Por que não levamos a sério no Brasil?
O que todo esse movimento degradante significa? O que está por detrás das entrelinhas?
Em 2023, dados alarmantes desvelaram a situação trágica da realidade acadêmica brasileira: de acordo com o levantamento da agência internacional Elsevier, o Brasil teve a maior queda na produção de artigos científicos em três décadas. Entre 51 países analisados, o Brasil ficou em último lugar, junto com a Ucrânia – que naquela época já estava em guerra. Naquele ano, os números do país corriam na contramão do mundo, que em média crescia 6,1%, um dos destaques na época foi a Índia, com quase 20% de alta, o que deu ao país o 3º lugar no ranking de publicações, atrás apenas de China e Estados Unidos.
A queda na produção reflete o baixo índice de adeptos à vida acadêmica, por mais que o site do governo apresente um aumento do número de grupos de pesquisas, o reflexo que reluz está na falta de bolsas e dos salários baixos, consequência da desvalorização do financiamento da ciência no Brasil – situação agravada pela pandemia, mas que sempre foi realidade no nosso país. Os impactos de diminuição do interesse na pós-graduação são observados a curto, médio e longo prazo, pois desde 2020 observamos uma queda gradual da quantidade de ingressantes nos programas de pós-graduação. O que todo esse movimento degradante significa? O que está por detrás das entrelinhas?
Não apenas como articulista ou observador, mas como protagonista em meu “lugar de fala” como pesquisador, gostaria de destacar alguns fatos que podem passar despercebidos. Um deles, sem dúvida, é o tratamento do corpo docente interno com as exigências impostas externamente pelos órgãos reguladores ligados à produção acadêmica. Na prática, somos avaliados pela produção (nem sempre pela qualidade, mas pela quantidade) em revistas com avaliações alfabéticas e numéricas, e reconhecidos (esse é o mais difícil) através da nossa total subserviência às metodologias que, curiosamente, não se adaptam aos diversos movimentos e dinamismos da sociedade. Na prática, somos reduzidos a “mais do mesmo”, porém com uma nova roupagem e linguagem com uma pitada de “academiquês”, aqui e acolá, pois quem consome a literatura é justamente o público acadêmico. O trânsito e a leitura não perpassam as diversas camadas sociais e ficam restritas à classe docente apenas, o que é óbvio constatar. Em outras palavras, a democratização do acesso aos conteúdos científicos produzidos pelos pesquisadores brasileiros deverá passar por um refinamento da linguagem e da própria finalidade: a quem desejo falar? Quais são os impactos que desejo com tal pesquisa? Por que escrevo sobre o tema? Os envolvidos na pesquisa (classes, grupos ou sujeitos específicos) se interessarão em ler? Posso me enganar, mas até o presente dia não vi tais indagações proferidas por pesquisadores ou grupos (muitos menos pelos programas, que estão constantemente pressionados por resultados e números).
Da mesma forma, o pesquisador (seja ele docente ou discente) carrega uma mácula indelével: seu descrédito constante e sua desvalorização, tanto de seu tempo quanto de sua saúde mental; A pesquisa no Brasil é vista como uma mera ocupação que torna o caminho do discente incerto e inconstante, tendo em vista as poucas oportunidades ofertadas para continuação na carreira acadêmica. Ouvimos constantemente de jovens mestres ou doutores a célebre frase: “depois da defesa, não sei sobre o futuro”, pois o limbo é a realidade mais comum aos jovens formados nos mestrados e doutorados pelo país. Da mesma forma, os docentes são constantemente pressionados pelo resultado e pela produção: na prática, valem mais 100 artigos cadastrados na Plataforma Sucupira da Capes do que apenas um trabalho publicado que levante discussões e tenha participação e divulgação Extra muros da universidade. Tanto discente quanto docente só valem o quanto maior (em números) forem suas publicações, sem levar em conta toda a estrutura que envolve nossa sociedade.

Alguns fatores podem justificar o aparente desinteresse de recém-formados pelo ingresso em cursos de pós-graduação. Podemos destacar entre as hipóteses levantadas, estas: a saturação de programas de pós-graduação; a distribuição desigual do acesso a esses cursos no país; os processos seletivos exigentes, orientados para perfis específicos; a inadequação do perfil dos candidatos ao programa; baixa atratividade da oferta e da carreira científica; aspectos sociais e econômicos dos estudantes.
As bolsas destinadas aos mestrandos e doutorandos, por sua vez, foram reajustadas há pouco tempo, no intuito de buscar uma melhor valorização e empenho destes no ofício, e mesmo assim não houve grande crescimento da procura por tal carreira. Por quê? Em primeiro lugar, reafirmo que a pesquisa no Brasil é vista apenas como uma mera ocupação e não como uma real necessidade, isso explica o motivo de discentes não serem vistos como trabalhadores – inclusive excluídos dos direitos trabalhistas, não tendo décimo terceiro salário ou direito a férias, por exemplo, – mas apenas como “prestadores de serviço”.
Retomando sobre os fatores que comprometem e afastam os jovens estudantes da carreira acadêmica, destacamos a incerteza de inserção no mercado de trabalho. Em entrevista ao The Conversation, o professor Eduardo Colombari, da Unesp, reforça que “o início de carreira em uma universidade federal ou estadual está em valores muito defasados em relação às expectativas de um profissional após mais de 20 anos de formação”. Segundo Colombari, vale destacar que o tempo de formação de um doutor é de mais de 20 anos, considerando o período formativo desde o ensino fundamental. “É preciso muita resiliência, e o que tem acontecido é um grande desestímulo financeiro e social que dificulta aos mais jovens a busca por essa formação”, frisa o professor.
A quantidade e a qualidade da produção científica dependem da formação e do investimento no preparo dos novos pesquisadores. Desse modo, deixamos em evidência que sem eles não há maior perspectiva de avanço no conhecimento científico. Quais os impactos incluídos nesse verdadeiro descaso? a) redução da geração de tecnologias e inovações; b) possibilidades cada vez menores de desenvolvimento econômico; c) oportunidades escassas de inclusão social por intermédio da pesquisa; d) queda no número de professores para formar novos profissionais na educação superior; e) enfraquecimento da capacidade (que já é pouca) do país de enfrentar problemas sociais.
Os levantamentos servem para refletirmos o cenário educacional no país e dar voz, nem que seja rouca, para inúmeros pesquisadores (discentes e docentes) no país que são silenciados pela pressão e pela necessidade. A realidade do descaso contrasta com o discurso inclusivo e democrático levantado exaustivamente nos círculos de debate, seminários e colóquios espalhados nas federais. No fim das contas, quem perde é a produção científica em nosso país.
Para os jovens mestrandos e doutorandos, esse é o quadro:
Expectativa: inserção, oportunidades e crescimento intelectual.
Realidade: Bornout, quadros depressivos e incerteza profissional.
Railson Barboza é Bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Doutorando e Mestre em Política Social (UFF). Imortal da Academia Fluminense de Letras.

