Porque o Auxílio Brasil turbinado não vai eleger Bolsonaro

As duas lógicas políticas em disputa nas eleições

Porque o Auxílio Brasil turbinado não vai eleger Bolsonaro

por Josué Medeiros
6 de setembro de 2022
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Os beneficiários do Auxílio Brasil já receberam uma parcela do benefício turbinado e estão às vésperas de receber o segundo. E, até o momento, não verificamos os efeitos eleitorais favoráveis a Bolsonaro

Há exatas quatro semanas das eleições presidenciais, o cenário é de estabilidade. Lula mantém a dianteira, sempre no patamar de 45% dos votos. Bolsonaro segue em segundo, com cerca de 30% das intenções. Ciro Gomes e Simone Tebet oscilam como consequência do desempenho em debates e sabatinas, mas sem condições de alterar o quadro. 

 

Quadro 1: Pesquisas Eleitorais – Agosto/Setembro de 2022 

IPEC – 15/08 IPEC – 29/08 IPEC – 05/09 QUAEST – 17/08 QUAEST – 31/08 DataFolha – 18/08 DataFolha – 01/09
Lula 44% 44% 44% 45% 44%  47% 45%
Bolsonaro  32% 32% 31% 33% 32% 32% 32%
Ciro  6% 7% 8% 6% 8% 7% 9%
Tebet 2% 3% 4% 3%  3% 2% 5% 

Fonte: elaboração própria 

 

Sem nenhum fato novo relevante (como foi, por exemplo, o atentado sofrido por Bolsonaro em 2018), as intenções de voto seguirão estáveis até a última semana, com a manutenção do cenário atual. O fato novo tentado por Bolsonaro até agora não funcionou: o aumento do benefício e do número de beneficiários do Auxílio Brasil há dois meses das eleições. Esse aporte financeiro não se converteu em aumento das intenções de voto do atual presidente e este texto é uma tentativa de explicar o porquê. 

Nossa hipótese é que a estabilidade na disputa presidencial deriva de duas lógicas políticas distintas que organizam as campanhas de Lula e de Bolsonaro. O atual presidente segue priorizando um discurso voltado quase exclusivamente para seus apoiadores mais fiéis, que não o abandonaram nem em seus piores momentos de popularidade. Já o ex-presidente privilegia ações e falas de ampliação para além do seu eleitorado cativo, em um tipo de estratégia que presidiu as eleições presidenciais brasileiras desde 1994. 

A estratégia de Lula é muito mais coesa do que a de Bolsonaro. O atual presidente se divide em aderir à lógica tradicional, baseada no auxílio Brasil, ou manter sua forma de fazer política que o levou à vitória em 2018. Já foi assim em sua prática de governo e, de fato, há uma ligação estrutural entre estratégia eleitoral e forma de governar. 

 

A lógica política de Bolsonaro

A lógica política do bolsonarismo é totalmente ancorada no sentimento antissistema e antipolítica que cresceu na sociedade brasileira de 2015, resultado de duas dinâmicas paralelas. Por um lado, o uso político da pauta do combate à corrupção, pela mídia e pelo judiciário, com a operação Lava jato. Por outro lado, a recessão econômica provocada em parte por medidas do governo Dilma e em parte pela sabotagem institucional comandada por Eduardo Cunha, Michel Temer e Aécio Neves. 

As elites políticas, empresariais e jurídicas esperavam que o desfecho desse processo fosse um retorno da direita tradicional ao poder pelas urnas em 2018. Contudo, o bolsonarismo emergiu como alternativa por duas razões, uma conjuntural e outra mais estrutural. A razão conjuntural foi a completa desmoralização da direita tradicional com o governo Temer, que já começou sem legitimidade pelo impeachment/golpe e que terminou afundado em mais corrupção e crise econômica. Já a razão estrutural é o papel da violência na formação histórica brasileira. Bolsonaro representa o retorno de um tipo de conflito que jamais foi resolvido em nossa sociedade, mas que a democracia e a constituição de 1988 ao menos apontavam para superar. A intervenção militar no Rio de Janeiro e o brutal assassinato de Marielle Franco, em 2018, são expressão dessa dimensão. 

Bolsonaro se elegeu sem um programa de governo, sem propostas concretas e com base na mobilização do sentimento contra tudo e contra todos. Funcionou na eleição de 2018, mas com um detalhe: ele não teve que enfrentar o ex-presidente Lula, que foi preso injustamente e impedido de concorrer, no movimento final da Operação Lava Jato, para assumir o comando da política brasileira. 

(Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
A lógica política de Lula

A eleição de Bolsonaro quebrou a lógica de todas as eleições presidenciais desde 1994, ou seja, desde que o atual sistema partidário se estabilizou na polarização entre PSDB e PT. Daquele pleito até 2014, quem estava no governo buscava apresentar uma narrativa que dialogasse com a totalidade da população e que estivesse ancorada em uma política pública que pudesse ser identificada de modo simples e imediato com o governo. Quem estava na oposição operava em lógica similar: era preciso questionar a política pública governamental e apresentar uma alternativa que também dialogasse com o conjunto da população. 

Em 1994 e 1998 Fernando Henrique se valeu da estabilidade econômica conquistada com o Plano Real para vencer as eleições. Lula questionou a consistência dessa estabilidade, pautando a necessidade de priorizar o combate às desigualdades. Quando, em 1999, o Fernando Henrique perdeu o controle da economia, Lula então organizou sua narrativa com base na incorporação da estabilidade econômica (esvaziando o discurso do PSDB) e, ao mesmo tempo, se diferenciando dos tucanos ao priorizar a geração de empregos e o combate à fome e à miséria, temas que dialogavam com toda a sociedade. Essa estratégia não somente venceu as eleições de 2002 e 2006 como orientou uma prática de governo que possibilitou a Dilma Rousseff se apresentar como continuadora de Lula nas eleições de 2010 e 2014. 

Agora, Lula recupera essa estratégia a partir da memória do seu governo, cujos resultados práticos econômicos foram excelentes, independente dos diagnósticos acadêmicos. Lula vem sendo criticado por não falar de futuro, mas pela lógica das eleições presidenciais isso não necessariamente é um problema. Na prática, o que temos em 2022 é um plebiscito entre duas lógicas de fazer política e duas lógicas de governar. 

 

A disputa dessas duas lógicas em 2022

Em 14 de julho de 2022 foi promulgada a PEC que aumentou o valor do Auxílio Brasil (programa de transferência de renda do governo Bolsonaro). Trata-se de uma Emenda Constitucional aprovada em 87 dias, uma das dez aprovações mais rápidas da história.

Esse tipo de aumento é vedado em ano eleitoral. Para contornar essa proibição, Bolsonaro aprovou um Estado de Emergência, o que justificaria novos aportes para os mais pobres. Por trás dessa manobra constitucional, há uma nítida estratégia eleitoral comandada pelos partidos políticos tradicionais de direita que estão aliados à Bolsonaro nessas eleições, qual seja, a de focar nas entregas econômicas do governo como único caminho que pode mudar o resultado eleitoral. E essa estratégia é oposta à lógica política do bolsonarismo e muito mais próxima da lógica política de Lula e do sistema político brasileiro. 

Os beneficiários do Auxílio Brasil já receberam uma parcela do benefício turbinado e estão às vésperas de receber o segundo. E, até o momento, não verificamos os efeitos eleitorais favoráveis a Bolsonaro. De acordo com os dois levantamentos feitos pelo Datafolha, já com o novo valor do Auxílio Brasil, Lula obtém 56% das preferências entre os beneficiários contra 28% de Bolsonaro. Já o IPEC de 05 de setembro apresenta um recorte de renda e não de quem recebe o benefício, mas que mostra uma situação similar: entre os que recebem até um salário mínimo, Lula cresceu dois pontos em relação ao levantamento anterior de 28 de agosto e agora tem 56% contra 21% de Bolsonaro, que perdeu um ponto. 

Em parte isso se explica pela própria economia, uma vez que a inflação alta dos alimentos segue corroendo o valor do benefício. Mas a principal razão é política: Bolsonaro é o maior sabotador da estratégia elaborada pelo “Centrão”. O centro do seu discurso e das ações dos seus apoiadores é o ataque às instituições e à democracia em geral, com foco nas urnas eletrônicas, no STF e na mídia, em especial em jornalistas mulheres. O possível impacto positivo do Auxílio Brasil se perde em uma profusão de ofensas e uma insistente mobilização golpista, o que será reforçado nos dias que antecedem ao feriado de 07 de setembro. Não é por acaso, inclusive, que candidatos aos governos estaduais da direita procuram se desvencilhar de Bolsonaro, mesmo quando estão no mesmo partido do presidente. Cláudio Castro (PL), no Rio de Janeiro, Romeu Zema (Novo) em Minas Gerais, ou ACM Neto (UB), na Bahia, focam suas campanhas na lógica da realização de governos e em narrativas amplas e se recusam a reproduzir a lógica bolsonarista de radicalizar. 

Em suma, ao não priorizar o tema da economia e da transferência de renda e ao seguir falando para os seus apoiadores e não para o conjunto da sociedade, Bolsonaro reforça entre os beneficiários o sentimento de que o aumento do Auxílio Brasil é um ato eleitoreiro, sem garantia de continuidade e estabilidade. Com Lula, é o oposto: há uma relação positiva entre votos e o Bolsa Família porque ele operou na lógica política de governar para toda a sociedade e de apresentar na eleição uma narrativa capaz de convencer a maioria. O Bolsa Família começou em 2004 e levou dois anos para ser testado e começar a dar resultados concretos, permitindo que a narrativa eleitoral se apropriasse do sucesso da política pública.  

O desfecho dessa disputa será no primeiro turno?

A grande aposta da campanha de Lula é resolver o pleito em 02 de outubro. A vitória no 1º turno é fundamental para a mobilização em defesa da democracia. Já Bolsonaro joga todas as suas fichas em levar a disputa para o 2º turno, pois nesse caso terá mais três semanas para ampliar sua mobilização golpista. Sem nenhum fato novo, somente na reta final – na última semana e mesmo nos últimos dias – é que veremos movimentos mais significativos do eleitorado seja pela do voto útil de Lula ou pela operação bolsonarista de despertar o antipetismo e o terrorismo contra as esquerdas. Combinadas, essas duas estratégias podem esvaziar definitivamente as candidaturas da terceira via e resolver a eleição no 1º turno. 

Josué Medeiros é  cientista político e professor da UFRJ e PPGCS – UFRRJ. 

Este artigo faz parte da quinta edição do boletim do Monitoramento Eleitoral 2022 do Observatório Político e Eleitoral. Leia todos os artigos clicando aqui.


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