BAHIA FILMES

Qual é o futuro do cinema na Bahia?

O audiovisual baiano nunca foi apenas entretenimento: sempre foi disputa de narrativa, instrumento de crítica e afirmação de identidade

O audiovisual da Bahia, herdeiro de nomes como Glauber Rocha e Mário Gusmão, vive hoje um momento de renovação. Nos últimos dois anos, filmes baianos conquistaram prêmios em festivais internacionais e ajudaram a elevar a participação do cinema nacional de pouco mais de 3% para cerca de 10% do mercado. Essa guinada mostra como as novas gerações de realizadores têm força para projetar a Bahia, mesmo diante de um cenário que trará grandes desafios.

Esse movimento, no entanto, não é um raio em céu azul. Ele tem raízes profundas. Glauber, com sua estética revolucionária, rompeu com o cinema tradicional, projetou o Brasil no exterior e colocou a Bahia como berço de uma nova linguagem mundial. Mário Gusmão, por sua vez, foi símbolo da inserção do corpo negro na tela, afirmando uma presença que até hoje reverbera como horizonte político e estético. Ambos mostraram que o audiovisual baiano nunca foi apenas entretenimento: sempre foi disputa de narrativa, instrumento de crítica e afirmação de identidade.

O que vemos hoje é a atualização desse legado. Jovens cineastas, sobretudo mulheres, da Bahia têm conquistado prêmios importantes, como Meu Pai e a Praia, de Marcos Alexandre, que levou o prêmio Melhor Filme na Festival de Cinema de Caruaru, ou Quem é Essa Mulher?, de Mariana Jaspe, celebrado no Panorama Internacional Coisa de Cinema. O documentário WR Discos – Uma Invenção Musical recebeu menção honrosa no Festival de Brasília, reafirmando o vigor de nossa cena documental. Esses casos exemplificam como a Bahia segue pulsando como um dos polos mais criativos e provocadores do audiovisual brasileiro.

Mas esse avanço convive com contradições profundas. Embora a bilheteria de 2024 tenha alcançado cerca de R$ 2,5 bilhões com 125 milhões de ingressos vendidos, o cinema nacional ainda disputa um espaço menor nas salas em relação às produções estrangeiras. Ainda que haja crescimento do nosso mercado, persistem críticas quanto à representatividade nacional nos catálogos de streaming, que seguem sob influência forte de conteúdo importado.

Essa contradição também é regional. Apesar de termos mais de 3.500 salas de cinema em operação no Brasil em 2024, a maior parte concentrada no Sudeste, a realidade no Nordeste é desigual. A Bahia possui 131 salas em 13 territórios de identidade, mas mais da metade na região metropolitana de Salvador. A interiorização do acesso ao audiovisual é ainda um desafio central.

É nesse cenário que o setor do ativismo no audiovisual baiano, com forte apoio do secretário Bruno Monteiro, iniciou um marco histórico com a criação da Bahia Filmes, a primeira empresa pública estadual de audiovisual do Brasil. A estatal nasce em 2025 com orçamento previsto de R$ 22 milhões anuais e a missão de oferecer algo que sempre faltou: estabilidade e planejamento de longo prazo. Não se trata apenas de financiar filmes, mas de estruturar todo o ecossistema, da produção à distribuição, das salas físicas às plataformas digitais.

A Bahia tem uma vocação cultural inegável, e a música ocupa o lugar de maior potência nesse ecossistema. Dos tambores do Recôncavo ao axé que tomou o mundo nos anos 1980, passando pelo samba-reggae, o pagodão, o rap e o jazz soteropolitano, a produção musical baiana sempre foi vetor de inovação e projeção nacional e internacional. Somos referência não apenas pelo volume e diversidade de artistas, mas pela capacidade de transformar nossa herança ancestral em linguagem contemporânea, formando públicos e redes criativas que sustentam a maior vitrine cultural do Brasil.

Esse protagonismo ganhou ainda mais força com os avanços tecnológicos. A digitalização e a internet mudaram radicalmente os modos de criar, distribuir e consumir música, tornando obrigatória a atualização das formas de produção e difusão. Plataformas digitais, redes sociais, transmissões ao vivo e a convergência entre som e imagem criaram um novo momento, em que a música baiana se conecta com o audiovisual, a comédia, os games e outros formatos. Tudo que vem depois desse impacto tecnológico se ancora nessa potência cultural histórica.

Entre 2015 e 2021, a Bahia movimentou R$ 265,8 milhões no setor audiovisual, sendo R$ 160,4 milhões via políticas públicas – dos quais R$ 145,5 milhões vieram de fundos federais. A experiência mostra a capacidade de alavancagem: cada real investido pelo Fundo de Cultura do estado conseguiu atrair até três reais do Fundo Setorial do Audiovisual; em algumas carteiras, a proporção chegou a 1:39. Uma estrutura como a da empresa de audiovisual baiana pode tornar essa dinâmica uma política permanente, multiplicando investimentos e fortalecendo a cadeia produtiva.

Mas para isso, é preciso ousar mais do que repetir fórmulas já conhecidas. A Bahia Filmes precisa articular o cinema com a produção musical do estado, que é o setor cultural mais consolidado e de maior projeção internacional. Imagine a potência de documentários, séries e musicais que mostrem a diversidade da cena baiana, do axé ao pagodão, do rap ao jazz de Salvador. Essa aproximação com a música pode ampliar a difusão e abrir portas em festivais internacionais que buscam justamente narrativas híbridas entre som e imagem.

Outro ponto é a aproximação com a cena da comédia. A cena do standup e do humor popular, que hoje cresce nas redes sociais e nos teatros, é também parte do audiovisual. Criadores de conteúdo, humoristas e roteiristas podem ser integrados em laboratórios de roteiro e produção. Essa conexão não só gera empregos como amplia o alcance do cinema baiano para públicos que muitas vezes não se reconhecem no circuito tradicional de festivais.

Além disso, é urgente hackear linguagens mais modernas e joviais. O audiovisual contemporâneo não se limita à tela grande: circula em reels, podcasts, vídeos curtos, transmissões ao vivo, conteúdos interativos. A Bahia Filmes precisa criar editais que não reproduzam apenas o modelo clássico do longa-metragem, mas que apostem em webseries, game design, experiências de realidade aumentada e conteúdos digitais para plataformas que já são consumidas em massa pela juventude. Se a estatal quiser formar plateia crítica, tem de falar a língua das novas gerações.

Crédito: Divulgação

Outro gargalo está na exibição. O vídeo sob demanda (VoD) já é potencialmente acessível em 71,9% dos municípios baianos, e esse dado precisa ser encarado como política pública. O digital não é um inimigo do cinema tradicional, mas pode ser aliado estratégico. A empresa poderia criar sua própria plataforma pública de streaming, com catálogo de produções locais e regionais, garantindo circulação e formando público. Isso não exclui acordos com plataformas privadas, mas amplia as possibilidades de acesso e fortalece a soberania cultural.

A formação é outro eixo fundamental. A Bahia Filmes deve pensar programas permanentes de capacitação em parceria com universidades, escolas técnicas, coletivos comunitários e centros culturais. É preciso investir em jovens periféricos, quilombolas, indígenas e estudantes do interior, para que não apenas o eixo de Salvador concentre produção. O audiovisual precisa ser um direito cultural de todos os territórios.

A internacionalização também deve estar no horizonte. O cinema baiano já despertou atenção no exterior com Glauber e, mais recentemente, com filmes premiados em festivais internacionais. A empresa poderia assumir a função de criar um programa de circulação internacional, conectando diretores, produtores e técnicos baianos a redes de coprodução na África, no Caribe e na diáspora negra, reforçando laços históricos e culturais.

No entanto, nada disso funcionará sem campanhas de comunicação robustas. O audiovisual baiano precisa ser promovido com a mesma intensidade que vemos em grandes lançamentos de blockbusters: publicidade segmentada, parcerias com influenciadores, circulação em escolas e universidades, uso das rádios comunitárias e da TV pública como instrumentos estratégicos. Uma estatal não pode se limitar a ser “banco de fomento”; precisa ser também articuladora de narrativas, gestora de público e ativadora de mercados.

A criação da empresa audiovisual baiana pode, sim, ser um divisor de águas. Mas, para que seja, é necessário que ela se torne um espaço de articulação e de gestão eficiente e eficaz. Que dialogue com a música, com a comédia, com os criadores digitais, com os movimentos culturais de base. Que não trate o audiovisual apenas como indústria, mas como linguagem viva, em constante disputa, vide últimos processos eleitorais e suas narrativas, e reinvenção. O cinema da Bahia sempre foi vanguarda porque ousou pensar diferente e a Bahia Filmes só será histórica se conseguir manter esse espírito.

Herlon Miguel é bacharel em Administração e mestrando em Gestão de Tecnologias Aplicadas à Educação pela Universidade do Estado da Bahia. Escritor e Produtor cultural com ampla atuação em políticas públicas, é idealizador da plataforma Ative, voltada à formação e lançamento de autores e autoras negras, e fundador do Negrito LAB, iniciativa dedicada à comunicação e ao pensamento crítico sobre raça, cultura e política. Coautor do livro Amar pode ser perigoso.

Fontes:
IBGE – Pesquisa Anual de Comércio, Pesquisa Anual de Serviços e Sistema de Contas Nacionais (2007–2019), compilados pela ANCINE.

ANCINE – Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA). Dados sobre arrecadação da Condecine e receitas do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

IBGE/ANCINE – Coordenação de Serviços e Comércio da Diretoria de Pesquisas, tabulação especial sobre Valor Adicionado do setor audiovisual (2007–2019).

NIC.br – SIMET (2023), Sistema de Medição de Tráfego de Internet. Levantamento sobre qualidade da banda larga nos municípios baianos.

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