COMUNIDADES DE TERREIRO E POLÍTICAS PÚBLICAS

Quando a ancestralidade ocupa o centro das decisões

Construído pelas comunidades de terreiro, 2º Seminário Jeholu de Políticas Públicas e Cultura das Tradições de Matrizes Africanasque acontece entre os dias 11 e 14 de agosto em São Paulo, busca fortalecer sua capacidade de incidência política, ampliar o diálogo entre diferentes territórios e afirmar que seus conhecimentos precisam ocupar lugar central nas decisões que moldam o futuro do país 

A sociedade brasileira ainda não consegue compreender a amplitude do que são as comunidades tradicionais de matrizes africanas. As comunidades de terreiro são espaços de resistência e organização política negra, territórios vivos de produção de conhecimento, organização comunitária, cuidado coletivo, educação, preservação ambiental e memória. Há séculos desenvolvem práticas que sustentam a vida cotidiana de milhares de pessoas, especialmente nas periferias urbanas e em comunidades historicamente marginalizadas. 

Mesmo diante de sua importância, permanecem praticamente excluídas dos processos de formulação das políticas públicas que impactam diretamente seus territórios. Essa exclusão não é casual. Ela faz parte de uma estrutura histórica que naturalizou o apagamento dos conhecimentos negros e tradicionais, ao mesmo tempo em que legitimou apenas determinadas formas de produção do conhecimento. 

Reconhecer os terreiros como sujeitos políticos significa compreender que eles não reivindicam apenas liberdade religiosa. Reivindicam o direito à memória e reconhecimento de sua participação histórica e efetiva na construção da sociedade brasileira. Afinal, quando as comunidades de terreiro preservam seus idiomas e falares de origem africana, transmitem conhecimentos ancestrais, protegem nascentes, acolhem crianças, fortalecem vínculos familiares, organizam redes de solidariedade ou combatem a insegurança alimentar, elas estão produzindo políticas de cuidado muito antes de elas receberem esse nome. 

É justamente dessa compreensão que nasce o 2º Seminário Jeholu de Políticas Públicas e Cultura das Tradições de Matrizes Africanas, que acontece entre os dias 11 e 14 de agosto. Construído pelas próprias comunidades de terreiro, o encontro busca fortalecer sua capacidade de incidência política, ampliar o diálogo entre diferentes territórios e afirmar que seus conhecimentos precisam ocupar lugar central nas decisões que moldam o futuro do país. 

A abertura, no dia 11 de agosto, no Sesc Bom Retiro, em São Paulo, terá um significado especial. Além de marcar o início das atividades, será um momento de celebração da trajetória das comunidades tradicionais de matriz africana e de homenagem ao Pejigan Rafael Pinto, referência histórica da luta antirracista e da defesa dos povos de terreiro. Nos dias seguintes, a programação prossegue em Guararema (SP), reunindo lideranças religiosas, intelectuais negros, educadores, artistas, representantes de movimentos sociais, gestores públicos e integrantes de diferentes comunidades tradicionais. 

Foto: Reprodução/Instagram

Ao longo do encontro, serão compartilhadas experiências e reflexões sobre temas como patrimônio, educação, cultura, infância, juventude, racismo religioso, justiça climática, racismo ambiental, memória, ancestralidade e valorização dos saberes tradicionais. Não se trata de falar sobre os terreiros, mas de falar a partir deles. 

Essa mudança de perspectiva é fundamental. Durante muito tempo, as tradições de matrizes africanas foram estudadas como objeto. Hoje, afirmam-se como produtoras de pensamento, capazes de elaborar diagnósticos, formular propostas e contribuir diretamente para a construção de políticas públicas mais democráticas e comprometidas com a diversidade brasileira. 

Os desafios enfrentados pelas comunidades de terreiro continuam sendo numerosos. A violência motivada pelo racismo religioso, a dificuldade de acesso às políticas culturais, a ausência de mecanismos permanentes de proteção do patrimônio material e imaterial, a invisibilidade estatística e a baixa participação nos espaços institucionais de decisão demonstram que ainda existe uma longa distância entre o reconhecimento formal e a garantia efetiva de direitos. 

Por isso, fortalecer a organização dessas comunidades significa fortalecer a própria democracia. Não existe democracia plena quando uma parcela significativa da população continua impedida de participar da definição das políticas que dizem respeito à sua existência, à sua memória e às suas formas de viver. 

A Ocupação Cultural Jeholu nasce dessa mesma tradição de resistência. Sua atuação parte do princípio de que os conhecimentos produzidos nos terreiros não precisam ser traduzidos ou legitimados por instituições externas para adquirir relevância pública. Eles já constituem um patrimônio intelectual, político e civilizatório capaz de oferecer respostas concretas para desafios contemporâneos, como a promoção da equidade racial, a preservação ambiental, a valorização da diversidade cultural e a construção de formas mais solidárias de organização social. 

Quando as comunidades de terreiro ocupam os espaços públicos, não levam apenas suas reivindicações. Levam também experiências históricas de convivência, práticas de cuidado coletivo e modos de compreender o mundo que desafiam modelos baseados na exclusão e na desigualdade. 

O Brasil só poderá construir políticas públicas verdadeiramente inclusivas quando reconhecer que esses saberes não pertencem às margens da sociedade, mas ao centro da nossa história e das possibilidades de futuro. Valorizar a ancestralidade não significa olhar para trás. Significa reconhecer que ela continua produzindo caminhos para enfrentar os desafios do presente e imaginar novas formas de construir o comum. 

 

Felipe Brito é jornalista, doutor pelo Programa Diversitas (USP), mestre em Políticas Públicas, documentarista e diretor-geral da Ocupação Cultural Jeholu. 

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