Repensar o Ocidente - Le Monde Diplomatique

O PAPEL DO BRASIL

Repensar o Ocidente

por Robert Muggah
11 de abril de 2014
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O que exatamente é o Ocidente? Essa expressão está assim tão defasada que perdeu qualquer poder explicativo?Robert Muggah

A cobertura midiática da crise na Ucrânia apresenta a situação em termos dicotômicos: um confronto de uma Guerra Fria renovada entre o Leste e o Oeste. De um lado tem-se a Rússia, contando com o apoio tácito de alguns Estados satélites da ex-União Soviética e da China. Do outro lado estão os Estados Unidos e seus aliados ocidentais da União Europeia. Em seus esforços de simplificação sobre a questão da Crimeia, jornalistas e colaboradores da mídia vêm necessariamente agrupando o restante do mundo em um desses dois lados. Dessa forma, eles reforçam a oratória do “com nós ou contra nós”, típica do mundo pós-11 de setembro. Mas o que exatamente é o Ocidente? Essa expressão está assim tão defasada que perdeu qualquer poder explicativo?

Com a névoa da guerra se aproximando, é válido pararmos e nos perguntarmos o que queremos dizer com “o Ocidente”. O Ocidente não é, e talvez nunca tenha sido, um constructo puramente geográfico. De fato, suas origens históricas remontam aos esforços da Grécia helenística em se diferenciar dos persas há mais de 2.500 anos. Mas foi no século XX que o conceito adquiriu sua inconfundível conotação geopolítica atual. Na sequência das duas guerras mundiais, o “Ocidente” denotava um grupo de países comprometidos politicamente com uma causa comum: a democracia e o livre mercado. A partir de 1948, passou a significar os EUA e aqueles que o seguiam, objetivando a distinção entra a “América” e seus aliados do “Leste” comunista.

Considerado em conjunto, e parafraseando Benedict Anderson,1 o Ocidente consiste em uma comunidade imaginada de ideias e ideologias compartilhadas. Já foi descrito2 como uma mentalidade e um conjunto de comportamentos, incluindo o compromisso constante com a inovação, a autocrítica e a igualdade de gênero. Filósofos políticos ligados a universidades norte-americanas e europeias descreveram o Ocidente como uma constelação de valores liberais compartilhados por uma seleção de Estados-nação e sociedades. Essa tese foi desenvolvida de forma mais célebre por Samuel Huntington,3

autor que ponderou sobre um “choque de civilizações” entre o Ocidente liberal e o resto do mundo. Outros pensadores4 com posições similares também previram o triunfo do Ocidente tendo em vista a superioridade de suas instituições.

Mas onde se encontra o Ocidente como ideia unificadora no século XXI? Philippe Nemo5 argumenta que o constructo ainda se baseia fundamentalmente sobre a ciência e filosofia gregas, a lei romana, o pensamento cristão e a revolução democrática. Sem dúvida, essas ideias ainda são invocadas para se justificar a adesão às instituições ocidentais hoje em dia. Contudo, o Ocidente não pode mais ser reduzido a uma entidade política “branca e cristã”, conforme insistem algumas minorias com voz nos Estados Unidos e na Europa ocidental. Há sessenta anos, o Ocidente praticamente não tem mais nada a ver com geografia, etnia ou religião. Apesar de seus tão citados “valores asiáticos”, Japão, Coreia do Sul e Taiwan são normalmente inclusos no bloco ocidental, enquanto a China não o é. A Rússia é discutivelmente mais cristã que os EUA e ainda assim não é considerada ocidental. Em seu bojo, o Ocidente continua sendo uma entidade dinâmica, cujos membros aumentaram e diminuíram ao longo dos séculos.

O Ocidente é atualmente mais diverso, e divergente, do que se assume. Embora frequentemente apresentado como uma frente unificada, a realidade encontra-se longe disso. Mais ou menos trinta países formam o bastião do Ocidente contemporâneo, e contam com entidades de ajuda mútua econômica e militar, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)6 e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).7 Junto a esses países existe uma dúzia de outras nações – algumas delas ex-membros do bloco soviético – que ressurgiram na geopolítica internacional depois de um longo hiato histórico. Há ainda outros países espalhados pelas Américas, África e Ásia que, embora caiam na órbita de influência do Ocidente, divergem em muitos aspectos de seus ancoradouros históricos, geográficos, ideológicos e culturais.

É chegado o tempo de se repensar o Ocidente. Não tanto em termos de abandonar o conceito, mas sim de alinhar seu imenso potencial com as realidades do mundo contemporâneo. Onde um debate dessa monta pode ter início? Países como o Brasil são ideais para iniciar e liderar uma discussão crítica sobre o Ocidente e seus descontentamentos. Nosso país, por exemplo, é isento de um passado colonial no papel de colonizador, apesar de ter servido como sede do Império Português por uma década. Ademais, o Brasil encontra-se no eixo de uma série de constructos políticos binários, como Leste x Oeste, Norte x Sul, Primeiro Mundo x Terceiro Mundo, Alinhados x Não

Alinhados. E, embora exiba muitos dos atributos culturais do Ocidente, compartilha também um sem número de afinidades com sociedades decididamente não ocidentais.

Seria extremamente apropriado o Brasil iniciar uma série de debates sobre o imperativo do conceito de “Ocidente” no século XXI. Para tanto, teria que encorajar uma discussão aberta sobre a contribuição do Ocidente para a paz, segurança e desenvolvimento globais. Tendo-se abstido em declarar guerra por mais de 150 anos e tendo sido bem sucedido nas políticas atuais de redução da pobreza, que beneficiaram mais de 40 milhões de cidadãos,8 o país traria uma grande credibilidade e legitimidade à mesa. Embora sua oposição às intervenções no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria tenha frustrado seus parceiros ocidentais, esse fato demonstra o profundo desejo do país por uma ordem global estável mediada por instituições multilaterais efetivas e eficientes. Afinal, não será por meio de provocações, insultos e guerra que o Ocidente prevalecerá nas regiões mais sensíveis do mundo. A vitória não poderá ser alcançada pela imposição de uma visão de mundo, mas sim por uma busca genuína e permanente em compreender e engajar as diferenças do outro.

 

Robert Muggah é diretor de pesquisa do Instituto Igarapé no Rio de Janeiro e na SecDev Foundation. Ele também é membro do Canadian Global Affairs Institute.



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