Por que incluir práticas pedagógicas de mídia e educação nas escolas?

IDEIAS PARA UM BRASIL DEMOCRÁTICO

Por que incluir práticas pedagógicas de mídia e educação nas escolas?

por Elaine Dal Gobbo e Franciani Bernardes
5 de dezembro de 2022
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Em tempos de desinformação, cyberbullyng e controle informativo, propaga-se os impactos nocivos que a exposição midiática tem causado, principalmente nos(as) mais jovens

Como formar crianças e jovens em um mundo saturado de mídia? Há pouco mais de duas décadas, falávamos das experiências que a tecnologia poderia proporcionar aos estudantes de maneira a vivenciarem uma educação mais integrada, ativa e participativa. Durante anos, as redes sociais digitais e a internet têm sido situadas nos debates como o novo fórum democrático a serviço da sociedade mundializada; um território em que a abertura à participação e à igualdade nos processos de decisão estariam, finalmente, acessíveis aos cidadãos e cidadãs.

Atualmente, em tempos de desinformação, cyberbullyng e controle informativo, propaga-se, ao contrário disso, os impactos nocivos que a exposição midiática tem causado, principalmente nos(as) mais jovens. Em muitos sentidos, a defesa da liberdade e da igualdade tem se tornado uma força potente nas redes digitais e, por muitas vezes, se constituído em um processo ideológico de mascaramento das relações sociais. Ainda que não pretendamos dar ênfase nem em uma coisa, nem em outra, estamos convencidas de que todas essas vertentes, apesar de contraditórias, são expressões de uma sociedade midiatizada.

Ancorados nas tecnologias digitais, os(as) estudantes de hoje parecem apáticos ante as pedagogias tradicionais de ensino. Há uma força ao alcance das mãos que os atrai como um imã e que os convida a sair de cena e a nunca mais se desconectar.

Outro dia, durante uma aula, uma de nós falou com os(as) alunos(as) do ensino médio sobre a impossibilidade de usarem o celular na escola, salvo quando orientados pelos(as) professores(as). Eles(as) entraram em pânico. Até os(as) mais desatentos(as) acordaram. Havia uma onda de pavor nos olhares incrédulos. E felizmente – ou não – ficaram aliviados(as) quando revelou-se que não seria exatamente assim. Também como um exercício em sala, vez ou outra, logo no início da aula, por volta das 13 horas, pede-se aos alunos que consultem em seus celulares a função tempo de tela, nas configurações, e, pasmem, a essa altura do dia, muitos já ultrapassaram o tempo de nove horas de conexão diária. Mas como pode ser? Simples assim, sendo. Deixam de dormir, comer, estudar, interagir com outros(as) estudantes para vivenciarem sua imersão diária ao dispositivo móvel. E tais excessos de consumo não costumam ser a exceção.

(Imagem: Franciani Bernardes)

No lastro de todas as mudanças sociais, os(as) estudantes têm incorporado cada vez mais elementos midiáticos em seus processos de socialização e também em seus processos identitários. A pesquisadora Helena Martins, em seu livro Comunicação em tempos de crise, fala sobre como esses espaços possibilitam novas formas de ação e interação, e como têm interferido diretamente na nossa percepção de tempo, inclusive do que é público ou privado. Não poderíamos estar mais de acordo. A técnica também tem impactado na nossa forma de percepção enquanto sujeitos, seja individual ou coletivamente. Por mais que a tecnologia e as apropriações sociais das novas mídias sejam reconhecidas como território fértil para a ação política, o sistema dialógico e horizontalizado dos novos meios de comunicação, com o auxílio da internet, se por um lado contribui para os mecanismos de organização, serve também para a implantação de um sistema de controle social sem precedentes. Portanto, se quisermos colocar em evidência nossa ação política e usar a mídia com todo o seu potencial democratizante e libertador, será preciso agir coletivamente para atuarmos nesse sentido.

Mas como fazê-lo? Qual o papel da educação midiática na formação dos(as) mais jovens em tempos de tecnologias digitais? Se entendemos a educação como o processo de preparar as crianças para entenderem o mundo em que estão vivendo, precisamos urgentemente educá-las a consumir, produzir e a compartilhar conteúdo; precisamos mostrar como funciona o processo de comunicação midiático e todas as suas agências de poder, e ajudar a torná-las, ainda de que forma desigual, agentes partícipes desse processo.

Os(as) educadores(as) críticos(as) de mídia precisam mostrar às crianças as dimensões políticas, econômicas e sociais das mídias; estimular o olhar crítico sobre os conteúdos; incutir a ideia de que tudo o que é veiculado é passível de questionamento; mostrar que a publicação de uma notícia em detrimento de outra é uma escolha editorial e que a forma de noticiar um fato também vai depender do posicionamento político dos veículos; falar sobre os mecanismos de comunicação popular e comunitário; mostrar as experiências de democratização da informação, e também dos oligopólios midiáticos; falar sobre regulamentação, entre outros. Trata-se de mostrar qual o mecanismo de funcionamento da circulação da informação, dos veículos de difusão e do nosso próprio papel enquanto cidadãos e cidadãs, de exigir dos nossos representantes políticos providências diante desse embate.

Apesar do documento da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), homologado pelo Ministério da Educação no final de 2018, reconhecer que “todo esse quadro impõe à escola desafios ao cumprimento do seu papel em relação à formação das novas gerações”, e que se espera que a escola “eduque para usos mais democráticos das tecnologias e para uma participação mais consciente na cultura digital”, são poucas as experiências escolares que atuam a partir dessa dimensão educacional, em uma fusão entre mídia e cidadania, entre cultura e participação.

Não é de hoje que professores(as) utilizam material multimídia para reforçar conteúdos ensinados em aula, mas experiências isoladas não farão com que estudantes assimilem espontaneamente como as mídias funcionam. Em outros casos, algumas escolas têm levado experiências de educação para a mídia, em projetos realizados em parceria com grupos de pesquisa vinculados a universidades, como acontece no Espírito Santo por meio da parceria realizada entre as escolas estaduais e o projeto de extensão Comunicaê – Educação para a Mídia, vinculado ao Obsevatório da Mídia – grupo de pesquisa e ação adscrito no Departamento de Comunicação da Ufes. Ainda assim, tratam-se de ações pontuais, que acontecem durante um trimestre, e de forma optativa. Nesse último caso, ainda que pontualmente, essa experiência possibilitou uma aproximação com parlamentares do estado, com o objetivo da elaboração da proposta do Projeto de Lei Estadual nº 587/2021, que prevê a inclusão da matéria “Educomunicação – Leitura e Educação para as Mídias” nos currículos dos ensinos fundamental e médio, nas escolas públicas e privadas da rede de ensino estadual do Espírito Santo. O projeto de lei consta em tramitação na Assembleia Legislativa.

Institucionalizar a educação midiática nos parece um caminho possível para se construir experiências pedagógicas consistentes e críticas, de forma a promovermos competências necessárias para construirmos espaços de experiências e saberes dentro e fora da escola. Para isso, faz-se necessário planejar um conjunto de ações no contexto dos ambientes formais e não formais de ensino, como escolas, associação de moradores, conselhos comunitários, coletivos, fóruns e outros. Torna-se fundamental mediar as experiências desde cedo, a partir de educadores(as) formados(as) na área, comprometidos(as) em disseminar tais pedagogias por toda a escola, de forma que cada professor(a), a partir de suas práticas docentes, também possa aplicar tais conhecimentos em suas abordagens pedagógicas, de forma transversal, e crítica.

Aos governos conservadores pouco lhes importa instituir tal prática pedagógica. Em tempos de desinformação em que se usa fake news como principal arma eleitoreira, não interessa ver alunos(as) aprendendo a criticar mídia. Portanto mais uma luta a se travar junto às instâncias políticas em âmbitos municipal, estadual e federal.

 

Elaine Dal Gobbo é jornalista e mestra em Comunicação e Territorialidades; e Franciani Bernardes é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e professora da rede estadual de ensino no Espírito Santo. Ambas são associadas ao Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

 

*Este artigo integra a série “Ideias para um Brasil democrático”, conjunto de textos que pretendem contribuir com a reconstrução do Brasil e com a necessária democratização da nossa democracia. A série é uma iniciativa do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político.



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