ENTREVISTA

Renata Belmonte: ‘Para mim, a grande literatura é aquela que resta, a que ficará como marca, no leitor, depois da última página’ 

Autora baiana acaba de publicar ‘Piscinas russas’, romance que aborda temas como relações familiares e identidade  

Com linguagem precisa e olhar atento ao que se passa no interior de personagens complexos, Renata Belmonte é uma das vozes mais originais da literatura brasileira contemporânea. A autora baiana acaba de publicar, pela Tusquets (selo de ficção literária da Planeta), o inédito Piscinas russas e a reedição de Mundos de uma noite só, obra finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2020 e semifinalista do Prêmio Oceanos de 2021.  

Seu novo romance se aprofunda em temas como o luto, as relações familiares e a identidade. “Honestamente, quando comecei a escrever o Piscinas Russas, pensava que estava escrevendo a história da Malena e as repercussões de sua descoberta sobre seu marido e filhos. Era um livro que investigava a perda de ilusões, mas acabei descobrindo que não apenas as que eu imaginava. Foi um espanto para mim constatar que estava diante de um iceberg, inclusive, por um tempo, paralisei por uma espécie de medo-efeito Titanic”, conta a escritora, em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil 

Crédito: Divulgação/Tusquets

Renata Belmonte é autora do romance Mundos de uma noite só (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2020 e semifinalista do Prêmio Oceanos de 2021) e de três livros de contos: Femininamente (Prêmio Braskem de Literatura, 2003), O que não pode ser (Prêmio Arte e Cultura Banco Capital, 2006) e Vestígios da Senhorita B (2009). Doutora em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e mestra pela Fundação Getulio Vargas (FGV), a autora é também advogada. 

Confira a entrevista na íntegra:  

Piscinas russas, seu novo livro, traz diversos personagens, algo que tem se tornado pouco comum aos romances contemporâneos.  Em que momento do processo de escrita você fez essa escolha? Quais foram os principais desafios para encontrar a voz de cada personagem?  

Tenho pouquíssimo controle sobre os rumos dos meus enredos. Sempre começo a escrever a partir de uma faísca, febre íntima, e me deixo ser levada pelas vozes que se apresentam, ao longo do processo. Se acho importante manter algum pulso em relação ao que proponho enquanto linguagem, concedo-me, ao contrário, o prazer imenso de ver as personagens ganhando vida, florescendo em suas ambivalências. O Piscinas Russas, inicialmente, desejava apenas recontar uma das histórias do Mundos de uma noite só, seu livro mãe. Que imensa felicidade descobri-lo uma matrioska. 

Todas as personagens do livro têm profundidade e contradições internas. Você planeja todos esses detalhes antes de começar a escrever ou as características surgem conforme a escrita avança?  

Para mim, a grande literatura é aquela que resta, a que ficará como marca, no leitor, depois da última página. Aquela que o acompanhará, ao longo dos seus próximos anos. Essa percepção contrasta muito com esta cena atual que entende arte como produto e que se comporta como uma fábrica de eternas grandes novidades. Escrevi o Piscinas Russas, ao longo de sete anos. Meu processo criativo costuma ser inconstante e não se revela de imediato. Escrever para mim é uma travessia, começo seguindo algum incômodo, tentando capturar alguma pista, mas é sempre na página seguinte que vislumbrarei mais o que se anuncia. Planejo pouquíssimo, deixo-me fluir, descobrir o quanto cada destino se quis. 

Objetos capazes de preservar a memória, como fotos, marcam presença em Piscinas russas. Como é a sua própria relação com imagens que transportam ao passado? Como essa relação contribuiu para a escrita do livro? 

“Umas coisas valem a dor da memória”. Este é um verso do Ruy Espinheira Filho, poeta baiano, que sempre me tocou muito. E se a memória falha e pode causar sofrimento, retratos idem. Sempre fico, por exemplo, muito sensível quando vejo fotografias de minhas filhas em suas primeiras infâncias. Estes seus registros são provas da impermanência, daquilo que, nesta vida, nunca se controla. Algo bonito, sim, mas que carrega também a nostalgia de uma dualidade. Embora pareçam atestados de verdade, muitas vezes, fotos podem ser apenas registros falsos ou idealizados porque se forjam e apagam, nos permitindo sensações equivocadas de controle, enquanto o curso da existência não se faz de rogado. Com a maturidade, aprendi a não confiar, cegamente, em imagens. E escrever foi o jeito que encontrei de me fixar no presente, aceitar que também sou apenas passagem e personagem.  

Acredita que olhar para o passado é uma forma de reconstruí-lo? De que forma isso aparece em sua literatura? 

Acredito que se não criarmos nossas histórias fantásticas, em regra, não as viveremos. Somos autores tanto de nossas existências quanto dos nossos livros e, em ambas as circunstâncias, precisamos lidar com as contingências que aparecem pela estrada. Não conheço quem possa existir sem mitos e olhar para o passado é sempre mergulhar em um profundo rio. Nunca se sabe, ao certo, o que acontecerá a partir desse movimento. Porque o passado nos inunda e água é matéria muito difícil de ser contida, espalha-se com força por todos os lados, cabe no menor dos orifícios. O fato é que estou sempre lidando com o que se foi sem nunca ter sido. O Piscinas Russas, radicalmente, assume isso. 

A perda é um dos elementos centrais de Piscinas russas. Como e quando percebeu que gostaria de trabalhar esse tema no livro? 

Honestamente, quando comecei a escrever o Piscinas Russas, pensava que estava escrevendo a história da Malena e as repercussões de sua descoberta sobre seu marido e filhos. Era um livro que investigava a perda de ilusões, mas acabei descobrindo que não apenas as que eu imaginava. Foi um espanto para mim constatar que estava diante de um iceberg, inclusive, por um tempo, paralisei por uma espécie de medo-efeito Titanic. Em certo momento, no entanto, para vencer as vozes negativas, tive que me entregar ao texto e fazer sua travessia contando apenas com o meu fôlego, rezando pela existência de uma margem possível. De tudo isso, o mais lindo foi constatar que, mesmo quando gente parecer perder muito, a palavra é sempre um lugar.  

Embora haja uma romantização do ofício do ficcionista, escrever pode ser um exercício bastante doloroso, especialmente quando o projeto literário contempla temas sensíveis. Quando você escreve, o que a angustia?  

Descobri que tenho uma imensa dificuldade de acabar um livro porque a consciência da finitude me angustia. A verdade é que os mares sempre me apavoraram. Mas não se vive, genuinamente, sem se colocar à disposição das profundezas. É bem como aquele poema de Rilke: 

“Deus fala a cada um de nós enquanto nos faz, depois caminha conosco em silêncio para fora da noite. 

Estas são as palavras que ouvimos vagamente: 

Você, enviado para além do seu retorno, vá até os limites do seu anseio. Encarne-me. 

Acende-se como uma chama e faça grandes sombras em que eu possa me mover. 

Deixe tudo acontecer com você: beleza e terror. Apenas continue. Nenhum sentimento é final. 

Não me deixe perder. 

Por perto está o país que eles chamam de vida. Você o conhecerá por sua seriedade. 

Dê-me sua mão.” 

Seguimos, portanto, eu e o mistério, com os dedos entrelaçados. 

Em sua produção literária, o cuidado com a linguagem é bastante perceptível. Encontrar a palavra certa é um dos grandes desafios da escrita literária? 

Honestamente, não sei se existe a palavra certa, mas sei que não existe literatura sem este incessante exercício de busca.  

Como enxerga o atual momento da literatura brasileira? Quais são os principais desafios enfrentados por escritores e escritoras no país? E quais são as principais oportunidades? 

Estranhamente, vejo o atual momento da literatura brasileira com otimismo. Sei que o número de leitores diminuiu e que o neoliberalismo (assim como as telas dos celulares) consomem um tempo que poderia ser dedicado para literatura, mas também percebo a franca expansão dos clubes dos livros e tenho a impressão de que estamos começando a ultrapassar certas condescendências inadmissíveis que vinham sendo a marca, na última década, de alguns debates culturais. Autores independentes já conseguem furar cercos e constroem suas próprias comunidades, algo impensável, por exemplo, no passado. Não estamos também mais tão reféns dos sins do status quo, ele já consegue ser reconhecido como tal e, embora ainda continuem guardando certo poder, seus imperativos não tudo determinam. Todo artista jovem sofre na busca por sua própria linguagem, isso é parte do rito de iniciação de nossa atividade. Assim, o importante, neste mundo em transformação, é saber o seu próprio inegociável. Caminho se faz caminhando, aposto muito nisso e não há outra forma de seguir, afinal, pessimismo e vitimismo são paralisias que nada de bom trazem.  

Como leitora, o que a prende em um livro? 

A combinação fatal entre o êxtase da língua e o espetáculo da introspecção de personagens que se tornam, através das páginas, as mais humanas das companhias. 

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de Desprazeres existenciais em colapso (Patuá), Desemprego e outras heresias (Sabiá Livros) e De repente nenhum som (Sabiá Livros). É colaborador do Le Monde Diplomatique, do Jornal Rascunho e da São Paulo Review, além de ter textos publicados em veículos como Rolling Stone Brasil e Estado de Minas. O autor acaba de assinar contrato com a Editora Reformatório para a reedição de De repente nenhum som e para a publicação de um romance inédito.  

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