Por que a paz na Colômbia é possível - Le Monde Diplomatique

NEGOCIAÇÕES ENTRE AS FARC E O GOVERNO

Por que a paz na Colômbia é possível

por Gregory Wilpert
2 de outubro de 2012
compartilhar
visualização

Fruto natural do sistema político, apresentado como a garantia da “continuidade”, a vitória de Santos nas eleições presidenciais marcou uma mudança. O presidente estabeleceu relações com a elite urbana, cosmopolita e com pretensões transnacionais, cujas preocupações nem sempre convergem com as proprietários de terrasGregory Wilpert

(Juan Manuel Santos divulga em cadeia nacional as negociações de paz com as Farc)

Após cinquenta anos de uma feroz guerra civil e inumeráveis negociações sem resultado, o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) concordaram em dar outra chance à paz. No dia 27 de agosto, o presidente Juan Manuel Santos anunciou sua intenção de retomar o diálogo com a guerrilha e confiar a mediação das discussões aos governos da Venezuela, Chile, Noruega e Cuba. Essa reviravolta não deixa de surpreender ao romper com a escalada militar dos últimos dez anos, antes sob a presidência de Álvaro Uribe, depois sob o governo de Santos – que foi seu ministro da Defesa.

Pelo menos dois fatores contribuíram para tanto. Em primeiro lugar, os dois lados tomaram consciência de que nem um nem outro têm condições de ganhar essa guerra. Mesmo que os rebeldes tenham experimentado reveses importantes durante a década Uribe (2002-2010), eles reconstituíram o essencial de suas forças desde 2008. A perda de vários dirigentes em emboscadas não impediu as Farc de empreender uma contraofensiva, que há quatro anos mistura minas, atiradores de elite e ataques com bombas. Segundo relatório recente do Congresso colombiano, a guerrilha dispunha em 2011 de uma “presença significativa” em um terço das municipalidades do país.1 Diante dessa situação, os militares multiplicaram operações estratégicas e tentativas de infiltração. Essas táticas novas certamente tornaram os combates menos visíveis do que eram há dez anos, mas não atenuaram o sacrifício infligido às populações. Se há um ponto de acordo entre os dois campos, não muito divulgado, é que um não superará o outro.

Mas o sinal de trégua dado por Bogotá se explica antes de tudo pelo perfil do presidente Santos, que não pertence exatamente à mesma elite que seu predecessor, eminente representante da oligarquia provincial. Após a morte de seu pai, um criador de gado executado pelas Farc durante uma tentativa de sequestro em 1983, Uribe vendeu suas terras familiares para financiar a carreira política, sem jamais cortar os laços que o uniam à aristocracia rural. Defensor contundente dos interesses dos grandes proprietários de terra, ele também mantém relações estreitas com certos barões da droga. Em 1991, a Agência de Informação para a Defesa (DIA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos classificava o futuro homem forte do país entre os colaboradores do cartel de Medellín – cidade onde nasceu e foi prefeito por um curto período – e o descrevia como “amigo próximo de Pablo Escobar”.2 Sua nomeação como diretor de aviação civil no início da década de 1980 coincidiu com uma alta exponencial do número de aviões autorizados a decolar e novas pistas de aterrissagem. Sobre o assunto, uma antiga amante de Escobar, Virginia Vallejo, confessou em 2007: “Pablo costumava dizer que, sem nosso garotinho abençoado pelos deuses [Uribe], teríamos de ir a Miami nadando para vender nossa droga aos gringos”.3

Apesar de sempre ter negado essas acusações, o presidente Uribe também mantinha boas relações com grupos paramilitares. Seria apenas coincidência o fato de seu antigo chefe de campanha e ex-diretor dos serviços secretos, Jorge Noguera, ter sido condenado a 25 anos de prisão em 2011 por ajudar as Unidades de Autodefesa da Colômbia (AUC), principal organização paramilitar de extrema direita, a se infiltrar na administração que ele dirigia?

Uribe jamais escondeu sua filosofia política. Se admitia que as desigualdades sociais vertiginosas de seu país não estavam alheias à guerra civil, considerava que era necessário acabar com a guerra antes de combatê-las. “Sem paz, não pode haver investimentos. E, sem investimentos, não há recursos fiscais que o governo possa investir no bem-estar da população”, explicava o presidente em 2004.4 Essa era sua maneira eloquente de afirmar a falta de interesse em políticas de redistribuição de renda – que, na Colômbia, passa necessariamente por uma reforma agrária – e, ao mesmo tempo, sua lealdade ao neoliberalismo.

Foi essa obsessão pelo uso da força, contudo, que levou Uribe ao poder, a favor de uma ruptura no seio da elite colombiana. Oposto à candidatura de Horacio Serpa, que fazia parte do restrito grupo a favor das negociações de paz com as Farc, o antigo fazendeiro de Medellín bateu à porta do Partido Liberal e apresentou sua própria candidatura às eleições presidenciais de 2002 com a etiqueta de “independente”. Depois, com a reeleição de 2006 em vista, criou sua própria legenda, o Partido Social de Unidade Nacional (“o partido da U”), que pôs fim ao sistema bipartidário que reinava na Colômbia havia um século. A renovação da cúpula estatal se manifestava pela formação de um governo de “novas caras”, em sua maioria provenientes do setor privado.

Como condição para qualquer negociação com os rebeldes, Uribe exigiu que depusessem as armas – prerrogativa evidentemente inaceitável para os dois movimentos de guerrilha presentes no país, as Farc e o Exército de Libertação Nacional (ELN), em função das operações perpetradas pelos militares colombianos e seus supletivos paramilitares de extrema direita.5 Durante os vinte anos que precederam a presidência de Uribe, a guerra civil experimentou três tentativas de negociações de paz – entre 1982 e 1985, 1990 e 1992, 1999 e 2002. Todas fracassaram. No último caso, a responsabilidade pelo insucesso recaiu principalmente sobre os Estados Unidos – cujo “Plano Colômbia”, com o suposto objetivo de financiar a luta contra os traficantes de droga, servia, na verdade, como máquina de guerra contra as guerrilhas – e sobre as elites colombianas, que demonstraram pouca urgência na conclusão das discussões.

Santos é a amostra mais representativa dessas elites. Seu tio-avô Eduardo foi presidente da República entre 1938 e 1942, enquanto seu primo Francisco ocupou a cadeira de vice-presidente quando Uribe estava no poder. Os Santos se beneficiavam dos dividendos de um poder construído durante o último século: El Tiempo, único jornal de distribuição nacional, pertenceu à família de 1913 a 2007. O pai do atual presidente foi seu diretor durante 25 anos.

Formado pela ortodoxia econômica da Universidade Harvard e da London School of Economics (LSE), Santos tinha apenas 21 anos quando conseguiu seu primeiro emprego governamental como delegado da Colômbia na Organização Internacional do Café em Londres. Promovido a ministro do Comércio Exterior em 1991, o jovem herdeiro empreendeu uma rotação de cargos que o conduziu ao posto de ministro da Defesa no governo de Uribe.

Fruto natural do sistema político, apresentado como a garantia da “continuidade”, a vitória de Santos nas eleições presidenciais de 2010 marcou, contudo, uma mudança notável. O novo presidente estabeleceu relações com uma elite urbana, cosmopolita e com pretensões transnacionais, cujas preocupações nem sempre convergem com as dos grandes proprietários de terras. Santos começou a prestar menos atenção nas reclamações dos caciques e seus aliados paramilitares. Os interesses que o atual presidente representa o inclinam mais a investir na integração de seu país ao processo de união latino-americana.

Contrariamente aos grandes proprietários de terras, o setor de exportação tem mais facilidade para se acomodar a políticas redistributivas. Esse aspecto talvez tenha sido crucial para a promulgação da lei “histórica” de junho de 2011, que prevê a restituição das terras de 2 milhões de colombianos submetidos à diáspora dos últimos 25 anos decorrente da guerra civil.6

Uribe decidiu ligar a sorte da Colômbia à dos Estados Unidos, investindo todas as fichas na obtenção de um tratado de livre-comércio com Washington. Seu sucessor, porém, persegue outras prioridades: a integração latino-americana (à qual se dedica fortemente) ou a projeção internacional da Colômbia, segunda economia da América do Sul (na frente da Argentina), notadamente por meio de sua participação no grupo dos Civets (Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Turquia e África do Sul), que, à imagem dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e, mais recentemente, África do Sul), buscam desconstruir a imagem de um mundo unipolar assegurando os interesses dos investidores.

O novo presidente também se distingue por sua habilidade em administrar conflitos políticos interiores, tradicionalmente exacerbados na Colômbia. Em vez de jogar lenha na fogueira, como gostava de fazer Uribe, seu sucessor prefere dobrar a oposição cooptando dela vários membros de seu governo. Atualmente, todos os grandes partidos políticos – à exceção do Polo Democrático Alternativo, de esquerda – possuem direito de voto no alto escalão do poder.

Esse clima mais distendido parece não convencer Uribe, que se voltou contra o antigo protegido e tornou-se seu adversário mais virulento. Quando Santos nomeou um membro da oposição como ministro do Trabalho, por exemplo, o ex-presidente qualificou a decisão de “hipócrita” e um sinal de “hostilidade contra o uribismo”.7

A ruptura entre os dois políticos marca também a fratura da antiga maioria governamental. A aliança antes formada pela grande burguesia rural e os meios empresariais de Bogotá explodiu em estilhaços. No entanto, e apesar da reorganização em torno de Santos, a política colombiana permanece igual em muitos pontos, notadamente no que se refere ao neoliberalismo econômico.

À primeira vista, o divórcio entre a presidência e os grandes proprietários de terras não é de bom agouro para as negociações de paz – cujo sucesso está condicionado a que todos os partidos aceitem sentar-se à mesma mesa e tocar em assuntos espinhosos, como a reforma agrária, ponto particularmente sensível entre os amigos poderosos de Uribe. As linhas, contudo, começam a se mover. Santos integrou à sua equipe de negociadores dois generais aposentados que por muito tempo sustentaram a linha dura na guerra contra as Farc. O obstáculo da oligarquia rural parece menos insuperável na medida em que a maioria dos outros setores econômicos deseja ver o fim dessa guerra. Segundo estudo da Fundação Ideias para a Paz, realizado por meio de 32 entrevistas com diretores de empresas de grandes cidades do país, “a maioria dos líderes econômicos estima que a negociação constitui a via mais segura e desejável para o conflito armado na Colômbia”.8

Se as negociações que estão por vir se apresentam como mais auspiciosas que as tentativas precedentes, também é porque até agora esses esforços se davam à sombra de operações militares norte-americanas. Foi a Guerra Fria na década de 1980, a Guerra Antidrogas na década de 1990, a Guerra contra o Terrorismo nos anos 2000. No momento em que essas linhas de frente se dissipam, pelo menos na Colômbia, e que a influência de Washington declina com elas, as chances de chegar a um acordo de paz se tornam mais tangíveis do que nunca.

A mediação confiada aos chefes de Estado do Chile e da Venezuela pode desempenhar um papel determinante, porque encarnam duas extremidades do cenário político latino-americano. Sebastián Piñera e Hugo Chávez certamente serão escutados. Essa suposição vale principalmente para o presidente bolivariano, que dispõe de laços privilegiados com as Farc sem, no entanto, aprovar a estratégia da luta armada – fonte de infinitos problemas para a Venezuela, como o afluxo de milhões de refugiados colombianos ou a desestabilização da zona de fronteira.

A renúncia às armas também já não é condição excludente para as negociações, razão pela qual uma eventual ruptura do cessar-fogo não colocará em risco todo o processo. Nas discussões precedentes, o menor sinal de ataque de um lado ou de outro servia de desculpa para a mesa se desfazer e alimentar o espiral da guerra.

A alternância do poder no Estado colombiano – que representa, contudo, apenas um pequeno deslocamento das relações de força no minúsculo perímetro das elites dirigentes – poderia, assim, colocar fim em uma das guerras civis mais longas e sangrentas da história. Pequena mudança, enorme consequência.

Gregory Wilpert é sociólogo, chefe de redação do site venezuelanalysis.com. Autor de Changing Venezuela by taking power: the policies of the Chávez government.



Artigos Relacionados

ORÇAMENTO SECRETO

A melhor forma de combate à corrupção não é o discurso

Online | Brasil
por Luís Frederico Balsalobre Pinto
DEMOCRACIA MILITANTE

A democracia do erro: Loewenstein e o Brasil de 2022

Online | Brasil
por Gabriel Mattos da Silva
COPA: FUTEBOL E POLÍTICA

Qual é a função dos bandeirinhas após o surgimento do VAR?

por Helcio Herbert Neto
EDUCAÇÃO

Um ensaio timidamente indecente sobre pânico civilizacional e educação

Online | Brasil
por Fernando de Sá Moreira
ECONOMIA E SAÚDE

O SUS e o relatório do TCU

Online | Brasil
por Vários autores
QUE A CLOROQUINA NÃO SE REPITA

Como conter a pulsão de morte bolsonarista

Online | Brasil
por João Lorandi Demarchi
RESPEITEM OS LOUCOS

A patologização do fascismo

Online | Brasil
por Roger Flores Ceccon
NOVO MINISTÉRIO, A CONCRETIZAÇÃO DE UM VERDADEIRO MARCO

Os povos indígenas e seu protagonismo na transição de governo

Online | Brasil
por Aline Ngrenhtabare Kaxiriana Lopes Kayapó, Edson Kayapó e Flávio de Leão Bastos Pereira