Por que não existiram grandes mulheres artistas na história?

História da Arte

Por que não existiram grandes mulheres artistas na história?

por Raisa Pina
10 de julho de 2019
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A verdade é que sempre existiram muitas mulheres grandiosas e excelentes nas artes, assim como em praticamente todas as outras áreas, mas na tradição da sociedade patriarcal, eventualmente elas sofriam pressões para se dedicarem exclusivamente às tarefas que lhes eram esperadas: o cuidado com a casa e a criação dos filhos.

A pergunta do título desse texto foi feita em 1973, pela historiadora da arte Linda Nochlin, em artigo homônimo. Nele, a estadunidense logo avisa que a questão – tão comum e repetitiva até os dias de hoje – é ardilosa, porque vem disfarçada de dúvida, mas na verdade reforça uma afirmação equivocada que ecoa na história, de que de fato não houve grandes mulheres artistas no mundo inteiro. A sentença ainda dissimula a ideia de que a mulher não é capaz de ser grande no que faz. Mesmo funções historicamente delegadas à mulher, como cozinhar ou cozer, são mais reconhecidas e profissionalizadas quando executadas por homens – nas listas de maiores chefs e estilistas do mundo, por exemplo, a maior parte delas é composta por homens.

O artigo de Nochlin disseca os avanços de gênero da década de 1960, mais especificamente sobre o processo de autoconsciência feminista que as disciplinas adquiriram, para propor uma nova crítica aplicada à História da Arte, que ainda conservava (e conserva até hoje) prerrogativa e monopólio masculinos. Os anos 60 do século XX significaram um questionamento importante com relação aos espaços ocupados pelas mulheres e os esforços de então foram canalizados para a iluminação de heroínas que a história ocultou, como provas de atuação sociopolítica das mulheres.

A verdade é que sempre existiram muitas mulheres grandiosas e excelentes nas artes, assim como em praticamente todas as outras áreas, mas na tradição da sociedade patriarcal, eventualmente elas sofriam pressões para se dedicarem exclusivamente às tarefas que lhes eram esperadas: o cuidado com a casa e a criação dos filhos. A professora Ana Paula Simioni, em sua pesquisa de doutorado, mostrou que as mulheres artistas do século XIX não eram respeitadas como profissionais, mas tratadas como amadoras, como se sua dedicação só pudesse ser resumida em simples gosto de lazer. A profissão esperada das mulheres sempre seria resumida ao lar ou aos cuidados.

Lavinia Fontana, retrato de Constanza Isolani, 1594

Linda Nochlin comenta que, em meados do século XIX, um terço dos artistas que participaram do Salão de Belas-Artes era composto por mulheres. Entretanto, o número otimista desanima quando se observa que nenhuma delas se manteve na carreira por muito tempo e que apenas 7% foram premiadas com medalhas – nenhuma com o prêmio máximo. O título do artigo de Nochlin levanta mais uma questão, que ela mesma aponta e resolve. Quando se fala em “grandes” artistas mulheres, logo se evoca a figura romantizada do gênio, aquele que era agraciado com um dom metafísico, quase divino de produzir arte. E se as mulheres não eram grandes, é porque elas não receberam essa “bênção”. Elas até poderiam se esforçar para conseguir produzir obras de arte grandiosas, mas jamais conseguiriam – era o imaginário patriarcal – até porque elas eram proibidas de frequentar as academias de arte oficiais. No Brasil, só foram aceitas na Escola Nacional de Belas Artes depois da proclamação da República; mesmo assim, não podiam assistir às aulas de desenho de corpo humano (era muito imoral para elas). Assim fica difícil ter reconhecimento social, não é? Difícil sim, impossível não.

Foram muitas as artistas que existiram ao longo da história, mas as violências simbólicas que sofreram, como a proibição de se matricularem nas academias, o impedimento de cursarem disciplinas importantes e a obrigação de se dedicarem exclusivamente ao lar, entre outras injustiças, mantêm muitos nomes ainda encobertos. Durante o Renascimento, por exemplo, as mulheres artistas geralmente tinham suas obras atribuídas a seus pais ou maridos, já que não assinavam as telas. É o caso de Marietta Robusti, filha de Tintoretto. E se nossa sociedade sempre enche a boca para falar em Leonardo, Michelangelo, Boticelli, Caravaggio e um sem fim de nomes de “grandes mestres renascentistas”, uma lista igualmente grande e diversa de mulheres resta ignorada.

Properzia de Rossi, por exemplo, em pleno século XVI fez uma escultura em mármore em que uma mulher cheia de amor para dar puxa seu amante que quer sair da cama. Seu gesto mostra desejo e o comando de seu próprio corpo, que exibe decote aberto e os seios à mostra. Também no século XVI, Plautilla Nelli pintou repetidas vezes a imagem de Santa Catarina, de quem era devota. As irmãs Anguissola (Sofonisba e Lucia) pintavam diversos retratos, inclusive de si mesmas, em posições sérias e profissionais, segurando pincéis, no ofício de seu trabalho. A jovem bolonhesa Elizabetta Sirani enfrentou as regras da época e criou uma academia só para mulheres, em meados do século XVII. Em Portia Wounding her Thigh, Sirani evoca uma história do antigo império romano. Portia era esposa de Brutus, assassino de Júlio César. Ao saber que seu marido não lhe confidenciava segredos pelo receio de Portia fofocar, ela se cortou para provar que, mesmo sob tortura, conseguia manter a boca calada.

A tela de Sirani coloca em primeiro plano Portia com o vestido levantado e a perna à mostra, perfurada e ensanguentada. Sua mão segura o canivete pontiagudo. No cômodo do segundo plano da tela, há um grupo de mulheres que conversam em roda. A obra ilustra a recusa de Portia em incorporar o estereótipo feminino da mulher fofoqueira, além de materializar a violência simbólica sofrida pela segregação de gênero em cicatrizes no corpo e sangue.

Outra artista do século XVII que deu forma imagética à violência sofrida foi Artemisia Gentileschi. Estuprada por um amigo de seu pai, a artista teve que passar por julgamentos e perícias torturantes para comprovar sua virgindade anterior e exigir punição de seu agressor, que nunca chegou a cumprir a pena. Sua dor e repulsa à violência machista, entretanto, é protagonista de várias de suas obras, como Susana e os Anciões ou Judite Decapitando Holofernes.

Ainda poderia citar Lavínia Fontana (foto acima), que por sua origem familiar privilegiada conseguiu inserção nas cortes e foi reconhecida ainda em vida; Fede Galizia; Lucrezia Quistelli; Judith Leyster; Clara Peeters; Rachel Ruysch; Caterina van Hemessen; Levina Teerlinc e diversas outras renascentistas impossíveis de serem esgotadas aqui. Esses nomes constituem, em sua maioria, arquétipos da mulher dentro do patriarcado: muitas não se casaram, muitas foram diminuídas como amadoras, algumas pararam de pintar ao se casarem e terem filhos. Todas essas histórias não são coincidências, mas uma forma de poder naturalizada historicamente. À mulher, eram delegadas as funções da casa. Qualquer outra atividade que escapasse disso era malvista e/ou subjugada.

A situação atual melhorou, temos de fato mais mulheres ocupando os museus e as galerias, mas ainda estamos longe da sociedade igualitária que queremos, vide as denúncias do coletivo feminista Guerrilla Girls. Voltando a citar Linda Nochlin, o problema está menos nos nossos hormônios ou no nosso ciclo menstrual do que nas instituições e na educação.

Raisa Pina é jornalista e pesquisadora em arte, cultura e política, doutoranda em História da Arte pela Universidade de Brasília.

 

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