PSIQUIATRIA E CONTROLE SOCIAL

Por uma aceitação radical da diferença

Dialogando com as reflexões de Erving Goffman sobre estigma e desvio, até que ponto a chamada normalidade é um dado da natureza – e não uma construção social que transforma diferença em doença, incômodo em diagnóstico e singularidade em algo a ser corrigido ou excluído? 

Em 1998, Lars von Trier filmou Os idiotas, pautado nos princípios do manifesto Dogma 95, um movimento cinematográfico criado em Copenhage que estabelecia algumas regras como ter de ser feito no local, com câmera na mão, sem ações superficiais, sem música que não seja ambiente, entre outras coisas. Ou seja, era para ser estranho já pela forma. Os idiotas é um filme que conta a saga de um grupo intelectualizado e anticapitalista e que, por meio do “spaz”, espécie de catarse, procura o “idiota interior” e o libera em locais públicos. Portanto, é para ser estranho na forma e no conteúdo. 

Na primeira cena, ainda não sabemos que se trata de um grupo organizado com essa espécie de intervenção situacionista. Estão em um restaurante, agem como “retardados” (essa é a palavra utilizada no filme) e acabam sendo requisitados a retirarem-se por atrapalhar o ambiente social. Pois bem: o que é o “retardado” dos anos 1990 para trás, a hoje chamada pessoa com deficiência intelectual? É a que realiza movimentos cujo sentido não compreendemos, cuja fala não nos é clara, que raciocina o mundo de uma forma particular. Qual é a periculosidade que a deficiência cognitiva traz? Além dela, por que pessoas com as tais síndromes e condições psiquiátricas não frequentam o espaço público? 

Segundo Erving Goffman, aqueles que estão sujeitos ao banimento e à reclusão são os que ofendem regras sociais. Mas qual é a regra social ofendida? Em geral, não se trata de uma ameaça física a ninguém. Igualmente, na maioria dos casos não se trata tampouco de uma ameaça material. A ofensa gerada é, basicamente, a incapacidade que nós temos de entender a razão da ação do sujeito. Não entendemos por que ele está fazendo aquilo ou agindo daquela forma. 

Caso pareça exagerado, imagine, leitora e eleitor, quando você passou ao lado de uma pessoa considerada um paciente psiquiátrico e o que você sentiu. Em geral, medo, ansiedade ou outro tipo de desconforto. Muitas vezes, pelo olhar distante; outras, pelos envolvimentos ocultos (ou seja, quando o indivíduo está realizando uma tarefa que não corresponde à atividade social, como, por exemplo, contar meticulosamente conchas em um casamento na praia); ou por estar com o tônus de interação “incorreto” (a pessoa está com uma atenção muito exagerada, olhos fixos demais, ou pouco se importa com o que lhe dizem) etc. Trata-se de inúmeras regras de etiqueta que, como já mencionado, não ofendem nem física nem materialmente ninguém, mas que são perturbadoras. E tornaram-se perturbadoras pelo fato de que essas regras se introjetaram em nós como se fossem uma natureza humana que precisa obrigatoriamente ser respeitada para que o convívio seja possível. São regras muito precisas e minuciosas. E ao menor deslize, há o cuidado em retomá-las para não ser considerado “doido”. 

Crédito: Domínio público

Você as conhece bem e as exerce sem pensar muito nelas devido à educação e ao treino que teve desde a primeira infância: a forma de se comer à mesa, não olhar demais para alguém, prestar atenção ao objetivo principal do ajuntamento social (e se for estar distante, deve ser apenas em pensamento, sem demonstrá-lo), evidenciar prontamente a racionalidade do que você está fazendo etc. Por exemplo, caso esteja na rua esperando alguém, com o olhar perdido para o nada e alguém surja na esquina, quase automaticamente, você pegar o celular, vê que horas são com um ar impaciente, para que o outro entenda algo do que está acontecendo e você seja incorporado na racionalidade esperada. 

Contudo, por alguma razão, nem todos se adaptam a essas regras de etiquetas. A essas pessoas, Goffman dá o nome de infratores situacionais. Pessoas que estão fora dessas regras e exercem a sua racionalidade própria de forma que parece estranha aos que compartilham as regras estabelecidas. 

Contudo, essas regras não são naturais, elas são sociais e históricas. Antes do final do século XVIII, os considerados loucos andavam por entre a sociedade entendida como normal. Não havia o encarceramento do infrator situacional. E hoje nós o fazemos pelo fato de que o comportamento padrão assumiu a impressão de natural, óbvio e correto. E é muito estranho assistir a um comportamento que nos é totalmente alheio. E, por isso, nós internamos: precisamos supor que o infrator situacional está doente. Essa é a nossa tranquilidade. Estaríamos cuidando de alguém que precisa de ajuda, ao invés de percebermos que estamos eliminando a diferença da nossa vista, como detentores do arbítrio da existência social alheia. Temos o poder de decidir quem existe ou não. E em que baseia o nosso critério para eliminar alguém? 

A normalidade ou anormalidade de um comportamento depende basicamente da quantidade de pessoas que acreditam naquela prática. Falar sozinho é estranho? Para nós, sim, porque não entendemos a razão daquilo (em outras sociedades, é corriqueiro). Já rezar – que é igualmente falar sozinho para quem vê –, para nós, parece totalmente compreensível. Ou seja: a normalidade depende de um número razoável de crentes naquela prática. Ou seja, banimos do espaço público quem tem uma crença que não é a majoritária da sociedade. 

Embora o roteiro analítico brevíssimo que eu trouxe agora acima te mostre a arbitrariedade e a crueldade da reclusão, convém chamar a atenção ao fato de que a impressão de que determinados tipos de comportamentos são naturais tem a força de uma certeza que gera reações emocionais. Voltando a Os idiotas: por isso, o filme de Lars von Trier é extremamente desconfortável. E por que é desconfortável? Por que, para cada um de nós, a infração situacional gera tanto desconforto? Introjetamos que aquilo que não compreendemos nos assusta. Mas qual é o medo real? 

Chama a atenção, nesse quesito, os recursos para diminuir tiques em pessoas com autismo ou a síndrome Tourette. Há a opção do CBIT (Intervenção Comportamental Abrangente para Tiques), a Análise Funcional do Comportamento (ABA) que propõe uma abordagem para a diminuição dos comportamentos desviantes. Há também a possiblidade de associar a terapia a medicamentos. Agora, vejamos: trata-se, muitas vezes, de uma criança que tem uma especificidade: ela tem um comportamento que pode ser um reflexo fisiológico, uma resposta comportamental que é incrivelmente inofensiva e regularmente incompreendida pela sociedade. É, basicamente… diferente. O que se faz? Transforma-se a criança em outra coisa, menos diferente, mais aceitável. A solução que damos é apagar a sua individualidade trazendo-a um pouco mais perto da norma, pelo fato de que as pessoas ao redor a olham e se incomodam. Mas qual é o direito que se tem de intervir sobre um comportamento específico para mudá-lo simplesmente porque a sociedade acha estranho? É a criança que precisa ser medicada e educada para afundar-se na norma ou é a sociedade que precisa aprender a aceitar a diferença? 

O que está sendo criticado aqui não é o fato de que haja qualquer tipo de regra social. A convivência social e a lógica dos ajuntamentos dependem delas. O problema é o grau de padronização e o nível e natureza da punição. É como se tivéssemos diminuído demais o leque de possibilidades de interação, sociabilidade e comportamento. Em termos gráficos, teríamos a extensão das possibilidades de comportamento da seguinte maneira: 

Sociedade X:

Nossa sociedade: 

 

À exceção das questões de inclusão racial (cotas, representatividade etc.) e de sexualidade (relativa aceitação de sexualidades não heteronormativas), que têm aberto as possibilidades, os nossos parâmetros de aceitação da diferença têm diminuído vertiginosamente, o que explica a multiplicação de “síndromes”, “espectros” e novos diagnósticos que tentam convencer que a psiquiatria é a solução para os problemas sociais, sem que tenhamos que enfrentar o fato de que a nossa compreensão daquilo que é diferente diminuiu. E, aparentemente, todo mundo se convenceu de que se trata realmente de uma questão fisiológica das pessoas, especialmente do cérebro. Quando se fala de problemas de aprendizado, a explicação passa por neurônios e a solução por fármacos. Quando uma criança questiona demais a autoridade, é outra síndrome a ser medicada, ao invés de se entender que as autoridades atuais, pelo contexto social, talvez estejam carecendo de legitimidade. Se a criança tem tiques, é melhor era ir para a terapia e ser medicada para não ser motivo de chacota. Sendo que a chacota é o resultado da convivência entre iguais (muito iguais), o que gera o efeito cômico quando se esbarra com a diferença. Trata-se, portanto, do exato oposto do que a psiquiatrização tem defendido: não igualar o diferente para que ele possa conviver com outros extremamente iguais e intolerantes, mas da compreensão de que os que estão dentro do que é considerado normal não deveriam deter o privilégio de excluir. 

Como já disse, não se trata de acabar com acordos de convivência, mas de tentar entender as nossas exclusões de maneira mais franca, ou seja, que estamos tornando “doentes” ou colocando rótulos não para ajudar, mas para moldar melhor e integralmente. 

Gostaria de ir mais além e trazer à tona algo considerado quase criminoso na nossa sociedade: a baba. Se comportamentos como tiques são indesejados, as excreções são integralmente intoleradas. Pelo fato de que os hábitos alimentares foram os mais regulados no decorrer dos últimos quatro séculos (quais talheres à mesa, como pegá-los, como mastigar, como se comportar; não arrotar, não babar), qualquer infração nesse campo é vigorosamente reprimida pelo fato de ser vista com nojo. Dia desses, vi um homem em uma rua festiva com olhar distante e babando da boca ao chão. Sim, a imagem do típico infrator que, pensa-se, merece a reclusão. Às vezes, ele estava apenas olhando; outras, tentava interagir, aproximando-se das pessoas e babando. Como a leitora e leitor podem imaginar, a resposta dada foi a única considerada possível hoje: retirá-lo dali. E a festa daquelas pessoas pôde seguir adiante porque estavam livres do olhar incompreensível e do asco de supor que a baba pudesse entrar em contato com o corpo delas. 

A utopia radical que eu gostaria de sugerir aqui é que, ainda que gere incômodo e nojo, pudéssemos lembrar que se tratava de uma pessoa com uma história, experiência, sentimentos, problemas e virtudes. Chutá-lo do ambiente social é o mais fácil, mas é também o mais hipócrita e atroz. Como mencionado, baba é considerado um insulto para nós e aquela parecia ser a única solução aparentemente aceitável. Gostaria de cogitar um outro cenário – que, de um lado, ainda não é o do respeito total à sua individualidade e, por outro, nem é cogitado por nós pela certeza que temos de que aquela individualidade precisa ser eliminada do campo de visão –, uma outra solução não poderia ser dar-lhe uma toalha para secar-se, para que pudesse permanecer no festejo dos “normais” e que desfrutasse, da sua maneira incompreensível, as luzes, a música e as danças? Teoricamente falando, isso seria diminuir um pouco a sua infração social. Mas a sua inclusão é impensável para nós, que celebramos o pacto da compreensão recíproca da nossa racionalidade e, por isso, teríamos esse direito que ele não tem. 

 

Rafael Mantovani é professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor do livro Modernizar a ordem em nome da saúde: a São Paulo de militares, pobres e escravos (1805-1840) (Fiocruz). É coordenador do Pindorama – Núcleo de Estudos sobre Pensamento Social e Político Brasileiro da UFSC.