AS REDES SOCIAIS REFORÇAM DESIGUALDADES JÁ EXISTENTES

“E eu, não sou mais do que números?”

Será que, para os algoritmos e para a sociedade, nós somos apenas métricas?

Como parte da Rede de Lideranças da Universidade de Columbia, tenho mergulhado no universo da liderança feminina e pude aprender e compartilhar como lidar com desafios que nos atravessam. Um desses desafios foi compartilhado durante uma roda de conversa em que pudemos acessar nossas vulnerabilidades. 

O tema era o desafio do posicionamento digital. Logo me senti à vontade para compartilhar que não, não gosto — mas admiro e sigo os passos de outras líderes que estão construindo ou já construíram sua autoridade no digital. Disse que era um preço que eu não queria pagar, mas que percebi recentemente que não teria opção. Ali, meu lema de “ter um trabalho de ponta é a melhor resposta” não valeria se eu não “mostrasse” ou “parecesse” ter um bom trabalho — mesmo se eu já o tiver. Títulos, prêmios, reconhecimento acadêmico e profissional: nada disso vale se você não fizer stories, gravar vídeos e alimentar a sanha das redes sociais. 

Eu acompanho muito a Monique Evelle, que eu adoro. E ela tem quase um lema: “não basta ser boa, é preciso parecer boa”. Sou uma menina dos anos 80 que, quando lê um livro, procura o autor, estuda, olha as letras miúdas e grava o nome. O impacto de quem eu admiro é validado por mim de outra forma — mas é inegável o peso das redes sociais na definição do sucesso das pessoas. 

Pensando no histórico discurso de Sojourner Truth — “E eu, não sou uma mulher?” — comecei a refletir sobre como as redes sociais impõem às mulheres negras a obrigatoriedade de uma presença digital performática. A pergunta ressurge com nova camada de urgência: será que, para os algoritmos e para a sociedade, nós somos apenas métricas? 

Em uma era de algoritmos, likes e alcance, mulheres negras se veem frequentemente forçadas a performar nas redes sociais para existir social e profissionalmente. A lógica da visibilidade digital tem imposto uma nova forma de escrutínio: ser vista é fundamental — mas essa visibilidade vem acompanhada de cobranças desproporcionais. O que deveria ser liberdade vira imposição. E a pergunta que ecoa é: o quanto dessa presença é escolha e o quanto é sobrevivência? 

Recentemente li uma reportagem do G1 (2025) em que especialistas apontam que estar fora das redes sociais significa não apenas deixar de ser lembrado, mas ser profissionalmente descartado. Essa regra é ainda mais cruel com mulheres negras, que historicamente enfrentam múltiplos obstáculos para acessar espaços de decisão e reconhecimento. 

A pesquisa da Think Olga (2021) escancara essa tensão: 61% das mulheres negras sentem que precisam provar seu valor o tempo todo nas redes sociais. Outras 42% relatam esgotamento por manter uma imagem de sucesso constante. 

A ausência digital se transforma em silenciamento. E, para não desaparecer, mulheres negras se veem compelidas a criar presenças marcantes, multifuncionais e inspiradoras. Está em curso um processo de hipervisibilidade seletiva: somos visíveis enquanto encarnamos os arquétipos esperados — a mulher negra forte, a militante incansável, a empreendedora de superação. 

Como analisa Patricia Hill Collins (2000), imagens de controle como a da mammy, da matriarca e da mulher sempre resiliente são construídas para justificar a subordinação das mulheres negras, ao mesmo tempo em que impedem o reconhecimento de suas vulnerabilidades, complexidades e direitos à humanidade plena. 

Essa performance obrigatória não é apenas simbólica — ela compromete o bem-estar, a autoestima e a saúde mental. O ciclo é perverso: para serem vistas como competentes, muitas mulheres negras sentem que precisam estar sempre no centro da narrativa, produzindo, explicando, se expondo. 

Pesquisas mostram que os algoritmos privilegiam conteúdos alinhados a padrões eurocentrados. Para mulheres negras, isso significa menor alcance — a não ser que seus conteúdos se encaixem nos estereótipos esperados: a influenciadora forte, a mãe resiliente, a ativista eloquente. 

Mulher negra imersa no mundo digital e analógico, olhando um computador e um caderno
Crédito: Pexels

A saúde mental de mulheres negras no Brasil tem sido impactada por fatores estruturais como o racismo, o sexismo e a desigualdade social, conforme evidencia a revisão integrativa de Clares Barbosa & Sampaio (2023). O estudo analisou produções científicas entre 2017 e 2022 e identificou que o sofrimento psíquico nessa população está diretamente relacionado à vivência cotidiana de discriminações de raça e gênero, frequentemente invisibilizadas nas políticas públicas de saúde. No ambiente digital, dados da SaferNet mostram que mulheres negras são alvo recorrente de ataques virtuais, cyberbullying e discursos de ódio racial e misógino. 

Casos recentes evidenciam como a construção de autoridade no âmbito digital para mulheres brancas possui outro funcionamento. Uma jovem brasileira de 22 anos, por exemplo, fez uma postagem sobre ter sido aceita para uma missão espacial e rapidamente ganhou destaque nas redes sociais. A publicação, com imagens em trajes espaciais e menções à NASA, viralizou rapidamente. Em poucas horas, portais como G1, Estadão, CNN Brasil e até veículos internacionais passaram a divulgar a história como um feito histórico, sem checar os dados previamente. No entanto, nos dias seguintes, a NASA divulgou uma nota oficial desmentindo qualquer vínculo com a jovem.  

Foi aí que começaram as checagens mais aprofundadas: descobriu-se que ela não era funcionária da agência, não tinha diploma confirmado. A empresa Titans Space, por sua vez, afirmou que ela havia sido aceita em um programa de treinamento de quatro anos, mas sem relação com a NASA. Mas o mais grave é que toda essa visibilidade só foi possível porque o benefício da dúvida lhe foi dado. Se fosse uma mulher negra, a cronologia seria outra: o questionamento viria antes da notícia — ou a notícia sequer existiria. 

Já a cientista Joana D’arc, mesmo com um currículo invejável e cerca de 80 prêmios, pode ter se sentido forçada a exagerar conquistas para alcançar reconhecimento — e acabou, obviamente, punida por isso. O contraste é evidente: enquanto mulheres negras como Joana enfrentam o peso constante da desconfiança e precisam provar legitimidade a cada passo, mulheres brancas recebem o benefício da dúvida de imediato — a ponto de veículos celebrarem feitos que nem haviam sido verificados. Essa diferença de tratamento revela como a credibilidade ainda é racializada, e como o imaginário social insiste em associar excelência à branquitude, ao mesmo tempo que impõe à mulher negra um filtro de suspeita contínuo. 

Que esse sistema de validação a partir do digital — baseado em métricas, performatividade e reconhecimento algorítmico — não seja o principal critério de valorização justamente para aquelas e aqueles que mais sofrem com a exclusão histórica. É essencial avaliarmos criticamente que, embora as redes sociais ofereçam oportunidades de visibilidade e mobilização, elas também reforçam desigualdades já existentes, especialmente para pessoas negras. Num ambiente dominado por curtidas, compartilhamentos e número de seguidores, é urgente lembrar:  nossas trajetórias são complexas, nossas dores são reais, nossas conquistas não cabem em infográficos. Porque, sim, somos muito mais do que números. 

 

Marcelle Chagas é pesquisadora Tech&Society da Mozilla Foundation e Coordenadora da Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade na Comunicação. É Mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense. 

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