Riscos e perspectivas de alianças de classes - Le Monde Diplomatique

O LUGAR DA CLASSE MÉDIA

Riscos e perspectivas de alianças de classes

por Dominique Pinsolle
4 de maio de 2012
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Num momento de eleições, uma aliança entre classes populares e médias parece evidente para grande parte da esquerda francesa, que desejaria uma frente “antisarkozysta”, “antiliberal”. Porém, esse tipo de coalizão normalmente resulta no abandono de projetos de transformação mais avançados em prol de reformas limitadasDominique Pinsolle

“Se a ordem social for realmente ameaçada, se os grandes princípios sobre os quais ela repousa se encontrarem submetidos a um risco sério, muitos oponentes entre os mais determinados, muitos republicanos entre os mais entusiastas seriam então, estamos convencidos, os primeiros a se unir às fileiras do partido conservador.”1 Essa predição, formulada em 1846 por Camillo Benso, o conde de Cavour, futuro chefe do governo piemontês e artífice da Unificação italiana, já naquela época se revelava acertada.

A burguesia se uniu ao “partido da ordem”, e a aliança conjuntural e heterogênea de 1848 – reunindo artesãos tradicionais, empregados dos setores ainda não industrializados, operários, estudantes, pequena burguesia comerciante e intelectuais – obrigou definitivamente os governantes a não ignorar mais as aspirações populares.

Marx e Engels, que publicaram nesse mesmo ano o Manifesto do Partido Comunista e participaram dos levantes, concluíram que o proletariado devia contar apenas consigo mesmo. Marx denunciou, entre outros, a burguesia francesa: “A fraternidade durou apenas o tempo em que o interesse da burguesia foi irmão do interesse do revolucionário. […] Nenhuma das numerosas revoluções da burguesia francesa depois de 1789 foi um atentado contra a Ordem, pois todas deixavam subsistir a dominação de classe, a escravidão dos operários, a ordem burguesa, apesar da mudança frequente na forma política dessa dominação e dessa escravidão”. A conclusão dos dois autores do Manifesto foi simples: os proletários deveriam se constituir como força política independente antes de fechar alianças.

Na Alemanha, Karl Kautsky, levando em conta, no fim do século XIX, a elevação geral do nível de educação e o aumento do poder das profissões intelectuais – médicos, advogados, juízes, professores, engenheiros, empregados –,perguntava-se: essa Intelligenzque se situa entre a burguesia e o proletariado poderia se tornar uma aliada dos socialistas? Até porque uma parcela cada vez mais importante dessas camadas intelectuais vivia e trabalhava em condições próximas às do proletariado.

Kautsky considerou que a camada proletarizada da Intelligenzpoderia se unir ao socialismo, desde que a classe operária fosse poderosa o suficiente no plano político para impor sua opinião.2 Algum tempo depois, em O que fazer?, publicado em 1902, Lenin fez do Partido o instrumento privilegiado para permitir ao proletariado se constituir como força revolucionária autônoma. A tomada do poder pelos bolcheviques na Rússia, em outubro de 1917, consagrou o sucesso da tática leninista em um país ainda muito parcialmente industrializado, mas a extensão da revolução socialista no resto da Europa se revelou, no entanto, impossível.

O governo social-democrata alemão reprimiu com sangue a insurreição berlinense de janeiro de 1919. As “Repúblicas dos Conselhos” da Baviera e da Hungria foram esmagadas durante o mesmo ano. Na Itália, o fracasso dos movimentos revolucionários de 1919-1920 levou Antonio Gramsci a se aproximar do modelo do partido leninista, antes de teorizar o conceito de “hegemonia” intelectual e cultural nos anos 1930. Antes de tentar tomar o poder, concluiu ele, a classe operária deveria ser capaz de impor suas concepções, seus valores e suas ideias políticas, a fim de garantir o consentimento das classes sociais às quais ela deveria se aliar.

Na França, a questão da aliança de classes se colocou em outros termos. O debate esquentou a partir do fim dos anos 1920: que atitude adotar diante do desenvolvimento das classes médias? Na Seção Francesa da Internacional Operária (Sfio), Marcel Déat estimou que estas últimas se tornariam as aliadas naturais da classe operária, na medida em que os camponeses proprietários, os artesãos, os comerciantes, os funcionários e até os pequenos industriais também estavam ameaçados pelo capitalismo financeiro. Daí a necessidade de um acordo entre uma classe operária heterogênea e declinante e camadas médias em pleno desenvolvimento, além de uma redefinição do papel do Estado, que não podia mais ser concebido como um instrumento a serviço de uma única classe.3 Déat afirmou que os socialistas deveriam pregar a “restauração do Estado” e a “proteção da nação”, que era o que esperavam, segundo ele, as classes médias.

Ao que Léon Blum replicou: “Eu desconfiava que transformariam o socialismo, o partido de classe, em um partido de sem classes. Eu desconfiava que, procedendo como o fascismo para uma multidão de massas confusas, afogava-se a ação de classe do Partido Socialista nesta enchente de aventureiros […] que carregou uma a uma todas as ditaduras da história”.4

O medo de ver os “sem classe” tão desprezados por Blum escaparem para o fascismo obrigou os comunistas e os socialistas franceses a considerá-los aliados necessários. Para evitar isso, o Partido Comunista Francês (PCF), em 1934, declarava: “Ao lado dos proletários, […] queremos levar as classes médias, arrancando-as da demagogia do fascismo. […] Devemos tomar nas mãos a defesa de cada reivindicação das classes médias a partir do momento em que elas não se opõem aos interesses do proletariado”. Eles se referem principalmente aos empregados, funcionários públicos, pequenos lojistas, artesãos e camponeses.

Frágil aliança

Em outubro de 1934, o secretário-geral do PCF, Maurice Thorez, propôs estender a mobilização antifascista a novas forças políticas e sociais e selar “a aliança das classes médias com a classe operária”, o que supunha estender a mão ao Partido Radical, ao Comitê de Vigilância dos Intelectuais Antifascistas e à Liga dos Direitos Humanos.

A Frente Popular ganhou as eleições de 1936. Até mesmo a direita do Partido Radical se aliou à participação no governo conduzido por Blum, na óptica de defender as classes médias. Mas a aliança não durou. As grandes greves de junho de 1936 permitiram à classe operária obter conquistas (férias pagas, semana de quarenta horas) que não figuravam no programa da Frente Popular. Os pequenos comerciantes e os industriais, que frequentemente votavam na Frente Popular na esperança de dar cabo da crise, denunciaram essas concessões feitas aos grevistas, argumentando que a redução do tempo de trabalho e os aumentos de salário provocavam o risco de inflação. Em Grenoble, a entrada em vigor das quarenta horas provocou manifestações dos comerciantes e dos artesãos.

Os comunistas lembravam a Blum que a Frente Popular deveria “defender a pequena propriedade contra as duzentas famílias”; eles o repreendiam por se acomodar muito facilmente à proletarização das classes médias. Ao que Thorez retorquiu que “nem tudo é possível agora”, pois o objetivo prioritário continuava sendo preservar a “coesão das massas” e evitar a qualquer preço “isolar a classe operária”.5

Foi preciso esperar os anos “vermelhos” das décadas de 1960 e 1970 para que a questão da aliança entre as classes populares e as classes médias aparecesse novamente.

No fim dos anos 1960, as classes médias chilenas eram, em grande parte, representadas pela Democracia Cristã (DC), cuja ala esquerda se uniu aos radicais e aos partidos operários socialista e comunista para apoiar a candidatura de Salvador Allende às eleições presidenciais de 1970. Este foi eleito com apenas 36,7%; 40 mil votos a mais que o candidato da direita, Jorge Alessandri.

Allende pregava uma revolução legalista, respeitando o funcionamento das instituições democráticas do país. Seu governo de União Popular (UP) colocou imediatamente em ação um programa de ruptura com o capitalismo: nacionalização do cobre (principal riqueza nacional) sem indenizações às companhias norte-americanas, aceleração da reforma agrária, passagem para o controle do Estado dos grandes bancos, dos setores do papel e têxtil, do carvão, da indústria siderúrgica etc.

A oposição continuava majoritária nas duas câmaras do Parlamento; a extrema esquerda acusava o governo de reformismo; os Estados Unidos manobravam para derrubar Allende… Apesar de tudo, ele conseguiu ampliar sua base eleitoral e levou quase 44% dos votos nas eleições legislativas de março de 1973, sem, no entanto, se tornar majoritário no Parlamento. Allende contava com o apoio dos operários, de uma grande parte dos funcionários públicos, dos artesãos e profissões liberais, o que se revelou determinante nos três anos de seu governo.

O objetivo de seus adversários, como conta o comunista chileno José Cademartori Invernizzi (deputado e ministro da Economia em 1973), era “organizar as classes médias contra a União Popular”.6 A fim de capitalizar esse descontentamento, a DC exigiu novas eleições. Ela tentou em vão destituir o presidente, abrindo assim o caminho para um golpe militar. No dia 11 de setembro de 1973, o general Augusto Pinochet, com o apoio da grande burguesia e dos Estados Unidos, derrubou o governo da UP, colocando fim a essa experiência de revolução pacífica.

Alguns, como o secretário-geral do Partido Socialista Chileno, Carlos Altamirano, viram na derrota da UP a prova do conservadorismo das classes médias. Em vez “de excitar seu egoísmo e satisfazer suas reivindicações materiais”, escrevia ele, seria preciso integrá-las “num grande projeto visando mudar a vida” e submetê-las a uma “autoridade real e efetiva”, pois a “pequena burguesia estima acima de tudo o exercício da autoridade, da ordem e da disciplina”.7

 

Um histórico de traições

Como as classes médias nem sempre são conservadoras nem o proletariado necessariamente progressista, é importante perceber em que condições um projeto de transformação radical da sociedade conseguiria reunir dois grupos sociais numericamente majoritários, mas cujos interesses podem divergir.

Foi essa dificuldade que o Programa Comum de Governo da esquerda francesa, assinado em junho de 1972, tentou superar. O PCF, juntamente com o PS, inspirados pelos sucessos dos seus camaradas italianos, começaram a se interessar novamente pela sorte das classes médias. Nesse momento, Mitterrand, uma liderança emergente, esforçou-se para atrair as novas classes médias assalariadas, então em plena expansão. Para conseguir isso, retomou para si uma parte da herança de Maio de 68, principalmente no plano da liberalização dos costumes e da cultura. Nesse terreno, o caminho estava ainda mais livre porque o PCF, inquieto ao ver que a dinâmica unitária beneficiava eleitoralmente seu parceiro, voltou-se progressivamente para um discurso trabalhista. A divergência se tornou manifesta em 1977, com a ruptura do programa comum. As duas formações de esquerda, daí em diante, passaram a se enfrentar.

Quatro anos depois, Mitterrand foi eleito presidente. Ele prometeu a “ruptura com o capitalismo” e, para consegui-lo, “uma sólida aliança de classe”,8 que reencontraremos nas urnas em 10 de maio de 1981. A “virada do rigor” operada em 1983 (congelamento dos salários, reestruturações industriais maciças) deveria então ser interpretada como a enésima traição dos representantes políticos das classes médias para com seus aliados operários?

Margaret Thatcher e Ronald Reagan tinham sido eleitos um pouco antes no Reino Unido e nos Estados Unidos. Desde 1982, os altos funcionários do governo francês tiveram uma importância determinante na redefinição da estratégia socialista.9 Tudo aconteceu então como se os socialistas no poder tivessem rapidamente levantado a ponte levadiça entre o Estado e a sociedade, “deixando a seus aliados, reais ou potenciais, uma escolha limitada entre a tomada da fortaleza e a retirada”.10 A ideologia liberal em voga em todos os outros lugares do mundo ocidental tornava provável que as dificuldades do novo governo fossem logo interpretadas como uma inadequação da doutrina socialista às realidades do novo mundo.

Apesar da diversidade das situações, os obstáculos das alianças entre as classes populares e as médias continuam os mesmos. O medo suscitado nestas últimas pelos projetos que elas julgam muito radicais – quer dizer, suscetíveis de ameaçar a propriedade privada ou o valor da poupança – parece constituir um dado invariável. No entanto, principalmente num período de crise aguda, o medo de um desmantelamento contra o qual o sistema em vigor parece impotente (quando não é diretamente o seu arquiteto) favorece alianças ou encontros em torno de objetivos de “salvação pública”.

O endurecimento das desigualdades, a pane da mobilidade social e o caráter cada vez mais minoritário da elite que controla os Estados, sem se preocupar com o destino dos povos, podem favorecer uma união de interesses que a história frequentemente comprometeu.

Dominique Pinsolle é historiador.



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