiamento público imediato Orçamento participativo

 

Entre a gestão da miséria capitalista e uma via popular de acúmulo de forças na contemporaneidade

Embora políticas associativas não sejam novidade nos governos progressistas latino-americanos, as experiências analisadas revelam uma inflexão qualitativa. Mais do que mitigar a pobreza, articulam reconhecimento do trabalho comunitário, fortalecimento de arranjos produtivos territoriais e ampliação da participação e do controle popular sobre as políticas públicas.

Sua tradução para a realidade brasileira, contudo, exige considerar nossas especificidades históricas e institucionais. A Constituição de 1988 consolidou uma concepção universal de seguridade social e descentralização das políticas públicas, posteriormente tensionada pela consolidação do neoliberalismo e pela centralidade do ajuste fiscal permanente. Apesar da reprimarização e da financeirização da economia, o Brasil preserva uma base industrial ainda expressiva, elevados níveis de assalariamento e um amplo mercado interno, características que reforçam a impossibilidade de qualquer transposição mecânica das experiências analisadas. O desafio comum, entretanto, permanece: responder às transformações contemporâneas do mundo do trabalho reconhecendo formas historicamente invisibilizadas de trabalho, sobrevivência e reprodução da vida nos territórios.

Essas iniciativas ampliam as possibilidades de democratização ao fortalecer a participação social e a organização territorial. Seus limites – como a fragilidade institucional, os riscos de burocratização e a desresponsabilização estatal – não anulam seu potencial para contribuir com o acúmulo de forças populares no contexto do capitalismo dependente. Em um cenário marcado pela crise estrutural do capitalismo, pelo avanço da extrema direita e pelas dificuldades das esquerdas em construir horizontes para além da defesa da democracia liberal, elas recolocam a necessidade de articular a disputa institucional às transformações das relações sociais produzidas nos territórios.

Nos termos de Gramsci, trata-se de fortalecer o desenvolvimento do “bom senso” no interior do senso comum, fazendo emergir, das experiências concretas das classes trabalhadoras, capacidades duradouras de organização, participação e disputa hegemônica. É precisamente nesse ponto que nossa pesquisa apresenta uma proposição para a realidade brasileira. A educação popular pode constituir o método orientador dessas políticas públicas, conferindo unidade entre territorialização, participação e organização popular. Ao integrar formação crítica, trabalho sociocomunitário e construção coletiva do conhecimento, ela amplia as possibilidades de que usuários das políticas públicas se constituam como sujeitos históricos capazes de fortalecer as organizações de base, ampliar o autogoverno dos territórios e disputar os rumos do desenvolvimento.

Mais do que experiências inovadoras de gestão pública, as iniciativas analisadas recolocam uma questão estratégica para a esquerda latino-americana: como reconstruir os vínculos entre políticas públicas e organização popular. Em uma conjuntura marcada pela fragmentação da classe trabalhadora e pela hegemonia neoliberal, a articulação entre reconhecimento do trabalho sociocomunitário, territorialização, participação e educação popular pode constituir uma mediação concreta para o acúmulo de forças e a construção do poder popular. Não como substituição das demais formas de luta, mas como parte de uma estratégia capaz de conectar as necessidades imediatas das maiorias trabalhadoras a um projeto de transformação socialista enraizado nas particularidades históricas da América Latina.

 

Luís Eduardo Fernandes é professor Adjunto do Departamento de Métodos e Técnicas do Serviço Social da UFRJ.

Emilly Firmino Oliveira de Lima é doutoranda em Geografia na Universidade de Brasília (UnB).

João Oliveira é mestre em Administração Pública pela USP e pela CAU, Pequim.

Maria Angélica Paixão Frazão é doutoranda do em Serviço Social da PUC-SP.

Teresa M. Maia de Carvalho é mestre em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA-UFRRJ).

Thays Santos Carvalho é mestre em Direito Econômico e Economia Política pela FD-USP.

 

Referências bibliográficas

FERNANDES, Bernardo Mançano. Conflitualidade e desenvolvimento territorial. In: BUAINAIN, Antônio Márcio (Org.). Luta pela terra, reforma agrária e gestão de conflitos no Brasil. Campinas: Editora da UNICAMP, 2008.

GARCÍA LINERA, Álvaro. El concepto de Estado en Marx: lo común por monopolios. Buenos Aires: Akal, 2025.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: trimestre móvel janeiro a março de 2026. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: IBGE – PNAD Contínua Trimestral. Acesso em: 7 jul. 2026.

KREIN, José Dari; MANZANO, Marcelo; TEIXEIRA, Marilane. Ocupações sociais e garantia de empregos. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert Stiftung Brasil; Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT/IE/UNICAMP), 2025.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.

 

[1] O levantamento das experiências latino-americanas foi realizado por meio de pesquisa bibliográfica, entrevistas semiestruturadas com gestores públicos, acadêmicos e representantes de movimentos populares e comunitários, além de discussões de qualificação conduzidas junto ao comitê político e acadêmico da pesquisa. Trata-se de um mapeamento inicial e sistematizado, que busca produzir evidências e referências analíticas para a compreensão dessas políticas, reconhecendo a complexidade envolvida tanto na identificação das múltiplas perspectivas dos sujeitos por elas alcançados quanto nas tensões e contradições que as atravessam.

[2] Experiências como as Comunas venezuelanas, por exemplo, demonstram o potencial que arranjos político-territoriais, que reúnem ação estatal e participação social, tem tanto para o fortalecimento de territórios onde as questões sociais se manifestam de maneira mais intensa, quanto na consolidação e amplificação das potencialidades de territórios que já apresentam formas mais estáveis de organização comunitária e desenvolvimento social. Ao reconhecer os territórios como centro de organização, decisão e ação coletiva, contribuem para que o povo se veja como sujeito prioritário dos processos de transformação social e promoção de direitos, o que tem relação direta com a sustentação da soberania nacional e popular e, consequentemente, para o fortalecimento da democracia.

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