Por que o discurso para ficar em casa não reverberou

Metodologia

Por que o discurso para ficar em casa não reverberou

por Vinícius Mendes
19 de junho de 2020
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Como a falta de adesão à quarentena expressa a “vitória” do indivíduo sobre o social

Quando o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) passou a apresentar uma taxa diária de adesão da população paulista à quarentena, no começo de maio, pouca gente refletiu sobre o método utilizado para fazer a mensuração.

Em parceria com as gigantes do setor de telecomunicações e com a associação que as representa a nível nacional, o governo de São Paulo confiou ao instituto o Sistema de Informações e Monitoramento Inteligente (SIMI), que afere a circulação de pessoas em espaços públicos a partir da movimentação dos seus aparelhos celulares – captada pelas centenas de torres de sinal espalhadas entre cidades e bairros do estado.

Longe de ser uma metodologia cientificamente imprecisa, é a suposição que lhe antecede que escancara algo significativo do nosso tempo: é rastreando os celulares das pessoas que se consegue observar, com maior precisão, os lugares pelos quais elas circulam (ou não) – isto é, suas mobilidades e imobilidades. Os aparelhos são como uma extensão do corpo.

Entre as várias reflexões que essa suposição possibilita, uma delas é a de que o celular é, para o indivíduo, justamente o dispositivo máximo de sua individualidade. É por meio dele que se interage com os outros indivíduos – e que se abre todas as possibilidade de se contar de uma determinada forma aos demais; que se armazena todos seus dados privados (de fotografias a senhas bancárias, de contatos a históricos de busca) e que, principalmente, se consome.

Se alguns especialistas apontam o celular como a síntese de dezenas de aparelhos que preenchiam as casas de um passado recente, também pode-se dizer que ele realizou essa operação individualizando-os, isto é, transformando aquelas em atos individuais, isolados, cujos contatos sociais são possíveis para como expressão da própria individualidade.

Rua de São Paulo vazia no início da quarentena. (Vinícius Mendes)

É também olhando para o celular desta forma que se se pode perceber como ele é a ponta de um dos fenômenos mais evidentes do processo atual de individuação das sociedades – a postura em individualizar ao máximo os produtos que o mercado oferece, de forma que sejam cada vez mais semelhantes aos seus proprietários. Nesse processo, tudo o que é feito em larga escala, tudo o que escancara seu caráter de cópia, de similaridade, perde valor – inclusive os discursos com ar de semelhança. A lógica é, no final, a mesma que o celular oferece: ter, na mercadoria, uma extensão do indivíduo e de sua individualidade.

Essa tendência transparece principalmente na parafernália de conceitos e práticas do mercado, como a busca incessante por tornar o ato de compra uma “experiência” ou em chamar as demandas de consumo das pessoas – criadas pelo próprio mercado – de suas “dores”, que precisam ser entendidas pelo mesmo mercado para serem “curadas”. No alicerce de toda essa estrutura, está, inevitavelmente, a única maneira restante de se olhar para os indivíduos: como os sagrados “consumidores” – jamais os cidadãos de direitos sociais.

Esse anseio do marketing se manifesta, nos últimos tempos, no conceito de “hiper-personalização” dos produtos. O objetivo não poderia ser mais definidor desse estado de coisas: interagir com as pessoas de tal forma que, encantadas, elas tenham suas vontades desveladas a ponto de se tornarem mais cognoscíveis às empresas do que a elas mesmas. Tudo isso, é claro, colocado em prática pela tela do celular. 

Para empreendê-lo, o mercado conta já com toda estrutura de dados que circulam de diferentes formas dentro e fora da Internet. Para além dela, há o que parecia ser mais difícil: a sanha de um séquito de indivíduos ávidos, justamente, em ver suas individualidades expressas nos produtos – não apenas para consumi-los, mas para apresentá-los socialmente como individualizados (um dilema sociológico que o francês Dominique Wolton colocou dentro da ideia de “sociedade individualizada de massas”). Uma torção contemporânea e inédita ao conceito marxista de fetiche da mercadoria.

É esse indivíduo constituído à imagem e semelhança do mercado que é instado, agora, a respeitar um isolamento social cujo principal argumento é social: o de que é preciso ficar em casa por um período incerto para evitar que outras pessoas, desconhecidas, distantes, mas que compartilham os mesmos espaços, a mesma cidade, tenham a possibilidade de perderem suas vidas. Não há nada capaz de fazer com que esse indivíduo abra mão de expandir sua individualidade, de que ela seja a potência suprema dos seus atos, a decisão definitiva sobre sua complexa existência coletiva – nem mesmo uma pandemia de um vírus desconhecido que já contaminou 0,3% da população do país e que matou mais do que todos os acidentes de trânsito do ano passado somados.

Este indivíduo ainda é aquele que, como escrevi em outro artigo, coloca em dúvida qualquer coisa que não pode ser compreendida pela cognição – uma espécie de regressão secular ao modo de conhecer a realidade. A perversidade do vírus está também em ser, para a imensa maioria dos contaminados, uma doença assintomática: não senti-la no corpo ou não vê-la por perto significa para ele que a pandemia é fantasiosa.

O triunfo deste indivíduo, construído, potencializado e estimulado pelo mercado de consumo, que se enxerga nos produtos e nos discursos individualizados, é o fim do social? Esse é o dilema sociológico dos nossos tempos. Se por um lado, o fenômeno sustenta a construção de fronteiras enormes uns entre os outros – impedindo que o eco das mortes da covid-19 seja ouvido do lado de dentro do indivíduo –, por outro este mesmo indivíduo depende do reconhecimento do social para existir exatamente como indivíduo. 

Olhar para o agora, porém, é enxergar justamente a morte deste social – no sentido literal da palavra: se o discurso mais poderoso para se respeitar a quarentena é que o ato de ir para a rua pode ser a mesma coisa que o ato de matar alguém não reverbera, não é suficiente para convencer o indivíduo de sua responsabilidade, é porque o cadáver já está cheirando mal.

Vinícius Mendes é jornalista, cientista social, mestrando do departamento de Sociologia da USP e professor do curso de Jornalismo da Universidade Paulista (UNIP).

 



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