Quando as bruxas dançam - Le Monde Diplomatique

Perseguição ao trabalho cientifíco

Quando as bruxas dançam

por Renato Dias Baptista
13 de agosto de 2020
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A liberdade sempre incomodou o pensamento estacionário. É diante disso que, no que diz respeito à ciência, ela volta a sofrer o encalço de muitos, principalmente quanto ela ‘dança’ para comemorar os resultados das pesquisas

Enquanto a liberdade se manifesta, a tirania revela seu melhor padrão de controle. Basta analisar os dados de outras épocas para comprovar que as instituições mais desvairadas fitavam as expressões que não estavam vinculadas à ideologia vigente. A eliminação do ‘outro’ poderia ocorrer de diferentes formas a depender do que se maculava.

Na inquisição, talvez dissessem que era melhor esperar as bruxas dançarem para poder caçá-las. Afinal, é preciso manifestar a liberdade para ser identificado, e todos sabem que os sentimentos se expressam no comportamento por meio de uma ampla variedade de linguagens.

Bruxas, a propósito, como destaca a obra Les Sorcières – Une histoire de femmes – de Céline Du Chéné, tem poderes que perturbam, são fascinantes e atraentes para alguns, mas perigosas e malignas para outros. Assim, não é preciso uma longa abstração alegórica para perceber que essas características também são encontradas, por exemplo, no pensamento cientifico.

A liberdade sempre incomodou o pensamento estacionário. É diante disso que, no que diz respeito à ciência, ela volta a sofrer o encalço de muitos, principalmente quanto ela ‘dança’ para comemorar os resultados das pesquisas.

A ‘dança’ também visa celebrar a chegada de uma fase de abundância. Sim, pois a cada avanço se veem ampliadas as novas formas de solucionar problemas ou para reescrever os caminhos daqueles que são excluídos de saúde, educação, segurança, habitação, saneamento (…).

No entanto, é importante lembrar que os resultados científicos não surgem instantaneamente, são necessários múltiplos conhecimentos, recursos e dedicação para que uma pessoa ou sociedade usufrua os benefícios. Isso pode ocorrer, entre tantos exemplos, no apertar de um botão do elevador, em decifrar culturas, sair restabelecido de um hospital ou estar imunizado contra uma doença.

Claro, nada disso ocorre por acaso, são necessárias políticas públicas alinhadas aos objetivos científicos; em síntese significa investir em ciência em todos os momentos da aprendizagem. Embora o ápice da ciência esteja nas universidades e institutos de pesquisa não-universitários, sobretudo federais e estaduais, o pensamento científico e seus investimentos devem permear a vida das pessoas; das escolas ao ensino superior. Os primeiros anos nas instituições educacionais são fundamentais para que a concepção sobre a ciência seja formada e, principalmente, valorizada. Essa é uma fase onde muitas ideologias podem massacrar a criatividade.

Nesse aspecto, a ciência não pode se abster do caminho da política. Em várias ocasiões Edgar Morin evidenciou que “A política trata do que há de mais complexo e mais precioso: a vida, o destino, a liberdade dos indivíduos, das coletividades, e, por conseguinte, da humanidade. No entanto, é na política que reinam as ideias mais simplistas, menos fundamentadas, mais brutais, mais mortíferas. É o pensamento menos complexo que reina nessa esfera que é a mais complexa de todas”.

Se não existe coerência naqueles que adulam o pensamento elementar, para gerar distanciamento do cenário apresentado por Morin é imprescindível a participação política dos pesquisadores; como também de todos que são privados de democracia, já que, como disse George Orwell “A imaginação não se reproduz em cativeiro“. Enquanto isso não acontece, ainda será preciso insistir aos súditos da intolerância que a ciência tem um evidente papel na evolução do país.

Retomando a analogia inicial, em Cartagena há uma arquitetura colonial onde é possível observar telhas em forma de lança que, segundo o pesquisador Francisco Guerra, as lendas locais relatam que serviam para afugentar bruxas ao impedi-las de pousar sob um telhado. Essas recomendações figurativas, insensatez ou futilidades cognitivas, entre inúmeras outras, tem origem naqueles que sempre quiseram amedrontar para fiscalizar e limitar o pensamento criativo. Mas, assim como nas lendas desses poderes simbólicos, a liberdade não pode ser controlada.

Por fim, na letra da música ‘Podres Poderes’, de Caetano Veloso, existe uma pergunta que devemos responder: A incompetência da América “católica” não precisa de ridículos tiranos.

 

Renato Dias Baptista é doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professor associado da Universidade Estadual Paulista, UNESP.



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