Repensar a violência terrorista dez anos após o atentado que abalou a França
Debate sobre as causas do terrorismo é complexo e não deve se resumir a apenas uma variável
Em 13 de novembro completam-se dez anos dos “ataques de Paris”, como ficaram conhecidos os atentados terroristas coordenados que deixaram 130 mortos, centenas de feridos e milhares de pessoas aterrorizadas, direta ou indiretamente, por uma série de atos violentos, tais como explosões suicidas, tiroteios, massacres, tomada de reféns, ameaças de morte e assassinatos.
Assim como a maioria dos brasileiros, a primeira reportagem completa sobre o ocorrido que eu assisti foi a transmitida no domingo seguinte ao atentado, dia 15 de novembro, pelo “Fantástico”. Mas nas redes sociais, assim como o “Je suis Charlie”, em janeiro do mesmo ano, a solidariedade e as informações se somavam a análises apressadas de especialistas e relatos das vítimas, incluindo vídeos gravados do lado de fora do Bataclan. Aos poucos, a audiência global começava a receber e a construir uma narrativa que tentava explicar as causas dos acontecimentos.
Alguns anos mais tarde, saiu o documentário da Netflix, “13 de novembro, terror em Paris”,[1] com o qual pude tomar ciência com mais detalhes sobre o que tinha acontecido a partir do testemunho de vítimas, familiares, amigos, primeiros socorristas, policiais, bombeiros, políticos e figuras públicas. Lembro-me de assistir aos três episódios em sequência e de ficar impactado com todos os relatos, ao ponto de chorar e me emocionar profundamente. Eu estava escrevendo minha dissertação de mestrado no Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, uma análise dos discursos que circularam antes e depois dos “ataques de Paris” e fiz questão de inserir minha experiência com o filme, na forma de notas metodológicas que colocavam em questão a suposta separação entre “autor” e “objeto de pesquisa”, muito frequente em pesquisas que se apoiam em epistemologias racionalistas.
São justamente essas epistemologias, aliás, que estão na base da visão realista que orienta estratégias político-militares tais quais a “guerra contra o terrorismo”, liderada pelos Estados Unidos a partir de 2001, rejeitada pela França num primeiro momento, mas apoiada logo em seguida e colocada em prática com força total a partir de 2013, no Mali e na região do Sahel, e de 2014, na Síria, antes dos atentados de novembro de 2015. É fato que a França estava em alerta para o risco de atentados, tendo em vista seu engajamento na “guerra contra o terrorismo jihadista” e o próprio Charlie Hebdo publicou uma charge dias antes do atentado que, meses depois, foi considerada premonitória, ao apresentar a caricatura de um jihadista com o seguinte texto: “toujours pas d’attentats en France” [ainda sem atentados na França], ao que o jihadista responde: “attendez! On a jusqu’à la fin janvier pour presenter ses voeux” [esperem! Temos até o fim de janeiro para apresentar nossos votos].[2]
O debate sobre as causas do terrorismo é complexo e não deve se resumir a apenas uma variável: intervenções militares da França em países de maioria muçulmana, com a justificativa de defender o “interesse nacional”, “impedir a formação de califados” e “proteger os franceses de ameaças de atentados”.[3] É, no entanto, uma variável imprescindível em qualquer análise de segurança internacional e o argumento é justamente esse: países intervencionistas têm maior probabilidade de sofrer um atentado terrorista do que países que não intervém.[4] Não me recordo, por exemplo, de atentados jihadistas em território suíço ou português, mas não quero me estender nesse ponto, visto que existe vasta literatura sobre as causas do terrorismo, entendido aqui como violência política cujo objetivo tático é causar terror, mas que está inserida em uma estratégia de guerra cujo objetivo pode ser empurrar o adversário a uma negociação, forçá-lo a responder com medidas draconianas, chamar atenção para uma causa e, no limite, mudar a correlação de forças em determinado contexto.
Da minha perspectiva, enquanto estrangeiro, doutorando em Estudos Estratégicos, mestre em Relações Internacionais, com especialização em Segurança Internacionais, o que eu gostaria de contribuir, a partir de minhas reflexões, é, na verdade, com um relato de uma recente viagem a Paris.
Estava conversando com um amigo brasileiro e sua esposa, francesa, sobre os atentados, porque ela estava em Paris no dia 13 de novembro de 2015. Na verdade, ela morava em Paris e inclusive perdeu um casal de amigos que estava em um dos terrasses atacados pelos terroristas. Ela estava me contando sobre seus amigos e, então, perguntei o que ela pensava sobre tudo isso.

Ela começou a falar sobre a falta de integração dos imigrantes, sobre o fundamentalismo religioso, sobre a falta de oportunidades para os jovens… a típica explicação de base sociológica, presente em boa parte da literatura francesa sobre as causas da “radicalização” e geralmente associada à esquerda no espectro político.
Nesse momento, meu amigo fez a seguinte pergunta: se o problema está na França, por que “eles” (os árabes) se matam entre si lá nos países deles? Achei a pergunta pertinente, mas antes que eu pudesse responder, explicando que o terrorismo é uma tática dentro de uma estratégia de guerra, com objetivos políticos, realizável, portanto, em qualquer país do mundo, seja no Iraque, no Afeganistão, na Síria ou na França, ele mesmo começou a argumentar que “eles” (os árabes/muçulmanos) são violentos por natureza, reproduzindo a típica explicação racista e xenófoba geralmente associada à extrema direita. Para minha surpresa, mesmo ele sendo imigrante na Europa e tendo relatado episódios racistas contra alguns colegas brasileiros, não é capaz de perceber a contradição em seu discurso.
Sua esposa não aceitou que ele continuasse a proferir tal discurso e começou a argumentar com ele, lembrando-o que foi um supremacista branco, fundamentalista cristão, que cometeu um atentado terrorista contra duas mesquitas na Nova Zelândia em 2019, deixando 51 mortos e 40 feridos, além de todas as atrocidades cometidas e/ou apoiadas pela Igreja Católica nas cruzadas e na manutenção dos impérios coloniais por séculos. É por isso que não devemos reduzir o terrorismo à questão racial ou religiosa.
Da minha parte, aproveitei a situação para informá-lo que há mais muçulmanos trabalhando nos serviços de segurança da França do que integrando organizações consideradas como terroristas.[5] Porém, de toda forma, acredito que a perspectiva dele representa bem o senso comum e expõe os desafios que esse debate ainda suscita na França, na Europa e no mundo.
O terrorismo, ou, a “radicalização”, como preferem os franceses, é um problema extremamente complexo que precisa de soluções compreensivas, não de respostas simples, porque política pública, especialmente a segurança, não se faz com decisões baseadas em emoções, instinto ou impulso, se faz com planejamento, com informação, com pesquisa, aprendizado e avaliação periódica dos erros e acertos.
Por outro lado, a explicação sociológica de que a causa da violência é a pobreza também não se sustenta, inclusive porque boa parte dos terroristas, ou, “radicais” que integram organizações classificadas como terroristas vêm de famílias de classe média, estudaram, acessaram serviços públicos de qualidade.[6] Ela não está totalmente equivocada, mas está incompleta e, por isso, pode levar a soluções ineficientes no longo prazo. Em outras palavras, abordar a política migratória, a inclusão, a integração, as condições de possibilidade para a construção de laços comunitários profundos para indivíduos que não se identificam completamente com os valores da república francesa, que sofrem com as desigualdades geradas pelo sistema neoliberal, pode sim evitar que enxerguem na violência uma resposta para sentimentos de impotência, raiva e ressentimento.
Contudo, mais importante, a meu ver, seria evitar a despolitização da violência terrorista, quando a retiramos do contexto histórico político em que está inserida. Os atos de terrorismo cometidos em 13 de novembro de 2015 tinham objetivos táticos, estratégicos e políticos bem delimitados. Embora as vítimas tenham sido mais ou menos escolhidas de forma aleatória e indiscriminada, o alvo final era a própria república francesa e, mais especificamente, seus dispositivos de segurança que intervinham além-mar – “o inimigo”, na perspectiva dos “terroristas” que agiam em nome de uma organização política numa relação dialética própria da guerra.
Gabriel Gama de Oliveira Brasilino é doutorando em Estudos Estratégicos no Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense e bolsista do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE) na European School of Political and Social Sciences da Universidade Católica de Lille, na França. Também é fundador e pesquisador do projeto de extensão Papo de Defesa.
[1]Gédéon Naudet & Jules Naudet, “November 13: terror on Paris”, Netflix, 2018.
[2]Stéphane Charbonnier, “Toujours pas d’attentats em France”, Charlie Hebdo, 5 janvier, 2015.
[3]Grégory Daho & Marc-Antoine Pérouse de Montclos. “De Serval à Barkhane : le bilan confisqué de diz an d’interventions militaires au Sahel”, The Conversation, 11 août 2024.
[4]Alex Braithwaite, “Transnational Terrorism as an Unintended Consequence of a Military Footprint”, Security Studies, v. 24, 2015.
[5]Olivier Roy, “There are more French Muslims working for French Security than for al-Qaeda”, Huffington Post, 10 janvier, 2015.
[6]Olivier Roy, “Who are the New Jihadis?”, The Guardian, 13 avril, 2017.

