Quem faz as legendas piratas? - Le Monde Diplomatique

UM EXÉRCITO DAS SOMBRAS

Quem faz as legendas piratas?

por Mélanie Bourdaa e Mona Chollet
3 de abril de 2014
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Na França, a Orange Cinéma Séries vai tornar disponível a nova temporada da série Game of Thrones a partir do dia 7 de abril, ou seja, 24 horas após a exibição nos Estados UnidosMélanie Bourdaa e Mona Chollet

É uma prática ilegal, mas amplamente difundida: por que esperar que um canal de televisão nacional decida passar a nova temporada de uma série estrangeira (normalmente norte-americana) de que gostamos quando podemos baixar os episódios na internet imediatamente depois da exibição em seu país de origem? Mas, para quem não fala fluentemente inglês, ainda existe o problema da compreensão.

Apesar de a disponibilização de um vídeo em uma plataforma de downloads se efetuar com facilidade, a legenda – a princípio em diversas línguas – de milhares de episódios representa um trabalho hercúleo. No entanto, algumas horas depois da primeira difusão do episódio cobiçado, qualquer um pode encontrar em um site especializado um pequeno arquivo com legendas em sua língua materna – francês, húngaro, russo, croata, espanhol, farsi… – para juntar com seu arquivo de vídeo. Esse prodígio acontece graças à paixão de amadores zelosos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Assim, graças ao fansubbing (“legendagem pelos fãs”), os espectadores de Game of Thrones, onde quer que se encontrem no mundo, poderão saborear quase instantaneamente a quarta temporada, que começa em 6 de abril no canal Home Box Office (HBO). A série norte-americana de fantasia,1 iniciada em 2011, foi a mais baixada ilegalmente em 2013, fato que orgulha seus produtores.2

O fansubbingnasceu nos anos 1980, com a legendagem dos anime(desenhos animados japoneses) e dos mangás. Nessa época, os amadores gravavam os episódios de anime em fitas de vídeo durante sua difusão. Em seguida, transcreviam as legendas em folhas A4 e colocavam nas caixas das fitas que enviavam para outros fãs. Com esse trabalho, eles cumpriam o papel de descobridores, fazendo que produtos culturais criados para um público japonês fossem conhecidos para fora das fronteiras do país. Hoje, eles permitem o acesso a séries e filmes que não são difundidos em seus países.

Ao longo dos anos, os legendistas se organizaram e desenvolveram competências específicas para melhorar e dividir seu trabalho. Na França, o site U-sub.net reúne uma grande parte da comunidade de legendistas de séries norte-americanas, mas também de anime. Nascida há cinco anos sob o impulso de duas equipes que legendavam Battlestar Galactica (2004-2009) e Stargate SG-1 (1997-2007), então ausentes dos canais franceses, a nebulosa aumentou e conta hoje com mais de cem equipes. Já o site Seriessub.com, que soma mais de 270 mil membros, propõe arquivos para 766 séries, fora do ar ou em exibição, norte-americanas e outras, em download livre.

Para uma maior eficiência, os fansubbers funcionam em equipe. Cada membro tem um papel bem determinado no processo. O primeiro captura o episódio ou o filme e o disponibiliza on-line: é o uploader. Depois, os outros dividem o trabalho: entre um ou dois tradutores por episódio, um codificador que garante a boa sincronia das legendas com o diálogo original, um editor – que verifica a fonte utilizada – e até quatro ou cinco revisores. A equipe do legendista de anime conhecido como Corentin utiliza softwares livres,3 como Substation Alpha ou Aegisub. Para a fase de codificação, recorrem a Virtualdub. Cada equipe trabalha com uma série em particular; em geral seu nome aparece no início do episódio. Os grupos se constituem diretamente nos fóruns de legendagem, como confirma Corentin: “Eu nunca encontrei IRL [in real life: na vida real] os membros da minha team [equipe]. Trabalhamos por e-mail ou por SMS”. Depois de uma primeira difusão dos arquivos na urgência (tendo no título a menção “Asap”, que significa as soon as possible, “o mais rápido possível”), frequentemente novas versões mais elaboradas são propostas.

O papel desses fãs é particularmente importante junto a seus pares, mas também na esfera pública. Seu trabalho instaura as condições de uma legitimação das séries televisivas. Eles as oferecem, com efeito, na versão original legendada, quer dizer, segundo o modelo próprio do cinéfilo. Ao examinar as apresentações dos membros do fórum Seriessub, constatamos que todos preferem assistir em versão original legendada em francês (Vostfr) ou legendada em inglês (Vosta).

Na França, as séries norte-americanas são frequentemente mal utilizadas pelos canais de televisão. Todos os episódios são mostrados em uma mesma noite e na maioria das vezes acabam exibidos fora de ordem, o que quebra a narrativa. The Good Wife (desde 2009) viu sua difusão ser interrompida no canal M6 em razão dessa maneira de exibição, contrária às regras norte-americanas. Além disso, algumas séries têm legendas adaptadas, destinadas a torná-las acessíveis a um “público amplo”. Os diálogos de Xena: Warrior Princess, série célebre por suas insinuações lésbicas entre Xena e sua companheira Gabrielle, por exemplo, foram editados na versão francesa a fim de eliminar qualquer ambiguidade sobre a relação entre as duas personagens principais.

Os legendistas também possuem um papel de transmissores culturais, pois devem por vezes fornecer precisões indispensáveis para a compreensão da intriga. Eles as inserem entre colchetes nas próprias legendas ou em textos mais longos nas páginas da web que propõem os arquivos para download. Por exemplo, precisam explicitar alguns termos esportivos para Friday Night Lights(2006-2011), consagrada ao futebol americano; o jargão da Casa Branca e, mais amplamente, a cultura política norte-americana para The West Wing (1999-2006); os meandros e as sutilezas do direito para a série jurídica The Good Wife; o contexto político do pós-Katrina e as tradições locais – em particular musicais – em Treme (2010-2013), que se passa em Nova Orleans.

Esse trabalho exigente e longo nem sempre é apreciado pelos legendistas profissionais, nem mesmo pelos outros membros da comunidade de fãs. Algumas equipes brigam nas redes sociais e nos fóruns quando legendam as mesmas séries. Corentin diz ter parado com o fansubbing por causa da falta de respeito dos outros membros da rede, que apontavam sem parar seu amadorismo.4 Além do mais, os difusores dos programas não veem com bons olhos essa atividade que coloca à disposição as séries estrangeiras antes deles. Pouco a pouco, no entanto, eles acabam por se adaptar a essas novas práticas de recepção: diversos canais (TF1, Canal Plus, OCS) propõem agora episódios legendados no dia seguinte de sua difusão nos Estados Unidos. Eles interrompem assim o trabalho dos fãs ao fornecer episódios em versão original legendados por profissionais de maneira legal e rápida.

Mesmo sendo a mais visível em função do serviço que presta, a legendagem é apenas uma das muitas atividades às quais se rendem as comunidades de fãs. Existe também, por exemplo, o comentário ao vivo dos episódios da série: por causa do seu final em forma de espetáculo teatral sanguinolento, o episódio 9 da terceira temporada de Game of Thrones, transmitido no dia 2 de junho de 2013, foi o mais comentado da história do Twitter, por meio da hashtag (palavra-chave temática) “#redwedding” (“bodas vermelhas”). Além disso, os espectadores criam numerosos sites pessoais, na plataforma Tumblr, para partilhar seus gif5 da série e discutem teorias e intrigas nos fóruns oficiais (no site do canal produtor) ou não oficiais.

Outros sites repertoriam milhares de fanfictions, textos que retomam o universo e os personagens de um filme ou uma série para imaginar novos desenvolvimentos. Encontramos também “Wikis” que reúnem todas as informações sobre uma série, assim como suas extensões narrativas,6 sob a forma de artigos escritos, compartilhados e comentados. As mais famosas são LostPedia, consagrada à série Lost (2004-2010), que totaliza mais de 7 mil artigos, e a de Battlestar Galactica, que reúne todas as suas extensões. Enfim, os fãs se transformam por vezes em militantes: os fanáticos por Harry Potter, por exemplo, criaram a Alliance Harry Potter, na qual defendem causas diversas.7

Enquanto em outros tempos as práticas de criação e compartilhamento se limitavam aos fanzines e aos clubes, a internet trouxe uma amplitude e um alcance novos, a ponto de fazer alguns fãs passar para o outro lado. Assim, o romance erótico de sucesso de E. L. James, Fifty shades of grey (Cinquenta tons de cinza), era inicialmente uma fanfiction inspirada na saga Twilight [Crepúsculo]. E Elio Garcia, fã de Game of Thrones que vive na Suécia, se tornou tão bom especialista no assunto que foi contratado para aconselhar as empresas que fabricam produtos derivados. Até mesmo o autor da saga, George R. R. Martin, recorre a ele: “Eu trabalho na escrita de um trecho e envio uma mensagem a ele para perguntar: ‘Já falei disso antes?’. E ele me responde imediatamente: “Sim, na página 17 do quarto volume”.8

 

Mélanie Bourdaa e Mona Chollet são, respectivamente, mestre de conferências em Estudos Cinematográficos da Universidade de Bordeaux e  jornalista do Le Monde Diplomatique (França).



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