Por que Putin é tão inflexível em relação à Ucrânia?
Intelectual marxista e militante do movimento altermundialista, Boris Kagarlitsky é figura importante da esquerda russa. Na prisão em que se encontra em razão de sua oposição à guerra contra a Ucrânia, ele prossegue sua reflexão sobre a ordem internacional e o lugar da Rússia nesse contexto. Neste artigo, em coautoria com Aleksei Sakhnine – militante exilado na França e que luta por sua libertação –, eles identificam divisões no campo do poder que podem se acentuar
Ao envolver-se na questão ucraniana logo após sua eleição, o presidente norte-americano, Donald Trump, ofereceu a Moscou concessões significativas, como renunciar ao projeto de integrar a Ucrânia na Otan e reconhecer formalmente a Crimeia como território russo. Seis meses depois, o Kremlin mantém suas reivindicações territoriais sobre cinco regiões do país vizinho e ainda pretende impor a Kiev restrições em termos de garantias de segurança. A inflexibilidade russa – frequentemente atribuída à obstinação de um único homem, Vladimir Putin – fica mais clara se considerarmos os debates suscitados no país pela abertura norte-americana. Duas correntes se delineiam, mas ambas concordam em um ponto: não ceder nada em relação à Ucrânia. A situação tem seu tom de ironia: ao adotarem pacotes de sanções maciças após a invasão de 2022, Washington e Bruxelas esperavam fragmentar o campo do poder russo. Imaginava-se então uma ruptura dos laços econômicos entre Moscou e o Ocidente. Metade do comércio…

