Quando a Iugoslávia apoiava as lutas anticoloniais - Le Monde Diplomatique

O EXEMPLO DE UM PAÍS NÃO ALINHADO

Quando a Iugoslávia apoiava as lutas anticoloniais

Edição - 135 | Iugoslávia
por Jean-Arnault Dérens
1 de outubro de 2018
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A explosão da Iugoslávia nos anos 1990 oculta a relevância que o país já teve nas relações internacionais. Belgrado manifestava abertamente apoio às grandes lutas de libertação nacional, em particular na África, enquanto a URSS, preocupada em não piorar o relacionamento com os Estados Unidos e com as antigas potências coloniais, mostrava-se mais prudente

Algumas imagens despertam a nostalgia de uma época passada: a dos líderes do movimento não alinhado tentando estabelecer as bases de uma nova ordem mundial, ou então as do marechal Josip Broz Tito (1892-1980), presidente da República Socialista Federativa da Iugoslávia (RSFI), em imponente uniforme branco de desfile, recebendo em sua casa de campo na ilha de Brioni, no norte do Adriático, os líderes dos países recém-descolonizados ou dos movimentos de libertação da África e da Ásia.

Para a Iugoslávia, banida do bloco socialista estreitamente controlado por Moscou após o rompimento de 1948, o apoio às lutas anticoloniais foi um meio de impor sua presença no cenário internacional e jogar no terreno dos grandes. Enquanto a União Soviética e o Partido Comunista Francês encaravam com desconfiança os atentados de La Toussaint de 1954, que lançaram a Guerra de Independência da Argélia, a delegação iugoslava foi a primeira a difundir a voz da Frente de Libertação Nacional (FLN) no âmbito das Nações Unidas.

“Tito e o núcleo duro da Liga dos Comunistas Iugoslavos realmente viam nas lutas de libertação do Terceiro Mundo uma réplica de seu próprio combate contra os ocupantes fascistas da Segunda Guerra Mundial. Eles vibravam no ritmo dos avanços ou dos recuos da FLN ou do Vietcong”, recorda Danilo Milić. Esse ex-diplomata começou sua carreira no início dos anos 1960 para finalizá-la em 2011, depois de ter servido na Guiné, em Serra Leoa, no Gabão, na Guiné-Bissau, em Angola e na República Democrática do Congo, representando os avatares sucessivos de seu país: a RSFI, depois a “pequena Iugoslávia” recriada em 19921 e, finalmente, a Sérvia. “Nós também fomos colonizados, seja pelo Império Otomano, seja pela Áustria-Hungria. Isso nos tornou particularmente sensíveis às situações coloniais”, afirma.

Sem ter formado um corpo de doutrina, o titismo é acima de tudo uma prática política, forjada na experiência de luta dos resistentes partisans durante a Segunda Guerra Mundial. Josip Broz2 era um apparatchik treinado na rude escola da GPU – polícia política soviética, que empregava muitos agentes estrangeiros – e um sobrevivente dos expurgos da Comintern (a Internacional Comunista), que rapidamente pretendeu jogar seu próprio jogo no quadro da guerra de libertação, sem levar em conta as instruções de Moscou. Deslocando para segundo plano a revolução socialista, a URSS apelava então para uma união de todos os movimentos de resistência, sobretudo com os tchetniks, a força de resistência quase exclusivamente sérvia fiel ao governo real iugoslavo exilado em Londres. Para Tito, ao contrário, a luta contra os ocupantes fascistas e nazistas era inseparável daquela para a criação de um novo Estado socialista e federal.3

Apoio à insurreição argelina

O peso do movimento dos partisans o autorizou a impor sua linha. Em 1943, ele chegou a obter o precioso apoio dos britânicos, que libertaram os tchetniks. A Iugoslávia foi, com a Albânia, o único país europeu libertado por sua resistência interna, com os avanços do Exército Vermelho no nordeste da Sérvia, no outono de 1944, desempenhando apenas um papel marginal. Tito tirou disso a legitimidade que lhe permitiu enfrentar Josef Stalin depois de 1948. Mesmo tendo ocorrido uma repressão impiedosa sobre os “stalinistas” iugoslavos, o regime dispunha de uma base popular de que estavam desprovidos os partidos comunistas do Leste Europeu chegados ao poder nos furgões do Exército Vermelho. Aliás, era essa independência que Stalin não podia aceitar e que levou os soviéticos a acusar o Partido Comunista Iugoslavo de “desvio nacionalista”.

Originalmente, no entanto, o novo regime de Belgrado se via como uma cópia fiel do modelo soviético. Inovações, como a introdução da autogestão socialista teorizada pelo esloveno Edvard Kardelj (1910-1979), só foram surgindo gradualmente. Em um mundo bipolar paralisado pela Guerra Fria, um compromisso resoluto com a descolonização seria fundamental para a difusão internacional da Iugoslávia. Em parte por oportunismo: não apenas Tito, isolado no movimento comunista, precisava de aliados e parceiros, como devia também e sobretudo provar a validade do socialismo “diferente” que seu país estava experimentando. Por fim, ele teve a inteligência de sentir as possibilidades oferecidas por um mundo em plena turbulência. “A União Soviética e os partidos comunistas que estavam subordinados a ela levaram muito tempo para entender a dinâmica das lutas anticoloniais de libertação”, Milić continua. “Na visão deles, teria sido necessário que os partidos comunistas tomassem o poder nas metrópoles para então conceder liberdade aos povos colonizados! Além disso, a União Soviética era obcecada por suas relações com o campo ocidental. A distensão era uma necessidade vital para ela, o que a levou a sempre escolher o partido do status quo. Ela não queria tomar nenhuma iniciativa que pudesse desagradar ao Reino Unido ou à França…” Por seu lado, a Iugoslávia soube tirar proveito de seu posicionamento singular. Ela se destacou muito rapidamente na arte sutil de jogar com as tensões entre os dois blocos, derrubando alternadamente as cartas de aproximação com o Ocidente e com a União Soviética.

Belgrado não participou da Conferência Afro-Asiática de Bandung em 1955,4 mas Tito foi, no ano anterior, o primeiro chefe de Estado europeu a visitar a Índia após a independência daquele país. Ele então encontrou Jawaharlal Nehru e o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser na casa de campo de Brioni, em 19 de julho de 1956, estabelecendo as bases do não alinhamento. Ao lado dessa efervescência diplomática, a Iugoslávia se envolveu de forma muito intensa no apoio à Revolução Argelina. Em 19 de janeiro de 1958, a Marinha Francesa inspecionou, ao largo de Orã, o navio de carga Slovenija, cujos porões estavam cheios de armas destinadas aos insurretos. Os meios de comunicação iugoslavos também ficaram famosos por seu tratamento da guerra: o jornalista montenegrino Stevan Labudović (falecido em novembro de 2017) se uniu às unidades da FLN em 1959. De câmera na mão, filmou todas as lutas, até o final do conflito.

Os anos que se seguiram à Revolução Argelina trouxeram sua parcela de desilusões. Muito forte sob a presidência de Ahmed ben Bella, a influência iugoslava em Argel foi reduzida após o golpe de Houari Boumédiène, em 1965. Mas outras frentes de luta não demoraram a emergir. A Iugoslávia enviou milhares de colaboradores para a Guiné após a partida dos franceses em 1958 e deu forte apoio aos movimentos de libertação das colônias portuguesas.

O assassinato, em 1961, do primeiro-ministro congolês Patrick Lumumba, qualificado por Tito de “o maior crime da história contemporânea”, depois a rivalidade cada vez mais forte entre chineses e soviéticos na África, nas décadas de 1960 e 1970, impediram a formação de um eixo socialista do Terceiro Mundo, do qual Belgrado poderia ter assumido a liderança. Mas as lutas anticoloniais permitiram que a Iugoslávia, que sofria ela própria com o subdesenvolvimento, multiplicasse sua influência. “Muitas vezes, arbitragens difíceis foram processadas. Não hesitávamos quando se tratava de fornecer armas para as revoluções africanas, mesmo que em certas regiões de nosso próprio país faltasse tudo”, diz Milić.

Tito viajou para a África várias vezes, sempre a bordo de seu iate, o Galeb, dando pretexto para a formação de coleção de esplendor faraônico. Na primavera de 1961, durante uma viagem de 72 dias, ele visitou Gana, Togo, Libéria, Guiné, Mali e Tunísia. Ele embarcou com presentes luxuosos e um conjunto de 1.400 pessoas, incluindo cinquenta cantores e músicos, ao lado de muitas costureiras de sua esposa, Jovanka Broz, que gostava de exibir uma roupa diferente em cada escala. O presidente guineense Kwame Nkrumah via nele “o estadista contemporâneo mais realista […], aquele que melhor entendeu a África”.5 Apesar dos excessos da “corte” de Tito, os diplomatas iugoslavos tinham a capacidade de falar com seus colegas africanos sem paternalismo, porque seu próprio país nunca tinha sido uma potência colonial.

O visitante do Memorial de Belgrado – a Casa das Flores, que abriga o mausoléu do ex-presidente, o Museu da História da Iugoslávia e o Museu de Arte Africana – não pode, no entanto, deixar de se surpreender com a escassez de referências à África do Sul e à luta contra o apartheid. O regime iugoslavo considerou que o Congresso Nacional Africano (ANC) estava muito ligado à União Soviética e mantinha relações privilegiadas com seu rival, o Congresso Pan-Africano (PAC). “Queríamos apoiar todos os movimentos de libertação sul-africanos, mas os militantes comunistas dentro do ANC tinham uma cultura muito stalinista… Em sua visão, quem não estava completamente com eles era contra eles, e eles desconfiavam da Iugoslávia, porque queríamos manter relações com o PAC”, Milić se justifica.

Por outro lado, na década de 1980 a Iugoslávia formou em suas escolas militares centenas de oficiais da Organização do Povo do Sudoeste Africano (Swapo), o movimento de libertação da Namíbia. Ela manteve relações estreitas com Angola e Moçambique após a independência desses países, em 1975. Esses mesmos países forneceram um apoio importante ao ANC, enquanto Angola enfrentava a guerrilha de Jonas Savimbi, acompanhada e financiada por Pretória.

Em 1980, os serviços secretos sul-africanos, em parceria com seus homólogos argentinos (país que viveu sob o regime da Junta Militar entre 1976 e 1983), iniciaram uma vasta operação que resultaria no desembarque de 1.500 guerrilheiros croatas anticomunistas na Iugoslávia, país considerado um dos principais focos da “subversão comunista”, como revelado por documentos que recentemente deixaram de ser classificados como secretos pelo Exército sul-africano.6 A operação, que visava derrubar o regime iugoslavo, estava prevista para o verão, durante os Jogos Olímpicos de Moscou, com Pretória supondo que a União Soviética estaria muito ocupada para reagir. Mas os espiões sul-africanos não avaliaram corretamente o estado real das relações entre a Iugoslávia e Moscou. Após a intervenção soviética no Afeganistão, em dezembro de 1979, Belgrado realmente aumentou o nível de alerta de suas forças armadas, temendo um gesto hostil do Pacto de Varsóvia7 – a obsessão de Tito até seu último dia.

 

Uma herança dilapidada

Em setembro de 1979, o marechal fez sua última grande viagem a bordo do Galeb para ir a Havana. Na plataforma da Sexta Conferência do Movimento dos Não Alinhados, ele se opôs com sucesso à orientação pró-soviética que Fidel Castro queria imprimir ao movimento. De qualquer forma, a decisão dos Estados Unidos de boicotar os Jogos Olímpicos e a morte de Tito, em 4 de maio de 1980, levaram os sul-africanos a cancelar a operação, enquanto o enterro do fundador da Iugoslávia socialista foi a ocasião de um dos maiores encontros de chefes de Estado e de governos de toda a Guerra Fria – com as notáveis exceções do presidente francês Valéry Giscard d’Estaing, seu colega norte-americano Jimmy Carter e Fidel Castro.

Os Estados sucessores da Iugoslávia não desistiram imediatamente do legado dessa influência internacional. Em 2006, quando o presidente croata Stjepan Mesić visitou Havana, ele cuidou de estar acompanhado de um veterano da diplomacia iugoslava, Budimir Lončar, que foi, de 1987 a 1991, o último ministro de Relações Exteriores da RSFI e muitas vezes serviu de intermediário entre Tito e Castro, cujas relações eram, por vezes, tempestuosas. A Croácia permaneceu como membro do Movimento dos Países Não Alinhados até ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 2009. Em 2008, quando o Kosovo proclamou unilateralmente sua independência, o então ministro das Relações Exteriores da Sérvia, Vuk Jeremić, iniciou uma viagem mundial para dissuadir o maior número possível de países a reconhecer o novo Estado. Para isso, usou sobretudo os fóruns de organizações em que a Sérvia ainda tinha status de observador, como a União Africana e a Organização da Conferência Islâmica. Belgrado estava, assim, tentando – não sem sucesso – ressuscitar as redes moribundas do não alinhamento para seu próprio benefício.8 Essa abordagem utilitarista, para não dizer recuperação, do prestígio internacional da antiga Federação não devia, no entanto, alimentar ilusões. Como destaca Ana Sladojević, curadora, em 2017, de uma exposição sobre Tito e a África no Museu de História da Iugoslávia, em Belgrado, “o anticolonialismo e o antifascismo fazem parte desse legado iugoslavo que todos os países sucessores buscam hoje esquecer”.

 

*Jean-Arnault Dérens é jornalista no site Courrier des Balkans. Coautor, com Laurent Geslin, de Là où se mêlent les eaux. Des Balkans au Caucase, dans l’Europe des confins [Onde as águas se misturam. Dos Bálcãs ao Cáucaso, na Europa dos confins], La Découverte, Paris, 2018.

 



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