QUEM CONTROLA AS FERRAMENTAS QUE USAM ESSES REGISTROS PARA REPRESENTAR O QUE AINDA NÃO EXISTE?

Quem está imaginando o nosso futuro

Quanto mais poder temos para fabricar imagens do futuro, mais precisamos perguntar de que passado essas imagens são feitas  

Peça a uma máquina que imagine uma cidade daqui a cem anos. Ela talvez lhe devolva torres de vidro, árvores suspensas, veículos sem motoristas, corpos sem idade, luzes atravessando o céu, robôs. O futuro chegará em alta definição. Há, porém, alguma coisa inquietante nessa paisagem que ainda não existe: nós já a vimos. 

Reconhecemos suas formas, suas promessas, seus medos. O futuro chega vestido de presente: mais rápido, mais conectado, mais eficiente, mais tecnológico. Mudam os objetos, mas permanecem os desejos. A cidade continua sendo uma máquina de circulação; a natureza, um problema a ser administrado; o corpo, uma superfície a aperfeiçoar. 

Talvez não tenhamos perdido a capacidade de imaginar o futuro. Mas quem está imaginando-o por nós? Imaginar não é uma atividade inocente. Antes de existir como acontecimento, o futuro precisa ser pensável. Antes que uma cidade seja construída, alguém a desenha. Antes que uma tecnologia entre em nossa vida, é apresentada como promessa. Antes que uma catástrofe seja enfrentada, ela tem de adquirir uma imagem. 

Exposição Amazônicas: poéticas femininas. Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

As imagens não apenas representam o mundo. Elas nos ensinam o que podemos esperar dele. A disputa pelo futuro acontece nas telas, nos filmes, na publicidade, na arquitetura, nos museus, nos laboratórios, nos algoritmos. Acontece também nas decisões sobre quem pode produzir essas imagens, quais delas circulam e quais alcançam milhões de pessoas. 

A inteligência artificial tornou essa questão impossível de ignorar. Hoje podemos produzir em segundos imagens de lugares que nunca existiram, de corpos que nunca nasceram, de paisagens que ainda não vimos. Mas as máquinas não imaginam a partir do vazio. Elas aprendem com aquilo que já foi produzido: pinturas, fotografias, filmes, textos, arquivos. O novo nasce de uma memória gigantesca do que já existiu. 

Quanto mais poder temos para fabricar imagens do futuro, mais precisamos perguntar de que passado essas imagens são feitas. Todo arquivo tem suas presenças e suas ausências. Há corpos registrados incessantemente e corpos que quase não aparecem ou, quando aparecem, surgem em rasura. Há territórios minuciosamente cartografados e outros conhecidos apenas através do olhar externo. Há histórias preservadas e histórias cuja permanência depende daqueles que insistem em transmiti-las. 

Os museus nos ensinam muito sobre isso. Recolher, conservar, classificar e nomear foram também formas de organizar o mundo e, em diferentes momentos, de exercer poder sobre ele. O que entra no arquivo pode sobreviver; aquilo que fica de fora pode desaparecer, ou permanecer na memória de quem insiste em transmiti-lo. 

Agora, esses arquivos alimentam sistemas capazes de produzir imagens em escala planetária. A pergunta sobre quem teve o direito de registrar o mundo se encontra com outra fundamental: quem controla as ferramentas que usam esses registros para representar o que ainda não existe? 

Precisamos, então, pensar em outra forma de inteligência: proponho chamar de inteligência regenerativa. Devemos ser capazes de interrogar as ausências do arquivo, escutar outras formas de conhecimento e devolver complexidade ao que foi reduzido, presença ao que foi apagado, possibilidade ao inevitável. Sua tarefa não seria só produzir novas imagens, mas criar condições para que outros mundos possam ser imaginados. É aqui que a arte pode abrir uma fresta luminosa. 

Conheci Flora futura, de Mari Nagem, através dos registros virtuais da exposição Quando o museu é rio, realizada em 2026 no Instituto Tomie Ohtake. A obra parte de uma situação que não é ficção: o experimento Esecaflor − desenvolvido na Floresta Nacional de Caxiuanã, pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e pela Universidade Federal do Pará − simula condições de seca extrema para investigar como a floresta amazônica responde à redução prolongada das chuvas. Nagem transforma o conhecimento científico em projeção sensível da floresta futura, marcada pela precariedade da sobrevivência das espécies. 

A diferença entre calcular um futuro e imaginá-lo me parece fundamental. Um modelo climático pode nos dizer o que poderá acontecer. Uma obra pode nos fazer perguntar como será estar lá. Precisamos medir a seca, modelar seus efeitos, acompanhar as transformações da floresta. Precisamos também encontrar imagens para aquilo que os números, sozinhos, não conseguem nos fazer sentir. E perguntar quem participa da construção dessas imagens. O que vê um satélite? O que sabe uma comunidade que vive na floresta? O que a empresa de tecnologia torna visível? São conhecimentos e posições diferentes, com poderes desiguais de definir como a Amazônia do futuro será apresentada. 

A arte pode perturbar a aparência de que essas perspectivas são intercambiáveis, deslocando o ponto de vista, fazendo uma paisagem deixar de ser cenário para tornar-se presença. Pode nos apresentar a um futuro que ainda não sabemos reconhecer. No teatro, por exemplo, esse exercício ganha uma dimensão particular. Uma cidade que ainda não existe pode ser construída por corpos, luz, som e palavra. Um mundo que ainda não aconteceu pode ser ensaiado diante de nós. Entretanto, há sempre algo que escapa à antecipação: a presença de quem atua e de quem assiste, a resposta de um corpo ao outro, a possibilidade de que alguma coisa aconteça de modo imprevisto. 

Em um tempo que procura prever até nossos desejos, a experiência compartilhada tem força própria. O audiovisual vai criar tempos, corpos e paisagens para que possamos habitá-los por algumas horas. Pode nos colocar diante de um mundo possível com a intimidade de quem observa uma vida em curso. A qual podemos rever, se quisermos. E ao escolher o que mostrar, o que deixar fora do quadro e de quem será o olhar que nos conduz, também decide quais futuros ganham rosto e quais permanecem invisíveis. 

A literatura abre outra possibilidade. A palavra pode nos levar a uma cidade que não existiu, a uma floresta que não vimos, a um corpo que ainda não sabemos imaginar, sem determinar por completo a forma de nenhum deles. Entre o que está escrito e o que cada leitor vê, o mundo se refaz. 

A arte não apenas produz imagens do possível; produz experiências do possível. Talvez essa seja uma de suas forças políticas: interromper a aparência de que existe apenas um futuro à nossa espera. Em tempos de dessensibilização extrema, ela tem a possibilidade de nos devolver a concretude afetiva da experiência e da reflexão. 

É preciso desconfiar das imagens que chegam prontas demais. Perguntar quem as produziu, de que arquivo vieram, quem pode fazê-las circular, o que deixaram de fora e quais desejos carregam. Porque o futuro não é somente aquilo que virá. É também aquilo que, no presente, conseguimos tornar imaginável.  

 

Renata Di Carmo é atriz, cineasta, escritora, autora-roteirista, diretora, produtora, jornalista, Doutora em Letras/Cultura. A lista de papéis que Renata Di Carmo assume ajuda a definir sua trajetória, mas não limita a dimensão de sua obra. 

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