Possuir ou partilhar - Le Monde Diplomatique

UMA PILHA DE OBJETOS OCIOSOS

Possuir ou partilhar

por Martin Denoun e Geoffroy Valadon
2 de outubro de 2013
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E se o uso não fosse mais necessariamente sinônimo de propriedade? Preocupadas em acabar com o hiperconsumismo e confrontadas com um poder de compra em queda, diversas pessoas se organizam para dividir e trocar. Um movimento em plena expansão que os grupos privados desviaram para aumentar o círculo… de consumidoresMartin Denoun e Geoffroy Valadon

Na casa de cada um de nós existem ao mesmo tempo um problema ecológico e um potencial econômico. Temos em nosso lar muitos bens que não utilizamos: a furadeira que dorme dentro de um armário e só será útil, em média, por treze minutos em sua vida, os DVDs que foram vistos uma ou duas vezes e se acumulam, a máquina fotográfica que capta mais pó do que luz, mas também um carro que só usamos sozinhos menos de uma hora por dia, ou o apartamento que fica vazio por todo o verão. A lista é longa. E representa uma quantidade impressionante tanto de dinheiro quanto de lixo futuro.” Tal é, grosso modo, a chamada principal dos teóricos do consumo colaborativo. Pois, acena com um grande sorriso Rachel Botsman,1 uma das chefes da fila, “precisamos do buraco, não da furadeira! Do filme, não de um DVD, de transporte, não de um carro”.

Jeremy Rifkin foi quem diagnosticou essa transição de uma era da propriedade para uma “era do acesso”,2 na qual a dimensão simbólica dos objetos diminui à medida que aumenta sua dimensão funcional: enquanto um carro era outrora um elemento de statussocial que justificava sua compra para além de sua utilidade, os consumidores passaram agora a alugar seu veículo.

Hoje, é o próprio carro ou a própria casa que os jovens propõem para locação. Se desse modo provocam o desespero de muitos industriais da automobilística ou da hotelaria, outros veem nisso um desapego com relação aos objetos de consumo que traz esperanças. As plataformas de troca permitem um melhor emprego dos recursos, atomizam a oferta, eliminam os intermediários e facilitam a reciclagem. Assim, elas destroem os monopólios, fazem baixar os preços e trazem novos recursos aos consumidores. Estes seriam, assim, levados a comprar bens de qualidade, mais duráveis, incitando os industriais a renunciar à obsolescência programada. Seduzidos pelos preços baixos e pela comodidade dessas relações par a par (P2P), eles contribuiriam com a redução dos dejetos. A imprensa internacional, do Times ao Le Monde, passando pela The Economist, deu “capa” sobre essa “revolução no consumo”.

Um truque de astúcia

Os partidários do consumo colaborativo são frequentemente pessoas que se decepcionaram com o “desenvolvimento sustentável”. Mas, ainda que critiquem sua superficialidade, é raro que façam uma crítica aprofundada. Dizendo-se, sobretudo, seguidores de Rifkin, nunca evocam a ecologia política. Citam Gandhi com boa vontade: “Há recursos suficientes neste planeta para suprir as necessidades de todos, mas não haverá nunca o bastante para satisfazer os desejos de posse de alguns”.3 Isso não os impede de manifestar uma forma de desprezo em relação aos partidários da diminuição e dos militantes em geral, vistos como utopistas marginais e “politizados”.

“Foi em 2008 que atingimos o limite. Juntos, a mãe natureza e o mercado disseram ‘stop!’. Sabemos bem que uma economia baseada no hiperconsumo é uma pirâmide de Ponzi,4 um castelo de cartas”, argumentava Rachel durante a conferência Technology, Entertainment and Design (TED).5 Segundo ela, a crise, obrigando as pessoas a se virar, teria gerado um aumento de criatividade e confiança mútuas que provocou a explosão desse fenômeno do consumo colaborativo.6

Cada vez mais sites na internet propõem trocar ou alugar bens “adormecidos” e caros: lava-roupas, roupas de marca, objetos high-tech, equipamentos de acampamento, mas também meios de transporte (carro, bicicleta, barco) ou espaços físicos (depósitos, vagas na garagem, quartos etc.). Esse fenômeno atinge até a poupança: melhor do que deixar o dinheiro dormindo na conta, particulares realizam empréstimos evitando os bancos.7

Na área dos transportes, o carpooling consiste em dividir o custo de um trajeto; uma espécie de carona organizada e contributiva, que permite, por exemplo, viajar de Lyon a Paris por 30 euros, em vez de 60 euros de trem, e ainda conhecer pessoas durante o trajeto. Diversos sites surgiram na França nos anos 2000 para propor esse serviço. Depois aconteceu a evolução típica dos start-ups da web: eles lutam para se impor como o padrão incontornável gratuito e, uma vez que conseguiram obter essa posição, impõem aos utilizadores uma cobrança por meio do site, “para maior segurança”, tirando uma comissão de 12%. Enquanto o número um francês, o Covoiturage.fr, se tornou BlablaCar a fim de se lançar na conquista do mercado europeu, e seu equivalente alemão, Carpooling, chegou à França, caronistas irritados pela mudança mercantil do site francês lançaram a plataforma associativa e gratuita Covoiturage-libre.fr.

A partilha de automóveis também é um avanço cultural e ecológico. Plataformas como Drivy permitem a locação de carros entre particulares. No entanto, os agentes dominantes do mercado são na verdade as locadoras flexibilizadas (locação por minuto e self-service) que possuem sua própria frota de milhares de veículos. A redução anunciada do número de veículos é, então, completamente relativa. Mesmo a frota dos Autolib, colocada em ação pela prefeitura de Paris com o grupo Bolloré no mesmo modelo do Vélib [Vélib é um sistema de empréstimo de bicicletas mediante um valor simbólico, da prefeitura de Paris; Autolib segue seu modelo, emprestando pequenos carros elétricos – N.T.], substitui o transporte coletivo mais do que permite a diminuição dos carros.8

No que se refere à moradia, a internet também favoreceu o aumento das trocas entre particulares. Diversos sites9 permitem contatar uma multidão de anfitriões dispostos a recebê-lo gratuitamente em casa por algumas noites, e isso em quase todos os países. Mas o fenômeno do momento é o bed & breakfast informal e citadino e seu líder incontestável, o AirBnb. Essa start-up propõe aos interessados passar a noite na casa de atenienses ou marselheses que vão preparar um generoso café da manhã “opcional” por um preço menor do que o de um hotel. Um quarto desocupado em casa ou seu apartamento vazio quando você sai de férias podem assim se tornar uma fonte de renda. Em uma palavra: “AirBnb: travel like human” – “Com AirBnb você viaja como um ser humano”. Na imprensa econômica, no entanto, a start-up mostra outra face. Ela se orgulhava de cobrar mais que 10% da soma paga pelos hóspedes e de ver seu valor de negócios de US$ 180 milhões em 2012 crescer tão rapidamente quanto sua capitalização na bolsa, de cerca de US$ 2 bilhões.

“A riqueza reside muito mais no uso do que na posse – Aristóteles”, clamava a empresa de partilha de veículos City Car Club. Mas, olhando mais de perto, o desapego com relação à posse diagnosticado por Rifkin não parece implicar uma relação com o consumo: o sonho de outrora de possuir uma Ferrari hoje é simplesmente o de dirigir uma. E, se as vendas diminuem, as locações aumentam. Essa “era do acesso” é na verdade uma mudança na forma de consumo ligada a uma mudança logística: a colocação em circulação de bens e competências de cada um por meio de interfaces desenvolvidas da web. Longe de se assustar, as empresas veem nessa fluidificação todo um potencial de novas transações, das quais elas serão os intermediários remunerados.

Por um lado, isso permite ampliar a base de consumidores: os que não tinham meios para comprar um objeto caro podem alugá-lo de seus pares. Por outro lado, a mercantilização se estende para a esfera doméstica e para os serviços entre particulares: um quarto de hóspedes ou o assento do passageiro de um carro podem ser oferecidos para locação, assim como uma ajuda no encanamento ou em inglês. Pode-se, inclusive, antecipar a mesma repercussão que na área energética, na qual as reduções de despesas consequentes do progresso técnico levaram ao aumento do consumo:10 o lucro que uma pessoa consegue pela locação de seu videoprojetor vai incitá-la a consumir ainda mais.

No entanto, existem muitas novas práticas que vão na contracorrente do consumismo. Elas são muito diferentes: os couchsurfers(literalmente “surfistas de sofá”) recebem gratuitamente desconhecidos para dormir em casa ou se beneficiam de sua hospitalidade. Os utilizadores do Recupe.net ou do Freecycle.org doam objetos que não utilizam mais, em vez de jogar fora. Nos sistemas de troca locais (SEL), os membros oferecem suas competências sobre uma base igualitária: uma hora de jardinagem vale uma hora de serviços de encanador ou de web design. Nas Associações pela Manutenção de uma Agricultura Camponesa (Amap), cada um se compromete a fazer suas compras durante um ano do mesmo agricultor local, com quem pode desenvolver relações, e participa gratuitamente das distribuições semanais de legumes. Esse compromisso relativamente obrigatório traduz uma iniciativa que ultrapassa a simples consomm’action(jogo de palavras com a palavra “consumo” em francês – N.T.), consistindo em “votar com a carteira”.

Qual é o ponto em comum entre esses projetos associativos e as start-upsde distribuição C2C – consumer to consumer, “de consumidor a consumidor”? Comparemos os couchsurferse os hospedeiros do AirBnb: para os primeiros, o essencial reside na relação com a pessoa encontrada, e o conforto é secundário, enquanto para os segundos é o contrário. Os critérios de suas avaliações respectivas são, então, sensivelmente diferentes: o que prima no AirBnb, para além do preço, é a limpeza do local e a proximidade com o centro turístico, enquanto no Couchsurfing.org, para além da gratuidade, são os momentos partilhados com o hospedeiro. Da mesma forma, plataformas como a Taskrabbit.com propõem também a troca de serviços entre particulares pagantes, enquanto os SEL repousam na troca gratuita.

Se, em seus artigos destinados ao grande público, os promotores do consumo colaborativo citam frequentemente as iniciativas associativas para se vangloriar do aspecto “social” e “ecológico” dessa “revolução”, estas desaparecem para dar lugar às start-upsquando se expressam na imprensa econômica. Não apenas porque as trocas com fins não lucrativos são mais dificilmente monetarizáveis, mas também porque não são “massificáveis”. Na verdade, só podemos reunir as duas iniciativas sob a etiqueta de “economia da partilha” se focalizarmos a forma dessas relações, desprezando as lógicas muito diferentes que as alimentam. Esse amálgama, que culmina no truque de mágica que consiste em traduzir to share(compartilhar) por “alugar”, é amplamente encorajado por aqueles que buscam lucrar com esse fenômeno. Por um subterfúgio que se aproxima do greenwashing, projetos como os Amap vêm servir de caução a essas indústrias. Aqueles que fazem eco diminuindo os valores sociais subjacentes a esses projetos participam assim de uma espécie de collaborative-washing. As pessoas que oferecem seu teto, sua mesa ou seu tempo a desconhecidos se caracterizam geralmente por valores de partilha, igualdade e ecologia; o que os aproxima mais das cooperativas de consumo e de produção do que das plataformas de troca C2C.

Essa dualidade recorta muitas outras: a que separa o “desenvolvimento sustentável” da ecologia política, ou ainda o movimento do software open source – que promove a colaboração de todos para melhorar os programas de computador – e o do software livre – que promove as liberdades dos utilizadores numa perspectiva política. Em cada uma dessas áreas, poderíamos ouvir a famosa distinção operada por Richard Stallman, um dos pais do software livre: “O primeiro é uma metodologia de desenvolvimento; o segundo é um movimento social”.11

Martin Denoun e Geoffroy Valadon são autores de Ju-jitsu politique, l’art du levier (Política do jiu-jitsu, a arte da alavanca). Integrantes do coletivo La Rotative (www.larotative.org).



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