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SOCIEDADE

Por um mundo mais feliz

por Mariana Fonseca
3 de janeiro de 2011
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A felicidade está na pauta de pesquisadores de todo o mundo, com o objetivo comum de melhorar a qualidade de vida do planeta. No Brasil, será votada no Congresso a PEC da Felicidade, que deseja incluir essa “busca” como um direito previsto na ConstituiçãoMariana Fonseca

No Brasil, foi aprovada recentemente na Comissão de Justiça do Senado Federal, e agora segue para votação no plenário, a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) da Felicidade, que visa incluir no artigo 6° da Constituição “o direito à busca da felicidade”. A ideia nasceu há um ano e meio junto com o Movimento Mais Feliz, idealizado pelo publicitário Mauro Motoryn, CEO da agência 141 SoHo Square. “Tínhamos dois macro-objetivos: primeiro, discutir a felicidade como política pública, entendendo o Estado a serviço do cidadão e ele inserido em sua comunidade; e segundo, incluir na Constituição o direito à felicidade”, conta o publicitário.

Por mais simples que a ideia possa parecer, ela segue uma tendência mundial que visa discutir o que os Estados fazem para melhorar a vida do cidadão, não focando apenas em índices de crescimento econômico. O ex-presidente de Harvard Derek Bok revelou recentemente que, se nos últimos 35 anos a renda média nos Estados Unidos cresceu e as casas dobraram de tamanho, isso não resultou em uma população mais feliz.

Na França, o presidente Nicolas Sarkozy encomendou um estudo aos economistas Joseph Stiglitz e Amartya Sem, ambos Nobel de Economia, para tentar propor uma alternativa ao Produto Interno Bruto (PIB), que não seria mais o índice correto para avaliar o desenvolvimento de uma nação. No Butão, já se falou também do índice de Felicidade Interna Bruta (FIB). A Constituição de países, como Japão e Coreia do Sul, reconhece a felicidade como um direito inerente a cada indivíduo e sociedade, assim como a Declaração de Independência dos Estados Unidos afirma que são inalienáveis os direitos à vida, à liberdade e à “busca pela felicidade”.

Essa busca também não passou despercebida a um grupo de pensadores finlandeses do think tank Demos, que, em parceria com a WWF, chegou ao que chamaram de A Política da Felicidade, Um Manifesto1. “Há uma quantidade enorme de pesquisas sobre o que faz uma pessoa feliz, assim como há muitos estudos sobre como nosso estilo de vida atual tem prazo para acabar devido à exploração excessiva da biosfera. Queríamos juntar essas duas linhas de pesquisa e apontar os meios mais sustentáveis para nos fazer mais felizes”, explica Simo Vassinen, pesquisador da Demos.

E o que é felicidade? Segundo Simo, a descoberta fundamental do estudo é que as pessoas ainda acreditam que felicidade é um estado mental que alcançamos quando alguma condição muda em nossas vidas. O que não é verdade: “felicidade é um processo em andamento. É uma ação entre pessoas, algo ativo publicamente, e não uma coisa passiva e privada”.

O manifesto está divido em cinco categorias, defendidas por Simo:

• Tempo livre com mais qualidade. “Passamos o nosso tempo ganhando dinheiro ou gastando. Precisamos de tempo para nos engajarmos em atividades não relacionadas ao consumo.”

• Transformar espaços em lugares significativos. “Queremos casas maiores, mais equipadas e, com isso, estamos nos isolando do mundo. E, para completar, os espaços públicos que temos não promovem encontros significativos. O certo seria termos a possibilidade de moldar os nossos espaços públicos para melhor usufruirmos deles.”

• Ações importantes em conjunto. “Estamos sendo sugados pelo trabalho, dedicando cada vez mais tempo ao escritório. Precisamos de tempo para outras atividades, como voluntariado, ou ainda produzindo inovações sociais em conjunto, estilo Wikipédia.”

• Cultura do bem-estar. Uma vida saudável é determinada pelo estilo de vida que levamos. A solução não é injetar dinheiro na medicina e na produção de “pós-reativos”. A mudança só ocorre quando fazemos melhores e mais saudáveis escolhas. “Atualmente, é muito fácil e  barato consumir coisas gordurosas do que saudáveis, subir de elevador, e não de escada, dirigir seu carro para todo lado, ou tomar uma pílula para qualquer problema. Isso porque não há melhores e mais agradáveis opções disponíveis para nós e para o meio ambiente.”

• Amigos, vizinhos e familiares. Devemos aproveitar melhor o conceito de família. Nossos relacionamentos mais importantes e as pessoas que mais nos apoiam não são mais definidos por questões biológicas ou até mesmo geográficas. “Precisamos expandir essa partilha e entender o conceito de família como algo mais amplo. Fortalecer essa rede.”

Todos os itens são seguidos de recomendações como: aumento de impostos para espaços não utilizados, proibição da circulação de carros em áreas onde crianças brincam, participação dos moradores no planejamento e implementação de áreas públicas, modelos educacionais que incentivem ações em grupo em vez de exigir apenas um comportamento individual exemplar etc.

Para Simo, na prática, uma vez que o foco está na felicidade, muda-se todo o processo de política, legislação, saúde, escolarização, a forma como construímos as cidades e até mesmo como a sociedade conduz as pessoas para suas escolhas. Mas não há quem considere isso tudo muito ingênuo? “Claro que sim. Sabemos que muitos dos resultados dos estudos parecem óbvios. Mas a pergunta é: por que não usamos isso como ferramenta ou objetivo político?”

É claro que a felicidade em países  como o Brasil ainda está atrelada ao desenvolvimento econômico. Mas o poder aquisitivo afeta a curva de felicidade só até certo ponto. “Quando se chega a um nível de renda médio, o PIB para de influenciar diretamente a felicidade de uma população.” Simo é categórico ao responder sobre a situação do Brasil. “Acho que o primeiro passo seria igualdade de ensino e educação de alto nível para todos.”

Um Brasil mais engajado

Por aqui, o Movimento Mais Feliz acredita que precisamos discutir com profundidade o tema, para que sejam estabelecidos parâmetros do que desejamos para a nossa sociedade. “Nós queremos um desenvolvimento econômico que eleve a condição individual do cidadão? Não. Não queremos crescer o bolo para depois dividir. Queremos crescer o bolo com qualidade para todos, a partir da infância”, defende Mauro, idealizador do movimento que hoje agrega mais de 300 ONGs. “Jamais nos preocuparíamos em colocar a felicidade na Constituição se todos os direitos que estão lá fossem cumpridos. Tivemos 16 anos de governos pós-Collor, e o nosso Índice de Desenvolvimento Humano não cresceu, nem o Índice de Valores Humanos.” A PEC da Felicidade chega ao plenário contando com o apoio da Associação Nacional dos Procuradores da República e da Associação Nacional dos Defensores Públicos Federais.

Paradoxalmente, o Brasil aparece nas pesquisas sobre felicidade no mesmo patamar de países como Canadá e Suíça. Um estudo do Instituto Gallup, aplicado em 155 países, entre os anos de 2005 e 2009, coloca o Brasil na 12ª posição entre os países mais felizes do mundo, à frente de potências como Alemanha, França, Itália e Estados Unidos. Para Mauro, é uma questão de má interpretação do conceito. “Não podemos confundir alegria com felicidade. Humor, alegria e descontração fazem parte do brasileiro. As pessoas falam que são felizes ‘do seu jeito’, porque são alegres, divertidas. Se você pergunta sobre o dia a dia, sobre transporte, educação, saúde, elas tecem críticas. E esses itens são pré-condições para a felicidade.”

O movimento está determinado a pressionar para que a felicidade seja um parâmetro nas políticas públicas. Segundo Mauro, grupos de estudo estão sendo organizados para avaliar mudanças em quatro grandes áreas: transporte, saúde, educação e segurança pública. “Em março de 2011, vamos discutir os temas em um congresso internacional.”

Além disso, a proposta é fazer pressão de cima para baixo, trabalhando cidades e suas prefeituras. “Estamos levando para 600 prefeitos os nossos estudos. Fizemos a campanha pelo voto responsável nas eleições de 2010 e vamos começar a acompanhar diariamente o desempenho dos deputados que tomam posse no dia 1º de janeiro, tudo disponível on-line no nosso site: www.maisfeliz.org/site/.”

Mariana Fonseca é jornalista e editora-assistente de Le Monde Diplomatique Brasil.



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