Memórias da máquina
Romance de estreia de L. K. Nogueira reúne fragmentos de um mundo distópico recriados por uma inteligência artificial
Em 1956, quando projetava a nova capital do Brasil, Oscar Niemeyer tinha em mente a construção de uma cidade que fosse um marco mundial da arquitetura moderna. Através do traçado do urbanista Lúcio Costa, Brasília se organizava de maneira funcional e inovadora, localizando-se no centro do país de modo a integrar o território nacional e impulsionar o desenvolvimento econômico. A Praça dos Três Poderes, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto traziam, em suas formas arrojadas, a mensagem de uma nação que se declarava ao progresso. A cidade que representava o poder, a cidade que mirava o futuro.
Um século depois, Brasília passou literalmente a ser o futuro, após o resto do mundo ser destruído por uma hecatombe. Sobreviventes de diversas nacionalidades, em sua maioria gente da elite e clãs políticos, ocuparam prédios patrimoniais e dividiram o território entre os que defendiam o restabelecimento do modelo de governabilidade antes da catástrofe, aqueles que viam a oportunidade de se criar uma sociedade igualitária e justa, e um terceiro grupo que, fortemente armado, primava pela anarquia, respondendo à bala qualquer tentativa de intervenção aos seus interesses. Jafé vive no mais moderado dos distritos, e sua história será o fio que atravessa a tessitura multifária de Relatório máquina-máquina, romance de estreia de L. K. Nogueira, que combina ficção distópica, poesia incidental e fragmentos impressionistas.
O funcionamento da nova organização social tem seus esteios arraigados tanto na violência quanto na religião. Antes do apocalipse, Jafé tinha experienciado um pouco de ambos. Natural do interior de Minas Gerais, passou a adolescência e o início da vida adulta em São Paulo, onde estudou e foi líder de um grupo de jovens evangélicos. Por má-influência, passou a usar substâncias lisérgicas, trocando Cristo por Buda e vivendo um relacionamento convulso com um fim trágico. A doença da mãe o levou de volta à Minas, até passar, em 2059, no concurso para analista do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal. Aos 27 anos, foi morar em Brasília.

Esse breve registro, no entanto, integra uma história secreta e elíptica, cujo conteúdo é de incompleto acesso, pois, na verdade, Jafé está morto. Ou melhor, todos os personagens da trama foram abatidos pela finitude. A grande sacada do livro é situar seu enredo numa zona negativa do espaço-tempo, na qual um sistema controlado por uma inteligência artificial recria a existência de pessoas por meio de textos, áudios, vídeos e resíduos de memórias. O romance, desse modo, apresenta-se como um denso quebra-cabeça cuja montagem é inevitavelmente falha, contudo o sentido total, o componente de inter-relação entre as partes, estabelece-se em sua força sensorial.
Distante do foco narrativo de busca por pertencimento e por autorreconhecimento do protagonista, a investigação tecnológica acessa cápsulas textuais do que parecem diálogos aleatórios ao mesmo que cenas dramatúrgicas, instaurando um exercício de metalinguagem a partir de Aimée, uma artista asiática através da qual a máquina tenta capturar inutilmente o espectro artístico, pois qualquer arte, para expressar sentido, depende do fator humano. Não por menos, a trajetória e as ações concretas e subjetivas de Jafé ganham diferentes formatos de transcrição, mudando da prosa para a poesia, do arquivo documental para o testemunho. Em dado momento, o personagem narra seu encontro com novos vizinhos de prédio, entre os quais Nil, alguém sem gênero definido, cujo fosso emocional atrai Jafé.
Na companhia cada vez mais frequente de Nil, ele irá reencontrar a ponta da meada dos laços afetivos, suplantando o isolamento com um misto de amizade e amor. É nesse estágio de intimidade que Jafé ouve uma história estranha sobre um líder religioso que mantém pessoas aprisionadas num abrigo subterrâneo. A dupla, então, parte para averiguar o caso, mudando radicalmente o estilo de escrita, com a adição de elementos de suspense e um crescendo de tensão que culmina num final desconcertante.
Toda distopia caracteriza-se por trazer, em suas vestes internas, comentários sociais, e um olhar mais atento pelo romance de Nogueira dá conta de reflexões sobre a fé como instrumento de manipulação social, os conflitos causados pela aversão aos imigrantes e a luta de classes. No entanto, ao utilizar a máquina para a criação imaginária de certa coletividade, paradoxalmente o que vibra com mais intensidade é o abismo anímico, a conclusão demolidora de que, após uma catástrofe global que interrompeu linhagens familiares, extinguiu culturas, “as pessoas seguem fazendo o que sempre fizeram”. Como revela um dos relatórios: “Mentir por boas e más razões, chorar por boas e más razões. Seguir, dia após dia, sem saber bem em direção a quê. Seguir”.
Sérgio Tavares é escritor e crítico literário.


Adorei o livro! A forma como ele transita entre diferentes estilos narrativos adiciona complexidade à trama, tornando a leitura ainda mais interessante. A premissa é bem criativa e as reflexões sobre temas sociais e filosóficos são muito bem construídas. Sem dúvida, uma obra que provoca reflexões intensas!