RÚSSIA, REINO UNIDO E O RISCO DA ESCALADA

Quando a guerra deixa de ter fronteiras

A guerra da Ucrânia já não pode ser compreendida exclusivamente como um conflito entre Moscou e Kiev 

Desde 2022, a ampliação do apoio militar ocidental transformou progressivamente o teatro de operações em um espaço mais amplo de confrontação, no qual se cruzam interesses russos, europeus e norte-americanos. Armas de longo alcance, sistemas de inteligência, treinamento militar, sanções econômicas e cooperação tecnológica produziram uma zona cada vez mais difícil de definir entre o apoio externo a um dos beligerantes e a participação nas condições materiais da guerra. 

O Reino Unido ocupa posição particularmente sensível nesse processo. Londres tornou-se um dos principais apoiadores europeus da Ucrânia, fornecendo armamentos, treinamento e assistência militar, enquanto amplia a pressão econômica sobre Moscou. Em agosto de 2026, o governo britânico anunciou novas sanções contra setores relacionados à indústria militar, às receitas energéticas e à chamada shadow fleet russa. Para Londres, tais medidas integram o apoio legítimo a um Estado soberano que resiste à invasão de seu território. Moscou, entretanto, procura interpretar de maneira distinta o emprego de armamentos ocidentais, sobretudo quando utilizados contra alvos sob controle russo. Em 27 de agosto, o governo russo chegou a advertir sobre a possibilidade de atingir alvos militares britânicos em resposta ao emprego de mísseis Storm Shadow pela Ucrânia. 

É nessa diferença de percepção que se encontra um dos principais riscos da conjuntura atual. O problema ultrapassa a discussão jurídica sobre quem pode ser formalmente considerado beligerante. A guerra contemporânea desenvolveu uma extensa zona intermediária entre a paz e a confrontação militar direta. Inteligência por satélite, ataques cibernéticos, sabotagem, operações clandestinas, drones, sanções e transferência de armamentos permitem que Estados intervenham profundamente na capacidade militar de aliados sem necessariamente ingressarem formalmente no conflito. A fronteira jurídica pode permanecer relativamente nítida; a fronteira estratégica, muito menos. 

Essa ambiguidade não surgiu em 2022. As relações entre Rússia e Reino Unido já haviam sido deterioradas por acusações de espionagem, expulsões diplomáticas, sanções e divergências acerca da arquitetura de segurança europeia. A invasão russa da Ucrânia, entretanto, alterou a escala dessas tensões. Na Declaração da Cúpula de Ancara, de julho de 2026, a OTAN voltou a apresentar a Rússia como uma ameaça de longo prazo à segurança euro-atlântica e reafirmou simultaneamente o fortalecimento de suas capacidades militares e a continuidade do apoio à Ucrânia. 

Crédito: Stenbocki maja/Flickr

Surge daí um paradoxo clássico da política internacional. Aquilo que um Estado apresenta como instrumento defensivo pode ser interpretado pelo adversário como ameaça. Robert Jervis definiu esse mecanismo como “dilema de segurança”: medidas adotadas para ampliar a segurança de um ator podem produzir insegurança no outro, desencadeando novas medidas defensivas e alimentando um movimento cumulativo de militarização. A questão não consiste, portanto, em estabelecer uma equivalência entre a invasão russa e a reação ocidental, mas em compreender como a guerra produziu uma dinâmica de ação e reação que progressivamente aproxima atores que procuram, ao menos formalmente, evitar uma confrontação direta. 

Uma eventual crise entre Rússia e Reino Unido provavelmente não assumiria inicialmente a forma clássica de uma declaração de guerra. Poderia surgir de um ataque contra instalações consideradas estratégicas, da morte de militares britânicos, de uma operação clandestina, de um incidente envolvendo armamentos fornecidos a Kiev ou de uma ação cibernética contra infraestrutura crítica. O perigo estaria sobretudo na sequência. Uma retaliação concebida como limitada por Moscou poderia ser interpretada por Londres como agressão que exige resposta; a reação britânica poderia, por sua vez, ser apresentada pelo Kremlin como confirmação de participação direta no conflito. 

Thomas Schelling demonstrou há décadas que a escalada não depende necessariamente da intenção original de produzir uma guerra generalizada. Em situações de elevada tensão, ameaças, compromissos e retaliações podem alterar progressivamente os limites considerados aceitáveis pelos adversários. A história das grandes guerras recomenda, nesse aspecto, alguma prudência diante da crença de que os governos conservarão indefinidamente o controle sobre todas as consequências de suas decisões. A Europa de 2026 não reproduz 1914, mas permanece válida a advertência histórica sobre a capacidade das alianças, da militarização e das percepções equivocadas de ampliarem conflitos inicialmente circunscritos. 

Existe, entretanto, uma diferença decisiva: Rússia e Reino Unido são potências nucleares. A existência desses arsenais funciona como poderoso mecanismo de dissuasão justamente porque eleva os custos potenciais de uma confrontação direta a níveis dificilmente conciliáveis com qualquer objetivo político racional. Mas a dissuasão não elimina o perigo; ela o administra. Depende de comunicação, previsibilidade e, sobretudo, da capacidade de cada lado de compreender corretamente os limites e as intenções do adversário. Quanto mais ambíguas se tornam as fronteiras entre envolvimento indireto e participação militar, mais delicada se torna essa administração. 

O aspecto mais preocupante da conjuntura europeia talvez não seja, portanto, a iminência de uma guerra direta entre Rússia e Reino Unido, para a qual não existem elementos suficientes que autorizem uma afirmação categórica. É a normalização gradual da escalada como instrumento da política. Armas de maior alcance, expansão dos gastos militares, operações cibernéticas, sanções, ameaças de retaliação e fortalecimento das capacidades de ataque passam a integrar o funcionamento cotidiano das relações internacionais. A denominada Operação Especial russa na Ucrânia ocupa lugar incontornável na origem desse processo, mas seus efeitos já ultrapassam amplamente as fronteiras ucranianas. 

A guerra transformou-se, assim, em um dos espaços nos quais se redefinem os próprios limites da confrontação entre grandes potências no século XXI. Guerras de grandes proporções não precisam resultar de uma decisão única e consciente de iniciá-las. Podem emergir da acumulação de decisões apresentadas individualmente como necessárias, proporcionais ou defensivas. Quando esse processo envolve Estados dotados de armas nucleares, impedir que a escalada adquira dinâmica própria deixa de constituir apenas um problema militar. Torna-se uma questão fundamental da política internacional contemporânea. 

 

Cássia Muniz é internacionalista e analista de política internacional, com foco em segurança internacional e geopolítica contemporânea. 

 

Referências 

JERVIS, Robert. Cooperation under the Security Dilemma. World Politics, v. 30, n. 2, p. 167–214, 1978. 

NATO. Relations with Russia. Brussels: North Atlantic Treaty Organization, 2024. NATO. Relations with Ukraine. Brussels: North Atlantic Treaty Organization, 2026. 

NATO. The Ankara Summit Declaration. Brussels: North Atlantic Treaty Organization, 8 jul. 2026. 

SCHELLING, Thomas C. Arms and Influence. New Haven: Yale University Press, 1966. 

UNITED KINGDOM. Foreign, Commonwealth & Development Office. UK continues crackdown on Russia with tough new sanctions. London, 6 ago. 2026. 

REUTERS. Russia says it could strike UK military targets in response to Kyiv’s use of British missiles. 27 ago. 2026. 

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