Proteger línguas e culturas: o caso do português - Le Monde Diplomatique

LÍNGUA E IDENTIDADE

Proteger línguas e culturas: o caso do português

por Éda Heloisa Pilla
9 de agosto de 2011
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Éda Heloisa Pilla

O acervo lexical das línguas cresce em razão da necessidade de criação de palavras novas, os neologismos, para suprir a necessidade de denominação de novos conteúdos gerados pela evolução do conhecimento. As novas palavras, por sua vez, obedecem a uma coerência, em razão da relação que mantêm com as já existentes, em um dado sistema linguístico. Conforme colocou Ferdinand de Saussure, em sua teoria Estruturalista, o léxico das línguas (vocabulários) se assemelha a um tecido, onde todas as malhas são interdependentes, e condicionam-se mutuamente. Quando uma nova malha é acrescentada ou modificada, o sistema é abalado como um todo.

Por outro lado, o sistema cultural, estruturado por cada comunidade lingüística, e que dá suporte à língua, atua, ao mesmo tempo, como causa e efeito ao engendrar as novas palavras, pois ele é tanto afetado pelas significações das já existentes como o responsável pelo surgimento das novas. A harmonia entre léxico e cultura constitui a identidade da língua. Por isso, cada sistema lingüístico é único e explica porque cada língua conceptualiza o mundo à sua maneira e difere dos demais.

Sendo assim, ao adquirir sua língua materna, um falante já herdaria toda a carga de significações contida em suas palavras. Esse processo que, como foi mencionado, difere de língua para língua, molda a maneira específica com que interpretamos o mundo, constituindo uma lente através da qual percebemos a realidade. Tal fato torna as línguas, por assim dizer, intangíveis e impenetráveis, já que cada uma descreve sua própria visão do mundo ou, segundo alguns autores, o seu próprio mundo.

A diversidade lingüística, hoje apregoada quase a exaustão, não deve ser entendida superficialmente apenas em relação às diferenças entre línguas/culturas, mas também e, sobretudo, à necessidade de manutenção dessas diferenças. Ela constitui uma riqueza natural inestimável a ser preservada acima de qualquer interesse econômico, comercial ou político, por constituir o patrimônio cultural da humanidade.

Em muitos momentos da história, entretanto, essa ordem foi ameaçada ou quebrada.

Muitas línguas desapareceram em razão da extinção física de seus usuários, como o caso das línguas indígenas do Brasil; outras perderam seu status oficial pela imposição da língua e cultura do colonizador, como as línguas nacionais da Índia (bem com tantas da África e Ásia), durante os 80 anos de colonização inglesa, e outras, ainda, sofreram sanções temporárias, como o português do Timor Leste, durante a invasão indonésia, e o catalão durante a ditadura franquista. Essas duas últimas se reergueram graças à perseverança, coragem e zelo de seus usuários. Todos esses exemplos mantêm um o traço comum: quase sempre a causa do desaparecimento ou enfraquecimento da língua se deveu a relações de poder e dominação

Hoje, verifica-se, no mundo, o assédio do inglês como língua hegemônica, provocando grande perturbação às línguas “menores”. O português brasileiro não escapa a essa ameaça. O uso extensivo de palavras do inglês que penetram em nosso léxico expõe uma situação de neocolonialismo lingüístico-cultural, sem imposição explícita ou física de um invasor, mas tampouco sem restrição ou resistência por parte da língua receptora. Talvez por essa razão, o fenômeno venha tomando proporções alarmantes, extrapolando o limite do razoável e prenunciando uma irreversibilidade desastrosa para o português. As palavras estrangeiras que entram em nossa língua tomam o espaço das nossas, inibem a criação de novas segundo nossas normas, subvertem nossa fonologia e agridem nossos valores culturais. Mas o pior não é a quantidade de palavras já adotadas (sobre isso nem temos estatísticas autorizadas), mas a instalação de uma tendência aceita e estimulada, entre outros, pelos meios de comunicação e pela propaganda.

Como os novos termos, normalmente introduzidos pela literatura que acompanha uma inovação técnica, tecnológica, científica ou literária, não são traduzidos ou não se criam palavras nacionais para substituí-los, a perspectiva é de que, em um futuro não tão remoto, nossa língua possa se restringir a um uso doméstico-familiar, e quando precisarmos falar ou escrever sobre temas especializados terá que ser em inglês, pois não disporemos de vocabulário para tal. Essa é a rota para a homogeneização lingüística e cultural, um caminho sem volta.

Tendo sido rompida uma ordem natural, é necessária a interferência humana para resgatá-la.

É consenso entre os estudiosos, que qualquer sistema lingüístico possui capacidade para nomear tudo o que considerar necessário para suas interações lingüísticas, e a impressão de que certas línguas não podem suprir necessidades de estruturas conceptuais é puramente ideológica. De outra parte, é uma decisão política desenvolver terminologias na língua nacional ou resignar-se a tomá-las emprestado de uma língua veicular.

Ao criar novas palavras explorando seus próprios recursos, as línguas enriquecem. O inglês vem fazendo isso sistematicamente, mas nós, em vez disso, copiamos as palavras dele, que nada têm a ver com a natureza de nossa língua.

O fato, mencionado acima, de os novos termos ou expressões estarem relacionados e condicionados aos já existentes, ao mesmo tempo em que respeita um sistema anterior organizado, facilita o entendimento da nova palavra por parte dos demais falantes, proporcionando-lhes meios naturais de decodificá-la.

Por um prolífico processo de derivação para cunhar palavras novas, em quase todas as línguas, a nominalização, criou-se, em inglês, a palavra bullying, a partir do verbo to bully mais o sufixo ing, ambos já fazendo parte da língua inglesa. O verbo to bully, derivado de bull em seu sentido metafórico (ver o dito: Like a bull in a china shop), deu origem, por sua vez, a bullying, por analogia a outros casos já lexicalizados, da mesma forma que o verbo to read (ler)derivou reading (leitura), to meet (encontrar) derivoumeeting (encontro) e to feel (sentir) derivou feeling (sentimento). Sendo assim, bullying é uma palavrafacilmente decodificável, previsível e virtualmente presente na consciência dos falantes de inglês. Para nós, entretanto, ela é totalmente estranha, alheia ao nosso sistema, e por isso não nos diz nada.

O sufixo nominalizador – ing, por sua vez, é tão fecundo quanto os nossos: – ção, – mento e

ança , também formadores de substantivos a partir de verbos. Observemos os exemplos, em português, de verbos já lexicalizados como: preservar que derivou preservação; motivar que derivou motivação; sucatear – sucateamento; enfrentar – enfrentamento; gastar – gastança ecobrar – cobrança.

Por outro tipo de derivação – a composição -, criou-se, em inglês, a expressão home-theater , cunhada a partir de dois itens lexicais já existentes naquela língua: home e theater, e por um processo sintático totalmente previsível daquele idioma. Trata-se de uma colocação nominal que corresponde, em português, a formações ligadas pelas preposições de, em ou por hífem, como por exemplo: cartão de crédito (tradução de credit card ); ciência da computação ( computer science); fermento em pó (baking powder); questão-chave (key question); livrotexto ( text book), e assim por diante. Por que não traduzir home- theater  por  cinema em casa ?

Ainda outro modelo de criação lexical usado pelas línguas ocorre no neologismo semântico. Isso se dá quando um conteúdo novo é denominado por uma palavra já existente. O inglês é abundante nesse recurso. É o caso de chip (lâmina), hardware (artefato; equipamento de metal); mouse (rato); stand by (espera) e attached (anexado/junto), para citar apenas alguns exemplos. Todos já existiam antes de assumirem novos sentidos no campo semântico da computação.

Aqueles que conhecem os recursos da língua portuguesa para criar novas palavras, professores, lingüistas ou outros estudiosos, devem estar se perguntando por que os brasileiros, de algum tempo para cá, estão sabotando sua língua e sua cultura, e adotando, sem nenhum critério, palavras de outro sistema linguístico que usa exatamente os mesmos meios de geração de palavras de que nós dispomos?

Éda Heloisa Pilla é Doutora em Linguística e Filologia pela USP, professora de inglês do Departamento de Línguas Estrangeiras Modernas da UFRGS e autora do livro“Os Neologismos do Português e a Face Social da Língua” (Ed. AGE, Porto Alegre, 2002).



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