DESIGUALDADE DE GÊNERO

Precisamos fortalecer o “eu feminino” no audiovisual brasileiro

Se as mulheres já partem de um lugar desigual, como o mercado pode ajudar a diminuir essa distância em vez de simplesmente reproduzi-la?

Há uma estatística que carrego comigo desde meados dos anos 2000, quando cursei a faculdade de Artes Cênicas na ECA-USP. Naquele momento, em que estava me apaixonando pela atuação no cinema, li um estudo de pesquisadoras do IBGE/ENCE que afirmava que apenas 13,8% dos filmes brasileiros eram protagonizados por mulheres. Hoje as pesquisas mostram que esse número aumentou substancialmente, embora os espaços de direção e roteiro ainda sejam sub-representados. Isso me perturba de um jeito particular, porque acompanho com fascínio genuíno a maneira como as mulheres dão forma à própria criação, com uma verdade que atravessa tudo o que produzem. Ainda assim, seguimos sendo coadjuvantes em grande parte das histórias – tanto na frente quanto atrás das câmeras. 

Evito, propositalmente, a palavra “empoderamento” neste texto. De tão repetida em festivais e debates públicos, ela parece ter perdido parte de sua força. Prefiro pensar em fortalecimento e valorização: palavras que, para mim, dizem respeito a algo menos simbólico e mais concreto. Dizem respeito à possibilidade de mulheres não apenas ocuparem espaços, mas permanecerem neles, serem reconhecidas por seu trabalho e participarem das decisões que determinam o que será contado e por quem. Quem escreve, quem dirige, quem produz, quem financia, quem distribui. 

Fui somente atriz antes de ser atriz e roteirista, e foi a escassez de personagens tridimensionais que me levou à escrita. Eu não queria mais depender de convites externos para viver mulheres que, muitas vezes, não passavam de escadas para as tramas dos homens. E também sabia que, por haver tão poucos papéis femininos de destaque, seria eventualmente um golpe de sorte me encaixar no perfil almejado pela direção de um projeto. Escrever, nesse sentido, não nasceu de uma vocação abstrata, mas de uma necessidade concreta: eu queria criar mulheres que não estavam chegando até mim. 

Uma questão à qual sempre volto é o conjunto de circunstâncias que envolve o ofício de intérprete. A excelência artística nem sempre é reconhecida ou recompensada e, hoje, o número de seguidores nas redes sociais muitas vezes parece importar mais do que a experiência, o domínio da profissão ou a voz artística de uma pessoa. Essa preocupação se tornou ainda mais urgente com o rápido desenvolvimento da inteligência artificial e sua crescente capacidade de gerar performances convincentes e personagens ficcionais. Estamos vivendo um momento em que é difícil imaginar como será essa profissão daqui a dez ou vinte anos. O que será considerado talento? O que ainda significará interpretar? E, sobretudo, que lugar haverá para aquilo que não pode ser medido em números? 

Talvez essas perguntas façam parte, ainda, da discussão sobre a presença das mulheres no audiovisual, porque, se a autoria já nos foi historicamente negada por critérios de mercado e de reconhecimento, corremos o risco de vê-la esvaziada agora por um critério ainda mais impessoal. 

Uma escolha que faço conscientemente, desde sempre, é resistir ao arquétipo da personagem-guerreira. Nunca me interessei pelas heroínas de galáxias. Prefiro as humanas, as inapropriadas, as incompreendidas. Mulheres que não confirmam, mas desestabilizam expectativas. 

Essa escolha também diz respeito à maneira como compreendo a representação feminina. Há uma forma de fortalecimento que pode se tornar, paradoxalmente, outra espécie de exigência: a personagem precisa ser forte, determinada, capaz de superar todos os obstáculos. Sua trajetória deve ser compreensível e sua superação, satisfatória. Não é esse tipo de mulher que me interessa necessariamente. 

Interessa-me a mulher que erra, que se contradiz, que deseja coisas diferentes ao longo da vida; aquela que pode ocupar simultaneamente lugares de força e fragilidade. A mãe insegura que também procura reconhecer o próprio valor. A que não sabe exatamente o que quer. A que não corresponde àquilo que esperávamos dela. 

A valorização genuína, a meu ver, está também na possibilidade de permitir essa complexidade. Não significa apenas multiplicar personagens femininas fortes, mas ampliar aquilo que uma mulher pode ser dentro de uma narrativa. Significa estar em consonância com a fricção da vida, que raramente cabe em personagens exemplares. 

Crédito: Netum Lima/Universo Produçao

Mas nenhuma cinematografia se fortalece apenas com boas histórias. É preciso que elas encontrem condições para existir, circular e permanecer. E, quando falamos especificamente da presença das mulheres, talvez seja preciso ir além da ideia de que basta oferecer as mesmas oportunidades. O mercado audiovisual ainda é fortemente organizado a partir de redes de trabalho e relações de confiança historicamente construídas entre homens. Isso se reflete não apenas em quem dirige ou escreve, mas também em quem é convidado a formar uma equipe, ocupar uma posição de liderança, receber uma indicação, ter seu próximo projeto financiado. 

A igualdade de oportunidades, portanto, não pode significar apenas abrir a mesma porta para todos. Se alguns grupos chegaram a essas porta décadas depois, ou encontram mais obstáculos para permanecer do outro lado, é preciso reconhecer essa diferença. Talvez por isso mecanismos de correção, que estão timidamente ganhando espaço em editais públicos, ainda precisem ser ampliados: não como solução definitiva, mas como uma maneira de alterar uma lógica que o mercado, sozinho, não parece ter conseguido transformar. 

Há ainda uma questão que me parece pouco discutida: o tempo. Mulheres frequentemente atravessam períodos da vida em que a maternidade, por exemplo, reduz ainda mais sua disponibilidade para um mercado que já oferece menos espaço para elas. E o modo como o trabalho audiovisual é organizado nem sempre leva em conta as diferentes realidades de quem trabalha nele. Uma carreira construída sobre disponibilidade absoluta, viagens constantes, jornadas extensas e a expectativa de estar sempre pronto para o próximo projeto produz efeitos muito diferentes sobre homens e mulheres. 

Se já partimos de um lugar desigual, como o mercado pode ajudar a diminuir essa distância em vez de simplesmente reproduzi-la? Talvez seja preciso criar condições para que uma mulher não perca o lugar que levou anos para conquistar porque precisou se ausentar por um período. Para que possa voltar. Para que possa continuar sendo lembrada. Para que a maternidade não signifique, ainda que silenciosamente, o fim de uma trajetória profissional. 

Meu próprio percurso é um exemplo disso. Foram 14 anos entre as versões iniciais do meu primeiro roteiro de longa-metragem e sua estreia em festivais, que acontecerá em 2026. No meio disso, uma maternidade atípica. Tive a sorte de encontrar pessoas talentosas que acreditaram no projeto e permaneceram ao meu lado durante esse percurso. Mas não deveria ser necessário contar com uma combinação tão extraordinária de persistência, circunstância e sorte para que uma mulher mãe consiga realizar aquilo que escreveu. 

Talvez seja esse, para mim, o sentido mais profundo do fortalecimento feminino no audiovisual: criar um terreno fértil e seguro para que a gente possa fincar raízes. Escrever os próprios papéis, criar personagens tridimensionais, ocupar espaços de decisão e construir uma trajetória de autoria. Não apenas chegar, mas poder permanecer. 

 

Fernanda Chicolet é atriz e roteirista formada em Artes Cênicas pela ECA-USP e pelo Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho, Fernanda Chicolet construiu uma trajetória marcada pela atuação no cinema, teatro e audiovisual. Seus trabalhos já receberam mais de cinquenta prêmios em festivais nacionais e internacionais, incluindo vinte reconhecimentos de melhor roteiro e melhor atuação. Como atriz, integrou produções como O Livro dos Prazeres, Raia 4, Homem Onça, além das séries As Five, da rede Globo, e Notícias Populares, do Canal Brasil. Também desenvolve projetos de roteiro em importantes laboratórios brasileiros e latino-americanos, atua como curadora em iniciativas do setor audiovisual e está para lançar Talismã, com direção de Thais Fujinaga, produção da Vulcana Cinema, Syndrome Filmes e Vitrine Filmes e um projeto em que Fernanda criou a ideia original e é protagonista e corroteirista junto de Thais. O filme propõe uma reflexão sobre maternidade, indústria do entretenimento e os caminhos do reconhecimento artístico, e tem sua estreia confirmada na Premiere Brasil do Festival do Rio, em outubro de 2026.

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