Quando mandam os mercados - Le Monde Diplomatique

ESPANHA

Quando mandam os mercados

por Nazaret Castro
14 de dezembro de 2011
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A férrea pressão dos mercados, da União Europeia e do FMI, torna difícil pensar que o governo espanhol poderia pôr em prática outro tipo de políticas – na Grécia e na Itália os mercados já derrubaram governos – e preocupa os defensores do Estado de bem-estar, pois o Partido Popular tem maioria nas câmaras legislativas.Nazaret Castro

Apesar de ser batido, não deixa de ser verdade. Não foi o Partido Popular (PP) que ganhou a eleição de 20 de novembro na Espanha, foi o Partido Socialista (PSOE) que a perdeu. Depois de oito anos na frente do governo, José Luis Rodríguez Zapatero deixa o país com cinco milhões de desempregados – 22% da população ativa, o dobro no caso dos jovens, no meio da mãe de todas as crises que atinge a Europa; na Espanha ela tem características próprias, sobretudo, pela espetada da bolha imobiliária.

O terreno ficava aplanado ao partido da direita para arrasar na votação, e foi assim mesmo. O PP adicionou apenas 500 mil votos em comparação com a eleição de 2008, enquanto o PSOE perdeu 4 milhões de votos, que foram repartidos entre a abstenção – o voto não é obrigatório na Espanha – e partidos minoritários como Izquierda Unida, que obteve seus melhores resultados em mais de uma década.

Quem confiou em Zapatero quando, em 2004, ao grito de “Não nos decepcione”, o levou à presidência em retaliação às mentiras do PP após atentados de 11 de março em Madri não perdoaria as dúvidas e improvisações após o estouro da crise financeira internacional em 2008. E os eleitores de esquerda vão demorar muito para esquecer a presteza com que os “socialistas” obedeceram às imposições desse ente abstrato que a imprensa chama “mercados” e aplicaram os “cortes” impostos pela ortodoxia neoliberal, incluindo uma reforma constitucional que, feita às pressas, coloca como prioridade inquestionável o pagamento da dívida.

Do outro lado, Mariano Rajoy, candidato pela terceira vez do conservador PP, acudia às urnas com a tranquilidade de quem se sabe ganhador de antemão, e passava a campanha eleitoral sem outra preocupação que não dizer nada polêmico demais – isto é, não revelar quais serão esses “cortes” com os quais fechará as contas – e repetir um milhão de vezes a palavra “emprego”, a primeiríssima preocupação dos espanhóis. Antes do 20-N, Rajoy apontava o governo como o único culpado da péssima situação da economia, que seria resolvida assim que um governo “sério” levasse confiança aos “mercados”. Já passada a eleição, e até mesmo um pouco antes, ele moldava seu discurso e lembrava que “avançar não é tarefa de um só governo, mas da nação inteira”. Ainda guarda a carta na manga sobre o futuro ministro de Economia, que dará uma dica da linha do Governo, assim que Rajoy tome posse no dia 19 de dezembro. Porém, boa parte da sociedade espanhola, especialmente os 11 milhões de cidadãos que votaram por Zapatero em 2004, acham que a margem de ação do novo presidente será estreita, limitada àquilo que permitam esses “mercados” – eufemismo para denominar os especuladores que movimentam grandes capitais e podem marcar tendências, isto é, entidades financeiras e uns poucos multimilionários – que, no meio da crise do euro, têm cada vez mais controle da situação, mesmo que isso seja paradoxal, já que eles mesmos provocaram a crise mundial.

Os defensores do neoliberalismo já começaram a mostrar suas cartas: desde as agências classificadoras de risco até o vice-presidente britânico, Nick Clegg, têm lembrado à Rajoy que ele deve empreender com prontidão as “reformas” – também não se especifica quais – mesmo que sejam “impopulares” e coloquem em risco “a paz social”. Enquanto isso, boa parte da sociedade civil é cada vez mais consciente de que deverá se mobilizar se não quiser assistir à destruição em poucos anos desse Estado de bem-estar que, embora na Espanha esteja longe dos sucessos no norte da Europa, pode-se ainda se vangloriar de alguns serviços públicos de qualidade.

Os indignados do movimento 15-M estão se articulando; os sindicatos devem ser mais ativos com o partido conservador no poder. E, em geral, os espanhóis olham o futuro com pessimismo, entretanto percebe-se no discurso uma mudança profunda: cada vez mais pessoas acham que é necessário mudar o sistema para melhorar a situação e que o capitalismo descontrolado simplesmente não dá mais.

 

De olho nos serviços públicos

A férrea pressão dos mercados, da União Europeia, do FMI e da chanceler alemã, Angela Merkel, torna difícil pensar que outro governo poderia pôr em prática outro tipo de políticas – na Grécia e na Itália os mercados já derrubaram governos – e preocupa os defensores do Estado de bem-estar, já que o PP tem maioria nas câmaras legislativas. Há motivos para a preocupação, pois naqueles governos regionais[1]controlados pelo PP durante os últimos anos, como Madri e Valência, o serviço público já foi muito sucateado.

Madri é um caso paradigmático: a presidenta do governo madrilenho, Esperanza Aguirre, símbolo da linha mais neoliberal do PP, tem fomentado um modelo elitista na educação. As escolas públicas, com menos recursos, são obrigadas a acolher os imigrantes chegados no país nos anos de bonança econômica, enquanto o Estado entrega fundos públicos a escolas privadas que negam a admissão de alunos “problemáticos”. Assim, em algumas escolas públicas de Madri os professores devem lidar com 70-80% de alunos estrangeiros, com línguas e níveis de formação diferentes, enquanto o Estado banca centros bilíngues e elitistas e fala da excelência da educação – excelência para quem?

Como aponta o catedrático de Ciência Política Jaime Pastor, a mobilização social, começando pelo movimento do 15-M, deverá focalizar na defesa dos serviços públicos, sobretudo os três pilares da sociedade do bem-estar: saúde, educação e aposentadoria. O consenso em torno desses pilares é geral na sociedade espanhola, mas, assim como no resto da Europa, a população assiste há três anos a um cenário de caos que a imprensa desenha a cada dia, ameaçando com o fim do euro, o calote dos Estados e apontando como única solução a ortodoxia do déficit e “cortes” que, entre outras cosas, significam privatizações. O programa eleitoral do PP, mesmo que cheio de eufemismos e longe da concretude, deixa ver a inclinação por essa opção, e assinala a Renfe – a empresa ferroviária, talvez a única estatal que ainda é rentável – como próxima vítima.

As eleições do 20-N foram históricas por vários motivos. A vitória histórica do PP; a derrota histórica do PSOE; a campanha eleitoral mais vazia e patética da jovem democracia espanhola; a primeira votação sem a ameaça do terrorismo do ETA; o alto número de indecisos que, ainda no dia da eleição, foram às urnas se perguntando qual cédula colocar na urna.

Mas, sobretudo, as eleições do 20-N passarão à história como o momento no qual os espanhóis perceberam que o novo inquilino de La Moncloa – a residência presidencial – não é tão importante. Porque o futuro da Espanha se decide em Bruxelas e Berlim, não em Madri. Porque a sociedade compreendeu de repente que nos roubaram a política; que, se “os mercados” mandam, não somos nós que mandamos. E, então, a resposta não está mais nas urnas.

Nazaret Castro é Jornalista espanhola, correspondente no Brasil.



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