Proteger o patrimônio e valorizar as pessoas
O Brasil carrega uma contradição para Belém
A chamada “polêmica da hospedagem em Belém” ganhou as manchetes nos meses que antecedem a COP30. A escalada nos preços e a falta de vagas em hotéis para novembro de 2025 ameaçam a participação de delegações de países em desenvolvimento e de organizações da sociedade civil, que precisam ser ouvidas nas negociações climáticas. Esse episódio, porém, é apenas a face visível de um problema mais profundo: a distância entre o discurso de liderança climática que o Brasil levará ao palco internacional e as fragilidades internas de sua política ambiental.
A execução orçamentária de 2024 é um exemplo disso. Levantamento que faz parte do livro República em Notas vol.2, lançado recentemente pela República.org, mostra que pouco mais da metade (53,8%) da dotação autorizada para a agenda ambiental foi utilizada até o fim do ano. No caso das despesas em que a pauta ambiental apareceu como objetivo secundário, a taxa foi ainda menor: 33,8%.
Esses números revelam a contradição que o Brasil carrega para Belém. Dono de uma das maiores biodiversidades do planeta, o país ocupa posição central nas negociações climáticas. Mas, internamente, também falha em garantir recursos e condições adequadas para quem está na linha de frente da preservação ambiental.

Crédito: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Atualmente, são 9 mil servidores federais vinculados ao Ministério do Meio Ambiente e suas autarquias, como IBAMA e ICMbio. Eles lidam com falta de recursos, sobrecarga de trabalho e ausência de políticas consistentes de valorização e capacitação. O histórico salarial ilustra essa desvalorização: em 2013, a média era de R$ 17.046,69 (valores corrigidos para março de 2025). Em 2020, caiu para R$ 15.201,37 e, em 2025, para R$ 7.974,47. Entre os temporários, a queda também foi expressiva: de R$ 3.455,81 em 2013 para R$ 1.949,62 em 2025.
Nos últimos cinco anos, o número de temporários na área de meio ambiente cresceu 680,2% na esfera federal. Embora esse tipo de contrato tenha sido criado para atender demandas específicas – como projetos especiais, licenças médicas ou postos em áreas de difícil acesso –, ele passou a ser utilizado de maneira recorrente.
O problema se repete nos estados e municípios, onde por vezes há ausência de um corpo burocrático com estabilidade para desempenhar, com autonomia e segurança jurídica, atividades fundamentais de fiscalização e controle. No Acre, por exemplo, estado que integra a Amazônia Legal, não foi encontrada carreira específica de fiscalização ambiental, seja na administração direta ou no Instituto do Meio Ambiente do Acre (IMAC) e no Pará, dos 505 dos servidores encontrados que ocupam a carreira de Técnico em Gestão de Meio Ambiente no mês de julho de 2024, apenas 38% possuíam vínculo efetivo, sendo os outros 62% de vínculos temporários, de acordo com dados do Anuário de Gestão de Pessoas de 2024. Justamente quando enchentes, secas e queimadas se tornam mais intensas e exigem respostas rápidas e coordenadas, a estrutura pública revela seus limites.
Às vésperas da COP30, o contraste é inescapável: enquanto o Brasil se apresenta ao mundo como potência ambiental, dentro de suas fronteiras ainda negligencia investimentos e tem dificuldade de fornecer condições mínimas para aqueles que garantem a preservação dos ecossistemas. Valorizar servidores ambientais e fortalecer as instituições que os abrigam não é uma demanda corporativa, mas uma escolha estratégica para o desenvolvimento do país.
Num planeta cada vez mais marcado pela emergência climática, cuidar de quem cuida do meio ambiente é a única forma de sustentar o protagonismo que o Brasil reivindica em Belém.
Ana Pessanha é especialista em Conhecimento da República.org
Ana Sales é analista de Dados da República.org
Paula Frias é coordenadora de Dados da República.org

