Quinhentos e oito anos depois de Lutero, ainda vendemos a fé?
A revolução religiosa continua, agora com novos pregadores, novos templos e novas controvérsias
Em 2025 o mundo recorda os 508 anos da Reforma Protestante, o movimento que em 1517 sacudiu a Europa e dividiu a cristandade. No Brasil, país colonizado por católicos, o balanço é curioso: os católicos nunca foram tão poucos, e os evangélicos nunca cresceram tanto. De acordo com o Censo de 2022, um em cada quatro brasileiros já se identifica como evangélico e, entre os jovens, essa proporção é ainda maior. Cinco séculos após Lutero, a revolução religiosa continua, agora com novos pregadores, novos templos e novas controvérsias.
Para além do debate teológico de “o quanto cada denominação realmente herdou seu escopo doutrinário de Martinho Lutero”, o fato é que o abandono de Roma solidificou um pressuposto que tem dado vigor à multiplicação das denominações evangélicas: o sacerdócio universal, isto é, a doutrina de que todos os crentes teriam acesso direto a Deus por meio de Jesus Cristo, sem a necessidade de um intermediário sacerdotal humano. Isso significa que cada cristão seria “sacerdote” em seu próprio direito, podendo interpretar a Bíblia diretamente; é lógico que a milenar hierarquia eclesiástica discordava de tal ideia, resguardando a autoridade de interpretação dos textos sagrados ao clero oficial. Lutero, todavia, não falava em termos de “anarquia religiosa”, como quem quisesse abolir toda e qualquer autoridade em relação ao trabalho teológico. Ele mirava num alvo mais poderoso: a Igreja Católica como única fonte e autoridade sobre os textos sagrados. Diferente do que muitos pensam, Lutero jamais quis se dissociar da igreja que lhe deu o licenciamento de doutor em teologia (1512), e para a qual muito contribuiu dando aulas na Universidade de Wittenberg. A ideia de pregar na porta da igreja o documento intitulado Disputa pelo esclarecimento do poder e da eficácia das indulgências (Disputatio pro declaratione virtutis indulgentiarum), ou como mais conhecemos desde a escola “as 95 teses”, tinha um simples propósito: convocar outros catedráticos para discutir se a venda das indulgências era eficaz ou não. O doutor, porém, era dono da ideia, não do movimento histórico que passou a se desencadear.
As indulgências nasceram do ensinamento das penitências que, segundo o catecismo católico, têm múltiplas finalidades, todas centradas na conversão do coração, na reparação dos pecados e na reconciliação com Deus e com a Igreja. Eram formas práticas de o fiel demonstrar arrependimento pelos pecados. Assim como o batismo fazia a pessoa entrar para a Igreja, o sacramento da penitência servia para reintegrar quem havia se afastado por causa do pecado. Com o tempo, muitas pessoas passaram a ter medo de que até pequenos pecados pudessem afastá-las da salvação, e por isso viam a penitência como a última chance de se reconciliar com Deus. Nos primeiros séculos do cristianismo, era comum que os fiéis, antes de morrer, pedissem a intercessão dos mártires (cristãos que morreram pela fé), acreditando que isso ajudava a aliviar a culpa pelos pecados. A explicação teológica mais clara sobre isso só surgiu por volta do século XII, com pensadores como Huguccio e Hugo de San Caro. Eles desenvolveram a ideia do Tesouro da Igreja (Thesaurus Ecclesiae), um “depósito espiritual” formado pelos méritos e boas ações dos santos, mártires e monges ao longo da história. A Igreja, então, poderia usar esse tesouro em favor dos fiéis arrependidos, concedendo-lhes indulgências; à época de Lutero quem detinha tal poder era prioritariamente o papa. Como escreveu o historiador Guido Zagheni, “a pregação das indulgências se transformou num grande negócio comercial no qual envolveram-se diversas pessoas: Alberto de Brandemburgo (que podia reter cerca de metade da renda conseguida com as ofertas), os Függer (que deviam recuperar o empréstimo com juros), o papa (para a Basílica de São Pedro), e até o Imperador (que reservara 2143 florins para o próprio caixa)”.

Esse cenário de comercialização da fé, que tanto escandalizou Martinho Lutero no século XVI, parece encontrar espelho em certas práticas religiosas contemporâneas, em especial no meio evangélico brasileiro. O modo como o neopentecostalismo tem crescido, embrenhado do ideal neoliberal, manifesta como a força do dinheiro tem feito a fé se ajoelhar. O que antes foi motivo de ruptura com a Igreja de Roma, ressurge, em nossos dias, sob nova roupagem: o neopentecostalismo, especialmente em seu formato mais midiático, desnuda a inserção da lógica de mercado nos templos. Suas instituições passam a operar segundo princípios de gestão empresarial, priorizando estratégias de crescimento, segmentação de público e fidelização de fiéis: os consumidores. Em nome da prosperidade, multiplicam-se votos que vinculam as bênçãos de Deus a “invista 100, 200, 500, 1000 reais nesta campanha!”. Promete-se cura, sucesso ou libertação espiritual mediante a entrega de valores específicos, numa lógica que pouco difere daquela das indulgências vendidas na Idade Média. Em ambos os casos, a relação entre o sagrado e o dinheiro se torna escandalosa, e a fé passa a ser instrumentalizada como meio de lucro e poder.
Ante a realidade de parte expressiva do evangelicalismo brasileiro, Lutero, se vivesse hoje, talvez apenas substituísse o termo papa por pastor em sua 48ª tese: “Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisa conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa do que de dinheiro”. A ironia histórica é curiosa: a denúncia feita contra a corrupção religiosa do século XVI parece ter ganhado apenas novos protagonistas, não do altar, mas do púlpito de vidro.
Vinicius Santos Santana é historiador pela Universidade Federal da Bahia, especialista em Teologia pelo ITFAD, mestrando em História pela UFBA e pesquisador voluntário em religiões pela PUC-SP.

