Revolta egípcia, com ou sem twitter - Le Monde Diplomatique

CIBERATIVISMO

Revolta egípcia, com ou sem twitter

por Navid Hassanpour
6 de fevereiro de 2012
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O argumento de que as redes sociais têm influência no incitamento à rebelião costuma se basear na seguinte premissa: as mobilizações dependem da disponibilidade de informação que traga à tona uma verdade até então oculta. Portanto, as mídias on-line teriam um papel na tomada de consciência da populaçãoNavid Hassanpour

Em janeiro de 2011, o planeta acompanhou pelas telas o desenvolvimento da revolução egípcia. O levante foi transmitido ao vivo, como se câmeras, tweets e páginas do Facebook houvessem captado um thriller político protagonizado por milhões de atores. De estandartes em punho, tais atores organizaram manifestações para alertar as mídias e, através delas, a “comunidade internacional”. Não é de admirar que Wael Ghonim, jovem executivo do Google preso por um breve período durante as manifestações, tenha lançado a seguinte frase: “Se você quer uma sociedade livre, basta lhe dar acesso à internet”.1

Os acontecimentos no Egito oferecem um terreno ímpar para a verificação da validade dessa máxima: uma decisão de Hosni Mubarak, ainda no poder, foi uma experiência em escala natural para medir o peso político das mídias sociais.

Na manhã de 28 de janeiro de 2011, as autoridades do país decidiram interromper completamente as comunicações via internet e redes de telefonia móvel. Foi precisamente a partir desse momento que a mobilização popular decolou de verdade. A Praça Tahrir continuou coalhada de gente, enquanto outras cidades, como Alexandria e Suez, passaram a exibir manifestações. No Cairo, nossa análise de diferentes pontos de manifestação durante os dezoito dias do levante mostrou um aumento pronunciado e repentino de sua dispersão espacial:2 enquanto nos dias 25, 26 e 27 de janeiro de 2011 havia um local único de manifestação (a Praça Tahrir), no dia 28 eles saltaram para oito pontos. Ao cair da noite, nessa data, a multiplicação dos focos de protesto dificultou a tarefa da ordem.3 Por volta das 19 horas, o Exército foi chamado a colaborar, mas se recusou a intervir. Alguns dias depois, o regime de Mubarak, que durava trinta anos, ruiu.

O argumento de que as redes sociais têm influência no incitamento à rebelião costuma se basear na seguinte premissa: as mobilizações dependem da disponibilidade de informação que traga à tona uma verdade até então oculta. Portanto, as mídias on-line teriam um papel na tomada de consciência da população. No caso do Egito, elas teriam revelado a amplitude da opressão, levando as pessoas recém-informadas a passar para a ação.

Mas ocorre que as comunicações verdadeiramente insurgentes costumam permanecer invisíveis. Quando não é assim, a elite dominante as detecta e proíbe, em geral de maneira imediata. Aliás, a informação “revolucionária” nem sempre é confiável. Um exemplo disso pode ser buscado na Revolução de Veludo em Praga,4 quando falsos rumores sobre a morte brutal de um estudante de 19 anos colocaram lenha na fogueira. Outro, na queda do Muro de Berlim: pelo menos em parte, ela se deveu a uma declaração deturpada em uma coletiva de imprensa que, indo ao ar na Alemanha Oriental, incitou os manifestantes a passar livremente para Berlim Ocidental.5

Em tempos de agitação popular, portanto, o exagero e a falta de informação podem ser mais eficazes que detalhados relatórios dos abusos do poder. Se as mídias sociais favorecem a mobilização política, não é porque contribuem para a emergência da verdade.

A propaganda centralizada do Estado costuma ser chamada de “ópio do povo”. Mas, de maneira mais sutil, as novas mídias sociais também podem desencorajar a tomada coletiva de riscos. O que assegura a manutenção da ordem são menos o controle e a vigilância que o poder exerce sobre os indivíduos do que sua visibilidade aos olhos dos outros. Assim, o status quo não deriva necessariamente de uma coerção efetiva, mas da certeza de que ela ocorre. Quando esse conhecimento comum desaparece, a população é capaz de forjar uma concepção de risco independente do Estado.

Em um grupo composto de uma maioria que se opõe à tomada de riscos e uma minoria radical, injetar mais informação – mesmo não censurada – no interior da maioria não intensifica necessariamente a mobilização. Já a interrupção dos meios de comunicação habituais fissura a unidade dos grupos de cidadãos que se opõem à tomada de riscos. Novos laços se formam, o que dá mais peso aos radicais e lhes proporciona novas oportunidades de organizar as pessoas mobilizadas e descentralizar as manifestações, complicando o trabalho das forças da ordem.

 

O mundo “real”

No Cairo, em 28 de janeiro de 2011, o bloqueio dos meios de comunicação pelo regime forçou os egípcios a encontrar novas formas de propagar, coletar e talvez até produzir informação. Um exemplo: as pessoas que estavam preocupadas com seus entes queridos não tinham outra escolha a não ser sair para tentar obter notícias. Fazendo isso, engrossaram a multidão nas ruas. Durante os confrontos que eclodiram na cidade, muitos centros locais – praças públicas, prédios estratégicos, mesquitas – foram transformados em pontos de aglomeração.

Nos dias seguintes, apesar da fragilização do regime e do crescimento da multidão na Praça Tahrir, o retorno das redes de comunicação não levou a um novo aumento da dispersão das manifestações. Assim, podemos estimar que a interrupção dessas redes ajuda a explicar um fenômeno: o governo egípcio foi privado de um meio de intimidação eficaz, a possibilidade de sugerir que uma repressão mais dura responderia à mobilização. As informações sobre a possibilidade de tal repressão não poderiam proliferar nas redes sociais e dissuadir os manifestantes.

Desse modo, a perturbação das comunicações por internet e telefonia móvel no dia 28 de janeiro de 2011 teria exacerbado a agitação popular de três maneiras distintas. Em primeiro lugar, permitindo a mobilização de cidadãos que até então não acompanhavam os eventos com particular interesse ou não se importavam muito com isso. Em segundo lugar, reforçando os contatos “em carne e osso”, favorecendo a ocupação do espaço público. Por fim, levando à descentralização dos locais de revolta, por meio de táticas de comunicação híbridas, produzindo um atoleiro bem mais difícil de controlar do que uma multidão concentrada apenas na Praça Tahrir.

Um processo semelhante parece ter se dado em Damasco, em 3 de junho de 2011. Após várias semanas de repressão violenta, o governo sírio decidiu utilizar a mesma tática do regime de Mubarak. Na sexta-feira, 3 de junho, a internet foi cortada em todo o país por 24 horas, com o objetivo de impedir uma mobilização em massa. “As manifestações de sexta-feira parecem ser as maiores das dez semanas de revolta”, escreveu um correspondente da Associated Press que estava em Beirute. “Um grande número de pessoas se reuniu em cidades e aldeias que até então não tinham essa mobilização. Manifestantes também se reuniram em diversos subúrbios de Damasco, onde as manifestações se concentraram nas últimas semanas.”6 Proliferação das manifestações e aumento de sua dispersão espacial: mesmo cenário do Egito.

Devemos então concluir que a censura do Twitter é mais revolucionária que o Twitter?

*Navid Hassanpour é doutorando em Ciência Política na Universidade de Yale, Estados Unidos.



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