Projeto urbano, paisagem e crise climática em Tefé
Como qualificar espaços coletivos em cidades que, paradoxalmente, mesmo inseridas na maior floresta tropical do planeta, apresentam baixa presença de arborização em suas áreas urbanizadas?
Em outubro de 2023, ao abordar a estiagem do Lago de Tefé e a morte de botos em águas superaquecidas, um dado se destacou: um tema aparentemente localizado – relativo a uma cidade frequentemente percebida como periférica – tornou-se um dos textos mais lidos do Le Monde Diplomatique Brasil. Mais do que um interesse circunstancial, esse alcance indicava um deslocamento de perspectiva: a Amazônia – e suas cidades – deixava de ser margem para se afirmar como centro de uma questão global incontornável.
Retomar Tefé hoje, à luz da recente inauguração de sua orla, permite deslocar o debate da emergência para a construção cotidiana da cidade. Se, naquele momento, a crise expunha a fragilidade dos sistemas ambientais, agora é o projeto urbano que se apresenta como campo de ação – e, sobretudo, de responsabilidade.
Nas cidades amazônicas, cuja formação se dá na interface dinâmica entre águas e terras altas, a orla não se reduz a um limite físico. Trata-se de um espaço estrutural, onde historicamente se articulam mobilidade, trabalho, convivência e paisagem. Em Tefé, essa condição adquire ainda maior complexidade ao se inscrever em uma geografia particular: uma península que se projeta sobre o lago e que abriga, em um de seus lados, um bairro constituído como ilha – o Abial –, evidenciando, desde a própria forma urbana, a intensidade e a ambivalência das relações entre cidade e água.
A antiga “Rua da Frente” condensava essa condição. Marcada pelas grandes mangueiras, pelo casario e por sobrados de expressiva qualidade arquitetônica, configurava uma continuidade sensível entre cidade e lago, associando sombreamento, permanência e acesso direto à água. Não se tratava apenas de uma paisagem, mas de uma infraestrutura cotidiana, onde clima, sociabilidade e território se articulavam de maneira indissociável.
É justamente essa herança que recoloca uma questão central para o debate contemporâneo: como qualificar espaços coletivos em cidades que, paradoxalmente, mesmo inseridas na maior floresta tropical do planeta, apresentam baixa presença de arborização em suas áreas urbanizadas? Em contextos de calor intenso e elevada umidade, o sombreamento não é um atributo secundário, mas uma condição essencial de habitabilidade.
A intervenção recente na orla pode ser compreendida como parte de um processo em aberto. Ao recolocar a relação com a água no centro da experiência urbana, reafirma a importância política de investir nesses espaços e de reconhecer sua dimensão pública e simbólica. Ao mesmo tempo, explicita desafios que extrapolam o caso específico de Tefé e se manifestam em diversas cidades brasileiras.
Entre esses desafios, destaca-se a necessidade de integrar o componente ambiental – em especial a arborização – como elemento estruturante do projeto, e não como complemento posterior. Trata-se de compreender que paisagem, conforto climático e uso social constituem dimensões indissociáveis.
Outro ponto relevante diz respeito à capacidade de mediação entre cidade e paisagem. O Seminário São José permanece como exemplo eloquente de uma inteligência territorial sedimentada no tempo. Sua implantação evidencia uma rara capacidade de operar simultaneamente em duas frentes: de um lado, organiza e qualifica o espaço da praça; de outro, estabelece uma relação direta e aberta com o lago, acompanhando seus regimes e variações. Essa condição de “dupla fachada” não é apenas um atributo formal, mas um dispositivo espacial que articula escalas, fluxos e usos distintos.

Mais do que um objeto isolado de valor patrimonial, o Seminário constitui uma lição projetual ainda atual: demonstra como a arquitetura pode atuar como interface, e não como barreira, potencializando relações entre sistemas urbanos e ambientais. À luz dessa referência, torna-se mais evidente o desafio contemporâneo de evitar soluções que, ao ocupar a borda de forma contínua e opaca, acabem por fragilizar essa mediação histórica, reduzindo a permeabilidade visual, física e simbólica entre cidade e água.
Da mesma forma, a compreensão da orla como espaço de transição – e não como limite rígido – torna-se fundamental em territórios marcados por regimes sazonais das águas. A coexistência entre praia e cais, entre usos temporários e permanentes, sugere a necessidade de soluções mais abertas e adaptativas, capazes de incorporar a variação como dado constitutivo do projeto.
Ao fundo, permanece a questão que projetou Tefé no debate internacional: a crise climática. As transformações em curso na Amazônia não são abstrações, mas processos concretos que incidem diretamente sobre a forma de habitar e de projetar as cidades. Nesse cenário, a orla deixa de ser apenas espaço público para assumir também o papel de infraestrutura ambiental, articulando proteção, adaptação e experiência.
A experiência recente, portanto, pode ser lida menos como síntese do que como ponto de inflexão. Ao reconhecer a centralidade da água, abre-se a possibilidade de avançar na construção de espaços mais permeáveis, mais sombreados e mais ajustados às condições climáticas e culturais da região. Trata-se de uma agenda em construção, que demanda continuidade, escuta e refinamento.
Se, em 2023, Tefé revelou ao mundo a urgência de sua condição, hoje oferece a oportunidade de refletir sobre caminhos possíveis. Entre limites e potencialidades, a orla se afirma como campo de experimentação e como dispositivo capaz de rearticular relações entre cidade, paisagem e sociedade.
Nesse horizonte, pensar Tefé a partir de sua orla implica necessariamente ultrapassar a própria borda e reconhecer sua continuidade territorial. A relação com a Ilha do Abial, nesse sentido, deixa de ser apenas uma possibilidade pontual para se afirmar como estratégia mais ampla de reequilíbrio urbano: valorizar outro quadrante da cidade, reduzir assimetrias históricas e construir uma passagem efetiva entre partes até então dissociadas.
Mais do que estabelecer uma ligação física, trata-se de ativar a própria condição peninsular como projeto, reconhecendo na água não um limite, mas um meio de articulação. A orla, nesse contexto ampliado, deixa de ser margem para se tornar eixo: não apenas de circulação, mas de integração entre paisagem, infraestrutura e vida coletiva.
Entre a orla e a floresta, entre a cidade construída e os sistemas naturais que a sustentam, abre-se, assim, um campo decisivo para o projeto contemporâneo. É nesse intervalo – ao mesmo tempo físico, cultural e político – que se delineiam as possibilidades de um urbanismo mais atento às especificidades amazônicas e mais comprometido com o futuro.
Adalberto da Silva Retto Jr., nascido em Tefé (AM), é arquiteto urbanista e engenheiro agrônomo. Atua como professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). É doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP) e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza (IUAV), com pós-doutorado no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza – Itália. Foi professor-pesquisador visitante na Universitè Panthéon Sorbonne -Paris I – França.


A matéria é de uma relevância tão grande que chamou a atenção para os alunos da uea e da rede pública para se aprofundar e fazerem uma reflexão e publicação na cidade de tefe sobre o tema