Pró-colabore! - Le Monde Diplomatique

SOCIEDADE EM REDE

Pró-colabore!

por Hernani Dimantas
3 de fevereiro de 2009
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O crescimento da rede é rizomático, distribuído e veloz. Não é organizado. Mas quem disse que seria organizado? O conhecimento é recombinante. Um dispositivo que se dá no remix. Tudo se transforma, nada se cria. A recombinação se dá na colaboraçãoHernani Dimantas

O que é colaboração? Essa é uma pergunta que fica sem resposta. Vou tentar discorrer sobre sem tocar na definição. Falar do que nos move. Não daquilo que é. Da relação entre as pessoas e não da coisa em si. Participamos da vida social. A colaboração como princípio de sobrevivência, como essência inerente do próprio ser humano. Um ser gregário, social, incapaz de viver sozinho. Daí a impossibilidade de se dissociar colaboração e interação das pessoas, de grupos, em torno de algo comum.

Colaboração não tem um significado estanque, pois acontece na ação. Pressupõe generosidade, que é limitada, parcial. Inconstante que é, supera diversidades, une e aproxima os diferentes. É fraterna, levando as ações a acontecerem não obrigatoriamente quando há necessidade. É uma lógica que não se mantém no cotidiano. Apresenta uma dinâmica caótica da relação do ser em comunidade.

Do ponto de vista de uma sociedade em rede, a produção cultural está sendo catalisada pela colaboração. Pessoas têm muito mais possibilidades de experimentação e realização de projetos. O próprio conceito do software livre corrobora com a idéia da colaboração. Foi no início dos anos 90, que Linus Torvalds, influenciado pelas idéias de Stallman, disponibilizou os códigos na rede. Essa história tornou-se conhecida. O Linux explodiu na rede da moçada e extrapolou limites geográficos. Milhares de programadores colaboram frequentemente com o software. Outros muitos milhares cooperam com outras comunidades.

Colaboração aponta para uma teoria social que contenha o princípio da continuidade

Da mesma forma que buscamos um modelo de desenvolvimento de software, alavancamos os aspectos de colaboração, de liberdade, de apropriação e replicação para a área do conhecimento. Surge, assim, uma comunidade de pessoas em rede que comungam por uma ética e uma cultura próprias, baseadas no compartilhamento do conhecimento e na ausência de hierarquias – verticalização dos processos. Essa comunidade clama por liberdade, por meio das iniciativas de produção de conhecimento em rede. Aliás, a sacada do Linus foi usar a internet para compartilhar o desenvolvimento de uma idéia. Não é à toa que o Linux aconteceu na mesma época da Internet. Emerge um modelo de produção colaborativa em rede.

A rede é catalisada pela internet. É assíncrona; o tempo não pára. O tempo flui numa complexidade caótica. O caos assusta também. Porque nos faz pensar, deixando-nos fragilizados frente à falta de controle que temos ou não das ’coisas’. Esse tempo assíncrono é uma ruptura. Assim como o ser que se redescobre esquizofrênico; assim como o espaço informacional que desconhece barreiras de ir e vir; assim como o conhecimento que se dobra, e liberta-se. O crescimento dessa rede é rizomático, distribuído e veloz. Não é organizado. Mas quem disse que seria organizado? O conhecimento é recombinante. Um dispositivo que se dá no remix. Tudo se transforma, nada se cria. A recombinação se dá na colaboração. Isso é a cultura hacker, né? Como usar o dispositivo para outras áreas do conhecimento?

Um dispositivo que dá visibilidade da articulação em rede para a transformação social. De certa forma, com a cultura hacker a produção tende ao infinitesimal (in)finito. O inteiro que contempla toda a multiplicidade. Colaboração aponta para uma teoria social que contenha o princípio da continuidade. A continuidade da ação comum. Um processo recursivo onde duas ou mais pessoas ou organização trabalhem juntas para uma interação de objetivos comuns.

Mais:

Hernani Dimantas assina, no Caderno Brasil, a coluna Sociedade em Rede. Edições anteriores:

O dia que a terra parou
Na web, o contato torna-se de terceiro grau – digitalizado. Em múltiplas plataformas, em diversos platôs, com os estranhos ou não, ele é algo do cotidiano. A ameaça torna-se imanente. De dentro para dentro. Klaatu não é mais um alienígena. É parte do imaginário coletivo. Klaatu não nos deixa mais parar!

Techies e gambiarras
Sob o ponto de vista das redes, o foco não está nas máquinas: a revolução parte das pessoas. Minhas ferramentas digitais não funcionam como deveriam. Adapto a impressora, turbino o celular. Penso que conviver com a improvisação me torna mais humano

A invasão bárbara
No ensino, ao contrário do que sempre ocorreu, o professor terá de partir partir do mundo real para o pedagógico. Isso significa que a escola começa se alimentar da inteligência coletiva que emerge da rede. Uma revolução não-televisionada, que rompe os muros da educação

O que é pedagógico?
A revolução que a internet promove nas relações sociais afetará radicalmente as trocas de informações e conhecimentos. Como a pegadogia está lidando com estas mudanças? De que modo se dispõe a lidar com modos de aprender e ferramentas que estão se tornando universais?

Diferentes platôs
Nossa sociedade vive em diferentes platôs. São muitas redes que se interconectam. Formam as redes de informação. O que é físico torna-se virtual e, catalisado, retorna ao físico gerando ações interligadas. O desafio é entender a rede como um movimento múltiplo

Sobre conversas e revoluções
Longe das baboseiras impostas como grandes verdades, estamos rompendo paradigmas, modificando a economia e o trabalho, mostrando que, fora do capitalismo selvagem, existe inteligência. Tem gente que acha isso utopia. A nossa utopia! Eu creio, tu crês ser realidade… só por prazer

O paradoxo do real
Somados os percursos, teremos reconstituído uma pluralidade de mundos dentro de um mesmo e único mundo. Ou como escreveu Borges: “… sentia que o mundo é um labirinto, do qual era impossível fugir, pois todos os caminhos, ainda que fingissem ir ao norte ou ao sul, iam realmente a Roma”

A era das trocas par-a-par
Na virada do século, o desenho das redes na internet passou por uma grande transformação. Ao invés da subordinados a um servidor, os computadores e seus usuários passaram a falar uns com os outros. A mudança abriria um leque de possibilidades ? inclusive no terreno da Educação

A cultura hacker
Confundidos propositalmente, pelo pensamento conservador, com invasores de rede, hackers somos todos os que agimos para que informações, cultura e conhecimento circulem livremente. E esta ética de cooperação, pós-capitalista, vai transbordando do software livre para toda a sociedade

Em busca da ativação
Desenvolvido desde 2002, método simples e instigante quebra barreiras em relação às redes sociais on-line e cria, em comunidades e instituições, ambientes de colaboração e compartilhamento. Prática revela como é tênue a diferença entre a presença “virtual” e a que se dá “em carne e osso”

Caminhos da revolução digital
Apesar de dominante, o capitalismo não consegue mais sustentar a lógica de acumulação e trabalho. Seus principais alicerces ? a economia, a ética burocrática e a cultura de massas ? estão em crise. Com a internet florescem, em rede, novas formas de produzir riquezas, diálogos e relações sociais

O desafio do Open Social
Em nova iniciativa supreendente, o Google sugere interconectar as redes sociais como Orkut, Facebook e Ning. Proposta realça sucesso dos sistemas que promovem inteligência coletiva e convida a refletir sobre o papel da individualidade, na era da colaboração e autorias múltiplas

Multidões inteligentes e transformação do mundo
Esquecidas na era industrial, mas renascidas com a internet, as redes sociais desafiam a fusão entre o poder e o saber, permitem que colaboração e generosidade sejam lógicas naturais e podem fazer da emancipação um ato quotidiano

 



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