Procurei pelo Sul Global e não o encontrei
O que os aproximava não é uma identidade comum, mas uma pergunta compartilhada: como construir autonomia dentro de uma ordem internacional criada pelos impérios?
Em pouco mais de uma semana, tive a oportunidade de atravessar os continentes que essa expressão pretende reunir. Saí da América Latina, desembarquei na África do Sul, segui para Moçambique e retornei ao Brasil. Depois, atravessei o Oriente Médio e continuei em direção à China. É a plataforma tricontinental que deu vida ao antigo Terceiro Mundo. Foram milhares de quilômetros percorridos em poucos dias, entre aeroportos, hotéis, universidades, restaurantes e praças. No caminho, conversei com professores e estudantes, taxistas, garçons, motoristas, trabalhadores e pessoas que encontrei casualmente pelas cidades. Algumas me falaram sobre dinheiro e trabalho, outras sobre violência, família, desigualdade, migração e futuro.
Na África do Sul havia uma greve no dia 30 de junho para apoiar as políticas anti-imigração do governo. Vi vários ônibus com migrantes em direção ao Zimbábue, cuja fronteira não é longe de Joanesburgo. Quanto mais eu viajava pelo chamado Sul Global, entretanto, menos evidente se tornava a existência de um Sul que pudesse realmente ser chamado de global.
Em Joanesburgo, encontrei uma sociedade na qual o apartheid terminou juridicamente, mas permanece inscrito na geografia das cidades, na distribuição da riqueza e nas possibilidades de futuro. Em Moçambique, encontrei um país que conquistou sua independência depois de uma longa guerra contra o colonialismo português, mas cuja soberania continua sendo negociada dentro das estruturas profundamente desiguais da economia internacional. No Brasil, encontramos um governo que reivindica frequentemente uma posição de liderança no Sul Global, embora a sociedade continue profundamente dividida sobre seu próprio lugar no mundo e sobre quem, dentro de suas fronteiras, possui efetivamente o direito de representar a nação. No Golfo, Doha é desenvolvida, cosmopolita e aberta ao capital internacional. E segui para a China, uma potência econômica, tecnológica e política que desafia praticamente todas as categorias tradicionais utilizadas para dividir o mundo entre Norte e Sul.
Foi atravessando esses lugares que uma pergunta começou a me acompanhar: que Sul Global é esse?
O que existe de comum entre um trabalhador moçambicano, um empresário chinês, uma família brasileira, um migrante sul-asiático trabalhando no Golfo e um jovem sul-africano que cresceu depois do apartheid? Certamente existem histórias que se cruzam. Colonialismo, imperialismo, escravidão, racismo, dependência, intervenções estrangeiras, fronteiras desenhadas pelos impérios e economias organizadas para transferir riquezas para outros lugares constituem experiências fundamentais para compreender grande parte das sociedades que hoje reunimos sob a expressão Sul Global. Mas as histórias compartilhadas de subordinação não produzem automaticamente um projeto comum de futuro.
Talvez esse seja o problema central. Falamos do Sul Global como se ele simplesmente existisse. Como se fosse possível traçar uma linha imaginária ao redor de mais de uma centena de países e encontrar dentro dela um sujeito político coletivo. Como um voo que vai e volta, atravessando continentes em poucas horas. Há entre essas sociedades diferenças extraordinárias de riqueza, capacidade estatal, regimes políticos, inserção internacional e poder. O Sul Global reúne alguns dos países mais pobres do planeta e algumas das maiores economias mundiais. Inclui sociedades dependentes da ajuda internacional e Estados capazes de financiar infraestrutura em outros continentes. Reúne países que contestam profundamente a ordem internacional e outros que desejam apenas ocupar posições mais confortáveis dentro dela.
O Sul Global contém, além disso, desigualdades internas tão profundas que, muitas vezes, as distâncias sociais dentro dos países parecem maiores do que aquelas que os separam do Norte. Elites econômicas de São Paulo, Joanesburgo, Doha, Mumbai ou Xangai compartilham espaços, padrões de consumo e possibilidades de circulação internacional que pouco têm em comum com a vida da maioria das populações de seus próprios países. Na Guatemala é assim: as elites são os “gringos” em seu próprio país. Um passaporte, uma conta bancária, níveis de consumo e a posição ocupada na divisão internacional do trabalho podem dizer mais sobre a experiência concreta de uma pessoa no mundo do que sua localização no hemisfério Norte ou Sul.
Ainda assim, continuamos falando do Sul Global. Talvez porque precisemos dele. Mas precisar do Sul Global não significa fingir que ele já existe. Significa perguntar o que estamos dispostos a fazer para construí-lo.
Houve um tempo em que o mundo periférico utilizava outro nome. Terceiro Mundo. Hoje, a expressão parece antiquada e frequentemente aparece como sinônimo de pobreza, atraso ou fracasso. Mas o Terceiro Mundo nunca foi simplesmente um conjunto de países pobres. Era uma invenção política.
Quando representantes de países africanos e asiáticos se reuniram em Bandung, em 1955, ninguém imaginava que Índia, China, Indonésia, Egito, Japão ou Etiópia fossem sociedades semelhantes. Não eram. Possuíam histórias, religiões, regimes políticos, interesses econômicos, alinhamentos durante a Guerra Fria e projetos nacionais profundamente diferentes. O que os aproximava não era uma identidade comum, mas uma pergunta compartilhada: como construir autonomia dentro de uma ordem internacional criada pelos impérios?
O Terceiro Mundo nasceu desse problema. Nasceu da percepção de que a independência política não seria suficiente. Era possível retirar a bandeira colonial, substitui-la pela nacional e proclamar um novo Estado, ocupar um assento nas Nações Unidas e continuar vivendo dentro de uma economia mundial organizada pelas antigas potências coloniais. Era possível conquistar soberania jurídica sem conquistar autonomia econômica. Era possível tornar-se formalmente igual e permanecer materialmente subordinado e dependente.
Bandung foi seguida por outras experiências de construção política: o Movimento dos Não Alinhados, a Tricontinental, o Grupo dos 77 e a luta por uma Nova Ordem Econômica Internacional, em 1974. Foram projetos diferentes, atravessados por contradições e conflitos, muitos deles derrotados ou incompletos. Mas compartilhavam uma convicção fundamental: a ordem internacional não precisava apenas incluir novos Estados. Precisava ser transformada.

O Terceiro Mundo sabia que não existia. Precisava ser construído. O Sul Global corre o risco de imaginar que já existe.
Talvez por isso sua linguagem tenha se tornado tão confortável. Governos falam em nome do Sul Global. Organizações internacionais promovem conferências sobre o Sul Global. Universidades criam centros de estudos dedicados ao Sul Global. Diplomatas reivindicam maior representação para o Sul Global. Empresas descobrem novos mercados no Sul Global. Potências disputam sua liderança. Todos parecem saber onde está o Sul Global. Poucos perguntam para que ele serve.
Essa é, talvez, a pergunta decisiva. Porque não basta substituir a expressão Terceiro Mundo por Sul Global. Também não basta substituir Norte por Sul, Ocidente por não Ocidente ou Estados Unidos por China. Uma ordem internacional multipolar não é necessariamente uma ordem internacional mais justa. Um mundo com mais potências continua sendo um mundo de potências.
Se o Sul Global significa alguma coisa, precisa significar mais do que a redistribuição do poder entre Estados. Não pode ser apenas o nome diplomático de uma coalizão de governos insatisfeitos com sua posição na hierarquia internacional. O Sul Global precisa constituir uma perspectiva capaz de questionar as hierarquias que organizam a vida internacional e também aquelas reproduzidas dentro das próprias sociedades que reivindicam falar em seu nome.
Isso significa perguntar quem trabalha e quem acumula; quem atravessa fronteiras e quem permanece imobilizado por elas; quem pode circular pelo mundo sem visto e quem arrisca a vida para cruzar uma fronteira; quem limpa os aeroportos, constrói as cidades e extrai os minerais necessários à economia global; quem vive nos territórios transformados em zonas de sacrifício; quem possui o direito de produzir conhecimento sobre o mundo e quem continua sendo apenas objeto das teorias produzidas em outros lugares. Talvez o Sul Global comece justamente aí: não nos mapas, mas nas relações de poder que organizam o mundo.
A China torna essa questão particularmente difícil. Um país submetido durante mais de um século às intervenções por potências estrangeiras tornou-se uma das maiores economias do planeta. Financia infraestrutura, concede empréstimos, controla tecnologias estratégicas, disputa mercados e projeta poder internacionalmente. Pode uma potência mundial continuar pertencendo ao Sul Global? Que tipo de mundo ela ajuda a construir?
Porque pertencer ao Sul Global não pode ser apenas uma condição permanente adquirida pela experiência histórica da colonização. Precisa ser uma prática política. Não basta perguntar onde um país está localizado, qual é sua renda per capita ou se foi colonizado. É necessário perguntar de que lugar político escolhe olhar para o mundo, quais hierarquias está disposto a contestar e quais solidariedades pretende construir.
Foi então que percebi que talvez estivéssemos fazendo a pergunta errada. Perguntamos constantemente quem pertence ao Sul Global. Talvez devêssemos perguntar: você quer ser do Sul Global?
Se a resposta for sim, talvez exista aí uma política do Sul Global. Porque o Sul Global é uma identidade que herdamos, é mais que uma geografia que habitamos ou uma condição histórica que recebemos. É uma posição diante do mundo. Uma perspectiva a partir da qual escolhemos interpretá-lo e um projeto político por meio do qual tentamos transformá-lo.
O Sul Global, portanto, não deveria ser o nome de uma parte do mundo. Deveria ser o nome de uma política para transformá-lo.
O Terceiro Mundo sabia que precisava ser construído. Talvez tenha chegado o momento de o Sul Global descobrir a mesma coisa.
José Alejandro Sebastian Barrios Díaz é professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

