Punk, anarquista e prefeito - Le Monde Diplomatique

ISLÂNDIA, REENCANTAR A POLÍTICA PELO ESCÁRNIO

Punk, anarquista e prefeito

novembro 3, 2016
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Antes uma capital desanimada ao cair do dia, Reykjavík se tornou, com a explosão do turismo, uma cidade viva, alegre, dinamizada por diversos eventos culturais e um sentimento de segurança cujo efeito é contagioso. Acusados frequentemente de destruir a natureza, os visitantes tornaram a cidade mais ecológicaGerard Lemarquis

Nos dias seguintes ao desmoronamento de 2008, a capital da Islândia era a imagem da desolação. A floresta de guindastes erguida durante a bolha financeira tinha desaparecido. Os prédios inacabados de Reykjavík ofereciam à nevasca seus flancos de concreto bruto. Uma parte importante da população, superendividada, perdia a moradia ou se desdobrava para conservá-la. Durante as eleições municipais de 2010, os eleitores desamparados escolheram como prefeito um ator e humorista, Jón Gnarr.
A candidatura desse punk gravemente disléxico, com um percurso atormentado,1 admirador de Tristan Tzara, Pierre-Joseph Proudhon e Mikhail Bakunin, era no início puramente paródica. Ele declarava querer o poder para “encher os bolsos sem descanso” e aproveitar para “colocar [seus] amigos nos cargos mais bem pagos”. Ele estava acompanhado por músicos e atores, muitos deles próximos da cantora Björk, que se qualificavam eles mesmos como “anarquistas surrealistas”. Anunciando que trairia suas promessas eleitorais, a lista do Melhor Partido propunha a abolição de todas as dívidas, viagens-surpresa para pessoas idosas, a obrigação para os homens de ficar em casa alguns dias e a introdução no país de ursos-brancos, esquilos e rãs.

Quando se tornou prefeito, Gnarr se associou aos sociais-democratas para dirigir essa municipalidade que por muito tempo foi um bastião do Partido Independente (conservador) e abriga mais de um terço da população do país. Ele assumiu então um novo papel. O provocador que não estava nem aí deu lugar a um personagem de uma humildade desarmadora. Os moradores da capital o acompanharam em sua trajetória de transparência e democracia participativa. E esse personagem atípico foi paradoxalmente o homem da situação. Os islandeses, mergulhados na recessão, não acreditavam mais nas promessas e sentiam que o melhor seria conquistado na margem, na qualidade de vida.
A crise ajudou Gnarr e seus amigos a transformarem a cidade onde o carro era rei em uma capital ecológica, descolada e provida de uma densa rede de ciclovias. Tendo passado brutalmente da opulência à recessão, os islandeses liquidaram seu terceiro carro, até mesmo seu segundo, e o trânsito diminuiu. As ciclovias, ao lado de calçadões, se multiplicaram – para irritação dos motoristas.
Gnarr quis dar voz à população. Mas indo além do chauvinismo de bairro. Dois programas tinham criado fóruns para um “bairro melhor” e uma “Reykjavík melhor”. Longe de se sentir em curto-circuito, a municipalidade os encorajou. Assim, cada morador pôde lançar uma iniciativa nessas plataformas. Uma discussão apareceu então: a favor ou contra, os oradores participaram em seu próprio nome. O projeto que tivesse o maior apoio obteria um financiamento imediato. Todas as posições tinham de ser explicadas e justificadas, o que excluía os movimentos de moda, os rancores e as ações exageradas.
Nas eleições municipais de 2014, a classe política se preparava para pegar Jón Gnarr desprevenido. Depois de ter experimentado o poder, será que ele iria desistir? Era a lógica da coisa – ele iria enfim se tornar um deles. No auge das pesquisas, o homem anunciou que estava deixando a política. Ele se recusou retornar a ela em 2016, depois do episódio dos Panama Papers, quando seus admiradores pediram que se candidatasse às eleições presidenciais. A aventura continua para o Melhor Partido, que se transformou no Partido Futuro Radiante. Ele conta com seis deputados no Parlamento e continua administrando a municipalidade no seio de uma coalizão dirigida por um social-democrata, com a participação dos ecologistas de esquerda e do Partido Pirata.
Antes uma capital desanimada ao cair do dia, Reykjavík se tornou, com a explosão do turismo, uma cidade viva, alegre, dinamizada por diversos eventos culturais e um sentimento de segurança cujo efeito é contagioso. Acusados frequentemente de destruir a natureza, os visitantes tornaram a cidade mais ecológica, deslocando-se a pé, algo que os moradores não faziam mais. Claro, eles aumentaram os preços dos produtos de consumo, mas sem eles diversos bares e restaurantes que surgiram não existiriam. Único porém: eles precisam de espaço. Os guindastes voltaram. A municipalidade de esquerda concede autorizações de construção a hotéis de luxo, enquanto os habitantes mais pobres não conseguem encontrar moradia. O sucesso rápido do Airbnb diminuiu o número de apartamentos disponíveis para locação anual e elevou muito os preços. A oposição de direita, antes favorável à destruição das velhas casas de madeira, descobriu-se com sentimentos estéticos e critica o excesso de concreto do centro.
Em 2010, Gnarr prometia sonho a preços baratos em uma capital empobrecida. A construção de anéis rodoviários nas artérias religando os bairros afastados por um espalhamento urbano até então sem limites será sem dúvida o desafio da próxima eleição junto a uma população novamente enriquecida. Uma cidade a duas velocidades, no sentido próprio, se desenha: um centro charmoso sem carros, onde se caminha com facilidade, e periferias banais, superequipadas com carros, onde o trânsito não avança.

*Gerard Lemarquis é jornalista, autor da obra Les Islandais [Os islandeses], HD, Paris, 2014, e de Reykjavík, Innercities Signal Books, Londres, 2013.

 



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