Que fazer com o diploma na parede? - Le Monde Diplomatique

CHINA

Que fazer com o diploma na parede?

por Jean Louis Rocca
1 de maio de 2007
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As incertezas do mercado de trabalho atingem também os universitários. Uma parte consegue ótimos postos de trabalho. Outra se debate entre desemprego, funções que não correspondem a sua capacidade, barreiras regionais contra “forasteiros” e conservadorismo das famíliasJean Louis Rocca

O jornal semanal Nanfang zhoumo (“O Fim-de-semana do Sul”) publicou, na edição de 26 de abril de 2006, uma reportagem dramática sobre a situação de um jovem formado em publicidade pela universidade de Economia e Finanças da província de Anhui. Ele rejeitou um emprego de 1400 Yuans por mês em sua província, pensou que poderia encontrar um melhor em outro lugar, e partiu para o sul. Em Guangzhou, não conseguiu mais do que um salário de 600 por mês e em Shenzhen, apenas remuneração comissionada, sem salário fixo. Enfim, acabou seguindo os passos dos pais, empregados em uma fábrica de sapatos, ganhando 800 Yans por mês.

Os jovens desempregados vivem no que chamam de “pensões de 10 Yuans” (shiyuandian) e passam a maior parte do tempo enviando currículos e passando por entrevistas.

Alguns não ousam voltar para casa porque devem dinheiro à família ou aos amigos e não podem se “desmoralizar” voltando à província. Outros são a esperança da família inteira: é absolutamente inconcebível que um jovem formado em uma universidade de Beijing, mesmo que pequena, não possa encontrar um bom trabalho em uma das metrópoles da costa.

Além do aumento do número de formados, tais dificuldades devem-se a muitos tipos de fenômenos. Para muitos estudantes, um trabalho em uma cidade do Leste é associado a melhores oportunidades de emprego, salários mais altos e, sobretudo, à perspectiva de carreiras mais atraentes. Mesmo os formados em agronomia querem morar nas grandes metrópoles.

A força das barreiras regionais

Alguns graduados gostariam de encontrar trabalho nas cidades do Centro ou do Oeste, mas não sendo originários dessas regiões, não têm chance alguma de encontrar um bom emprego: as vagas são totalmente monopolizadas pelos que têm boas relações nesses lugares.

Muitos estudantes são constrangidos a ir para as metrópoles, onde o mercado de trabalho não depende tanto dessas redes de relacionamento. Além disso, a considerável redução das oportunidades de emprego oferecidas pelo governo ameaça as perspectivas dos estudantes de nível médio ou que têm especialização em áreas pouco apreciadas no mercado de trabalho. Os níveis de aprovação nos concursos públicos estão muito baixos. Os que são aprovados são considerados “heróis dos estudos”.

Contudo, o desemprego atinge desigualmente os estudantes. Citada no mesmo número do Nanfang zhoumo, uma outra pesquisa revela que 55% dos estudantes que têm diploma de licenciatura (benkesheng) da universidade de Fudan (Xangai), uma das mais importantes universidades chinesas, encontraram emprego em 2005. Os da universidade de Beijing também estão na mesma situação. Já o número de doutores aumentou — e esses não encontram nenhum problema em conseguir emprego, especialmente em laboratórios de pesquisa, onde a remuneração é muito boa.

Tradução: Patrícia Andrade
pat.patricia@voila.fr

Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

Beijing redescobre a questão social

Uma nova lei de incentivo ao emprego chama atenção para o quebra-cabeças em que se transformou o mundo do trabalho na China. A “oficina do mundo” já oferece salários



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